"Comprámos porque o dinheiro está mais seguro nas casas do que no banco", confessou Eugénio Guerreiro, depois de ter arrematado por 42 mil euros, o valor-base, um T1 com 40 metros quadrados, em Portimão.
O empresário de 60 anos, que foi ontem ao leilão realizado pela Euro States no Pavilhão Multiusos da FIL, em Lisboa, é só um dos muitos casos de particulares que está a canalizar as suas poupanças para a compra de imóveis como forma de as rentabilizar. "A crise gera oportunidades como estas, podemos alugar ou vender", reforça o filho de Eugénio Guerreiro, Bruno, um jovem de 26 anos, comercial de profissão."Notamos que há cada vez mais particulares a ir a estes leilões para comprar como investimento, em alternativa às poupanças no banco - sentem-se mais confortáveis", explica Ana Luísa Ferro, directora comercial da Luso-Roux, outra das grande empresas do sector, a par da Euro States.Mas "os particulares também vão a estes leilões para vender, seguindo uma tendência muito anglo-saxónica". Ou seja, "muitos particulares em dificuldades para pagar empréstimos, vendem as suas casas nestes leilões e optam pelo arrendamento como forma de equilibrar a sua vida", justifica Ana Luísa Ferro.O número de famílias que já não consegue pagar as suas casa não pára de crescer. O crédito malparado na habitação, de acordo com o Banco de Portugal, atingiu dois mil milhões de euros, até Agosto. Pouco passava das 16:00 quando da plateia do leilão, o maior deste ano, com 237 imóveis da Caixa Geral de Depósitos à venda, no valor de 15 milhões de euros, começaram a surgir as primeiras licitações. O remate da primeira venda foi dado ao 2.º lote - um T2, em Sesimbra, com 72 metros quadrados, por 51.500 euros. A raqueta voltou a ser levantada para um T3 (além dos quartos, sala com lareira, 2 WC, arrecadação e sótão, com 122 m2), situado num condomínio fechado, por 100 mil euros. Uma senhora de meia idade, que escusou falar ao DN, levantou a raqueta 128, a mesma que ergueu mais tarde quando deu a ordem de compra a um outro T3 no mesmo condomínio, em Mafra.Mas a grande emoção deu-se quando chegou a vez de um T1, com 60 metros quadrados, em Loulé, com base de licitação de 68 mil euros. O facto de ser um apartamento com vista para a praia, a onde se chega em 5 minutos a pé, e de estar próximo de restaurantes, comércio e hotéis ditou vários lances de interessados, tendo sido arrematado por 79 mil euros.Vários imóveis, entre 31 mil e 199 mil euros, acabaram por ir à praça sem que muitos candidatos tivessem avançado para a compra. Pelo meio ainda surgiu um T3, em Mem Martins, com 90 metros quadrados, para arrendamento por 360 euros/mês, mas lá ficou pois ninguém se mostrou interessado.A crise e as medidas de austeridade, na verdade, estão a provocar uma retracção até nos leilões de imóveis penhorados, onde os preços chegam a ser 30% mais baixos e os empréstimos estão garantidos a 100%. Desde o início do ano chegaram mais imóveis aos leilões - entre 3500 a 4000 -, mas as vendas têm caído. No mesmo período do ano passado, as vendas andavam entre os 70% e os 80%, este ano rondam pouco mais de metade.