A Europa continua a ser o grande motor do crescimento das exportações nacionais do calçado, embora o setor venha alargando, paulatinamente, a sua presença internacional, chegando já a 173 mercados em todo o mundo. Um trabalho que começa a dar frutos, na medida em que os mercados extracomunitários pesam já 20% no total das vendas ao exterior. Em 2023, o setor investe 10 milhões na promoção externa, dos quais 5% se destinarão apenas a reforçar a presença nos EUA, com "apostas cirúrgicas" em cidades como Atlanta, Chicago ou Boston.
Acabada de bater o patamar mítico dos dois mil milhões - fechou 2022 com vendas totais ao exterior de 2009 milhões -, a indústria tem já nova meta estabelecida: chegar aos três mil milhões até 2030, o que implica crescer, em média, 5% ao ano até lá. Uma meta ambiciosa, mas que não assusta. "A ambição sempre esteve na génese do setor", diz o porta-voz da APICCAPS, a associação do setor.
Quanto aos motores de desenvolvimento para lá chegar, Paulo Gonçalves acredita que os mercados extracomunitários "vão ter um desempenho muito mais interessante" do que tiveram até aqui, com especial ênfase nos EUA, que é não só o maior mercado consumidor de calçado do mundo, como é aquele onde as previsões para o aumento do consumo são mais favoráveis. O último inquérito realizado pelo World Footwear, em 2022, aponta para um crescimento de 5% nas vendas de sapatos nos EUA em 2023, correspondentes a mais 156 milhões de pares.
E para conquistar uma fatia maior desse grande bolo que são os consumidores norte-americanos, a indústria vai avançar, já este ano, com uma "abordagem mais cirúrgica" ao mercado. "É impossível abordar os EUA como um todo, vamos fazer ações em várias cidades, desde logo apostando numa presença mais efetiva do calçado português em feiras locais", explica Paulo Gonçalves, à margem da Micam, a mais relevante feira de calçado mundial que ontem arrancou, em Milão.
Assim, além de Las Vegas, a intenção é reforçar a presença na feira de Atlanta e Chicago e "abordar de uma forma diferente" cidades como Boston. A APICCAPS está já a visitar e a realizar ações de charme junto de algumas feiras locais americanas, de modo a conseguir um lugar ao sol para as empresas portuguesas. "Trata-se de eventos muito exclusivos e nos quais não é fácil entrar", reconhece Paulo Gonçalves.
Numa década, as exportações portuguesas para os EUA passaram de 19 para 114 milhões de euros, tendo crescido 52% só no ano passado, mas o setor acredita que há muito espaço para crescer.
Um caso de Guimarães
A vimaranense Cruz de Pedra, empresa familiar criada em 1945 e que vai já na terceira geração, é um dos 33 expositores portugueses que por estes dias estão na Micam, em Milão, a mostrar as suas novas coleções para outono-inverno 2023-2024. Com 90 trabalhadores e uma faturação de seis milhões, a Cruz de Pedro cresceu 15% em 2022 e está já no patamar de venda pré-covid. Um dos mercados com que está agora a "trabalhar muito bem" é precisamente o americano.
Com uma carteira de encomendas já assegurada "até abril", o administrador José Afonso está em Milão "à procura de novos clientes e novos mercados" e assume-se "expectante" em relação à tão falada retração do consumo. Mais do que quebras, o que tem sentido é um atrasar na colocação das encomendas, "com receio dos clientes em fazer compras a longo prazo".
Diversificar
E a diversificação de mercados foi uma das prioridades destacadas pelo secretário de Estado da Internacionalização, que ontem visitou a comitiva portuguesa na Micam. Bernardo Ivo Cruz aproveitou o momento para reconhecer que 2023 será, por força dos efeitos da inflação e do aumento dos custos das matérias-primas, um ano "mais difícil para toda a gente", lembrando, no entanto, que as previsões existentes mostram que "Portugal vai continuar a crescer", embora a um ritmo menor do que em 2022.
"2023 será um ano mais difícil, mas talvez não tão difícil como temíamos no final de 2022, quando as previsões indicavam recessões em mercados tão importantes como Espanha ou Alemanha", disse Bernardo Ivo Cruz, sublinhando que o governo está a "trabalhar com as empresas, não só para que estas reforcem a sua presença nos mercados onde estão, mas sobretudo ajudando-as a encontrar novos mercados, diversificando o risco e conseguindo mais oportunidades de exportação".
E falou também sobre os desafios da nova equipa da AICEP, que entrará em funções em abril, e à qual caberá "preparar as empresas para um conjunto de exigências que agora fazem parte do mundo da exportação, nomeadamente a certificação ambiental e as responsabilidades sociais". Além disso, terá de continuar o esforço de diversificação de mercados e de reforço de colaboração com as empresas, as câmaras comércio portuguesas espalhadas pelo mundo e com as associações e confederações empresariais.
Aumentar o número de empresas portuguesas que exportam e diversificar mercados são, lembrou o governante, os "dois grandes objetivos" do Programa Internacionalizar 2030 e cabe à AICEP apoiá-las "nessa escolha de mercados, na identificação de oportunidades e na abertura de novas oportunidades". E porque a maior parte das exportadoras portuguesas são PME, Bernardo Ivo Cruz defende um trabalho em conjunto ao nível dos clusters. "É importante que as empresas portuguesas possam trabalhar em conjunto, reforçando a sua capacidade de internacionalização, repartindo o risco e repartindo o lucro desse exercício".
A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS