O número de desempregados da indústria do couro inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional era de 2716 pessoas, em julho de 2023, o segundo valor mais baixo nos meses homólogos dos últimos 15 anos. Menos, só os 2354 registados em julho de 2022, um ano "excecional" para o setor, que cresceu a dois dígitos e ultrapassou a marca histórica dos dois mil milhões de euros exportados. Antes da pandemia, em 2018 e 2019, anos de expansão, o setor tinha mais de 2800 desempregados inscritos. "Falar em desemprego em catadupa como temos ouvido não faz qualquer sentido, os dados do IEFP mostram-nos que estamos com números historicamente baixos", sublinha o diretor de comunicação da associação setorial APICCAPS.
Paulo Gonçalves lembra que o emprego na fileira do calçado cresceu 2,7% em 2022, ano em que foram criados 2737 novos postos de trabalho no setor. Destes, mais de metade foram criados pelas fábricas de calçado, indústria que aumentou o emprego em 4,8% e terminou o ano com quase 32 300 funcionários. A indústria de componentes contratou 659 novos funcionários, um aumento de 14,8%, e os artigos de pele cresceram 22%, com a entrada de 600 novos colaboradores. No total, a fileira terminou o ano a dar emprego a 40 730 pessoas.
Melhor que o têxtil e vestuário
Mas, em 2023, com o agravar da conjuntura económica na Europa, as encomendas estão a encolher, o que gera preocupação junto das empresas. Com quebras ainda muito distantes das verificadas na indústria do têxtil e vestuário (ITV) - as exportações de calçado estão a cair 9% em quantidade e 1% em valor, que comparam com os 12,5% em quantidade e 5% em valor da ITV -, mas consciente que o cenário macroeconómico se está a deteriorar, a associação do calçado tem "mantido conversas regulares" com o governo no sentido de alertar para a necessidade de haver uma melhoria nas condições de acesso ao lay-off e de serem reforçados e agilizados os apoios em matéria de promoção externa.
"Há muito que consideramos o lay-off como uma medida de gestão interessante ao serviço das empresas e que as aconselhamos a recorrerem a este instrumento em momentos conjunturalmente adversos e de escassez de encomendas. Mais vale recorrer ao lay-off do que despedir trabalhadores ou fechar empresas", diz Paulo Gonçalves, à margem da Micam, a feira de calçado que ontem arrancou em Itália, com 32 marcas portuguesas representadas.
Segundo o responsável, desde janeiro, houve 11 empresas da fileira do calçado que recorreram ao lay-off, em fases diferentes do ano, sendo que, no total, foram abrangidos 270 trabalhadores. "A situação está conjunturalmente difícil, mas não é alarmante. Não temos qualquer informação de empresas a fechar em catadupa ou de despedimentos em massa", sublinha.
Apoios com requisitos "difíceis"
Sobre o Qualifica Indústria, o novo programa de apoio à formação na indústria, a APICCAPS considera-o bem-vindo. "Não é a solução, mas é parte dela, a par de outras iniciativas. A primeira das quais é lutar por encomendas, indo aos mercados internacionais, como estamos a fazer aqui na Micam. Depois, haverá empresas que terão fases do ano em que terão quebras de encomendas e redução da capacidade produtiva, e o Qualifica pode ser útil nessas fases em complemento ou em paralelo com o lay-off ou com outros programas que possam existir", diz o diretor-geral da associação.
Sobre o facto de o novo programa só se aplicar a empresas com quebras de faturação de 25% ou mais, João Maia assume que é um requisito "difícil de cumprir", tal como serão outros como as empresas não poderem ter feito despedimentos nos três meses anteriores à candidatura, mas desvaloriza a situação. "Estamos habituados a viver com a legislação que existe, o programa está desenhado assim, temos que viver com ele", diz.
A APICCAPS reclama ainda que, em face da situação excecional que se vive na Europa, fruto da guerra na Ucrânia, os apoios à promoção externa, que hoje cobrem entre 40 e 50% dos gastos, deveriam ser reforçados de modo a que as ajudas fossem "mais expressivas". Quanto ao atraso nos pagamentos, João Maia desvaloriza também a situação. "O projeto só foi formalmente aprovado a 31 de agosto, não era expectável que já tivéssemos o dinheiro. É evidente que gostaríamos que tivesse vindo mais cedo, mas temos que perceber que estamos numa fase de transição entre quadros comunitários, o que não é fácil quando o governo e as entidades que gerem esses sistemas de incentivos tiveram que implementar, em paralelo, um PRR. Gostávamos que não houvesse esse atraso mas percebemos porque é que ele existe", sublinha.
A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS