Canadianos aceleram investimentos em Portugal para chegar a mil milhões até 2023

Nem a pandemia nem a crise política travam a aposta da Mercan Properties no país. Empresa não descarta crescer por aquisição mas está mais focada em criar ativos de raiz. Quer chegar ao final de 2023 com mais de duas dezenas de projetos em solo nacional. E prevê criar dois mil postos de trabalho diretos.
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A Rua das Flores, no Porto, é uma das mais frequentadas por residentes e turistas. Não está longe de pontos emblemáticos como a estação de São Bento ou a Igreja dos Clérigos, sendo um ponto de interesse. Não é por isso de estranhar que há aí vários hotéis - e um deles é a Casa da Companhia, que abriu portas em julho pela mão da Mercan Properties (que pertence ao grupo canadiano Mercan). E não é o único exemplo da aposta da empresa, quer na região quer no país: neste momento, tem em desenvolvimento 14 projetos imobiliários no ramo do turismo, em localizações como Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Lisboa, Amarante, Évora e Algarve. O investimento é estimado em 400 milhões de euros. Mas não se fica por aqui. O grupo quer somar a este valor mais 600 milhões até ao final de 2023, alcançando a fasquia de mil milhões de euros e criando dois mil postos de trabalho diretos.

"Entrámos em Portugal em 2015. Na altura, com um único projeto, a Casa da Companhia, que é um hotel que concluímos e abrimos em julho. Entretanto, já abrimos o segundo em Amarante, a Casa das Lérias. São dois edifícios com história, ao contrário de outros projetos que temos em curso e que pretendemos abrir no início do próximo ano. Até hoje, temos 14 projetos. O investimento total é de 400 milhões de euros. A verdade é que estamos numa fase de impulsionar este investimento e nestes próximos dois anos vamos alargar este volume até aos mil milhões de euros", conta em entrevista ao Dinheiro Vivo Miguel Gomes, Construction & Development General Manager da Mercan Properties.

Citaçãocitacao"Até agora temos quatro projetos no país, num total de 400 milhões de euros. Estamos na fase de impulsionar o investimento."esquerda

O número de projetos que pretendem lançar - para somar a estes 14 - não é definitivo ainda. Miguel Gomes explica que isso vai depender da dimensão dos projetos, mas aponta que "seguramente mais uma dezena de projetos" vão ser lançados até ao final de 2023. "Teremos alguns abertos, outros em curso. Infelizmente, alguns provavelmente estarão em licenciamento. Serão, provavelmente, 25 que iremos ter no final desse ano [2023]. Não trabalhamos muito pelo número unidades hoteleiras mas pelo volume de investimento que captamos", salienta.
Após seis anos em Portugal, o interesse pelo mercado não só não esmoreceu, como foi acentuado.

E nem a crise política em que o país mergulhou fez perigar a aposta. A Mercan assume uma diversidade em termos de categoria das unidades hoteleiras, contando com segmentos de luxo como mais económicos. "Estamos a pensar em caminhar também pela área do bem-estar e do wellness, são surpresas que vamos lançar em breve", admite. Em termos geográficos, a empresa também aposta na diversificação. Neste momento, tem sete projetos no Porto, mais dois nos arredores - em Matosinhos e em Gaia - e outro em Amarante (Casa das Lérias). Um na grande Lisboa, dois em Évora e ainda um no Algarve.

"Estamos a alargar os horizontes e são estes os mercados que iremos trabalhar a médio prazo. Além do Porto, onde já estamos com alguma dimensão, seguramente iremos alargar em Lisboa e no Algarve", diz. Miguel Gomes admite mesmo estar "a estudar" a Madeira e os Açores, mas "não incorporamos nem temos nenhuma perspetiva a curto prazo de lá entrar". "Não fechamos portas a nenhuma localização ou geografia, mas temos as nossas prioridades", acrescenta.
A fatura que a pandemia passou ao turismo é pesada e ainda não está fechada. Portugal não foi exceção e, apesar dos apoios lançados para ajudar as empresas a tentarem manter-se à tona, haverá alguns casos, como admitiu o líder da AHP, Raul Martins, nesta semana ao Dinheiro Vivo, que podem não conseguir aguentar e ter de mudar de mãos. Miguel Gomes abre a porta ao crescimento por aquisições mas assume que não é a opção preferencial. "Estamos à procura e disponíveis para estudar todos os processos que nos façam chegar e que estejam disponíveis para estudo. Não é tanto o nosso [método] preferencial adquirir ativos em funcionamento mas não fechamos a porta. Temos estudado algumas oportunidades e continuaremos a estudar", responde. E acrescenta que "pode haver" novidades em breve mais para o sul.

O modelo de negócio da Mercan Properties assenta primariamente em procurar e encontrar oportunidades. Em muitos casos trata-se de começar do zero: encontrar o terreno, fazer estudos, passar ao licenciamento e, posteriormente, à construção do hotel. Com a unidade pronta, a gestão fica a cargo da Mercan, que dentro do grupo tem uma empresa especializada nesse negócio (Ace Hospitality Management). Além disso, a Mercan trabalha sob franchising de marcas internacionais, como a Hilton e a Marriott. "Não temos hotéis com gestão externa ao grupo. É estratégico para nós controlarmos sempre a operação, por diversas razões, mas desde logo para garantirmos que a Mercan mantém o seu padrão de qualidade."

A previsão é que o investimento nas infraestruturas hoteleiras comece a gerar retorno pouco tempo depois de estarem em atividade, aumentando então gradualmente. "Acreditamos e comprometemo-nos com os nossos investidores, aos quais geramos retorno pelo menos ao segundo e terceiro ano de funcionamento de cada unidade. A verdade é que os projetos em si são calculados com diferentes números e com retornos assinaláveis a partir do sexto ano", explica.

A expansão do portefólio prevista em Portugal até final de 2023, e que deve superar as duas dezenas de unidades hoteleiras, vai exigir muitos recursos humanos, até porque a gestão fica a cargo da própria empresa. "Nas 14 unidades que temos em projeto temos previstos 900 postos de trabalho diretos e são muito proporcionais aos postos de trabalho que temos gerados na fase de construção, ainda que não sejam diretos. No final deste plano que temos até 2023, estaremos a falar sempre acima de 2000 postos de trabalho", revela Miguel Gomes.

Não é segredo que o turismo em Portugal atravessa outra crise: a escassez de mão-de-obra. Era assim antes da pandemia e, apesar de numa menor dimensão, o problema persiste. "Em 2018, quando perspetivámos a abertura dos hotéis, sentimos de facto que existia escassez de mão-de-obra, o que nos levantou muita preocupação internamente. Acabámos por não abrir os hotéis porque entrámos na pandemia", conta o responsável, que acredita que o problema não tardará muito a regressar. O grupo Mercan tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de consultoria de investimentos, da educação e da imigração e admite ponderar a possibilidade de aplicar na Europa o que faz nos EUA: resumidamente, recrutar emigrantes para virem trabalhar no Velho Continente, no turismo.

Mas a questão dos recursos humanos no turismo não é a única preocupação. Há escassez de algumas matérias-primas, como metais industriais, há subida dos preços quer das matérias-primas quer dos transportes, o que é uma dor de cabeça. "Esperemos que não" afete os projetos. "A realidade é que nos preocupa bastante. Preocupa-nos em duas vertentes muito relevantes. Há um inflacionar de algumas matérias-primas, que coloca sempre algumas dificuldades na gestão económica dos dossiers. E isso estamos a ter em conta nos futuros projetos. Nos que temos são sempre situações de alguma delicadeza", refere. "Os próprios fornecedores se queixam e reclamam e sabemos que vem aí um PRR com muito investimento e obras públicas que ainda vai agravar esta situação. Vemos isso com muita preocupação", remata.

A situação da TAP e do novo aeroporto para a região de Lisboa é indissociável do turismo e para a Mercan o mais relevante no panorama da aviação é que seja "capaz de criar rotas turísticas interessantes e importantes para o turismo nacional. A Ásia é um mercado pouco explorado e que tem muita margem de crescimento, mas o norte-americano, que teve algum desenvolvimento pré-pandemia, precisa de ser relançado", defende.

Quanto ao aeroporto, "o turismo é vital para toda a economia, para Portugal, e para um país periférico como o nosso ter esta atividade económica tão bem lançada, com tanta capacidade, tem de se aproveitar e explorar na sua máxima capacidade".

"O que esperamos do governo - seja ele qual for - é que entenda que o turismo é um dos pilares atuais e futuros da economia portuguesa e que todas as infraestruturas públicas que podem e devem ser colocadas ao serviço do turismo devem ter carinho especial por parte do governo", remata.

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