Canadianos da Mercan investem 1,4 mil milhões no turismo à boleia de 2500 vistos gold

A Mercan Properties reforça o investimento no país com a expansão do portefólio para sul. O Algarve é a segunda grande aposta da empresa, com seis hotéis orçados em 384 milhões de euros. Norte-americanos são já os principais investidores e indianos ocupam o segundo lugar.
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A paixão da Mercan Properties por Portugal começou a norte quando, em 2015, decidiu dar os primeiros passos no país. A empresa, que integra o grupo canadiano Mercan, soma já dez projetos nas cidades de Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos e Amarante - cinco dos quais já abertos, o primeiro em 2021 - quer alargar horizontes e firmar a aposta até ao sul e ilhas.

Os planos de crescimento são ambiciosos. Até ao final do próximo ano, estima reforçar o investimento em Portugal, atingindo a fasquia dos 1,4 mil milhões de euros, superando o orçamento inicial previsto para os próximos 12 meses e criando três mil postos de trabalho diretos. "Atualmente, totalizamos 23 projetos hoteleiros no país que têm um investimento estimado de 890 milhões de euros. Este plano tem concretização prevista até 2025, mas estamos a reforçar os objetivos que tínhamos traçado no ano passado, e que previam que até ao final de 2023 este portefólio pudesse crescer até aos mil milhões de euros de investimento. Fruto do bom desempenho que temos tido, vamos tentar crescer até aos 1,4 mil milhões de euros", revela ao Dinheiro Vivo Miguel Gomes, construction & development general manager da Mercan Properties.

O responsável adianta que a revisão do orçamento irá permitir a entrada de mais dez projetos durante 2023. Com a estratégia a norte afinada, o Algarve é a segunda grande aposta da empresa, com uma fatia de 43% do orçamento atual destinado à região. São 384 milhões de euros para seis ativos hoteleiros: dois em Lagos, que irão operar sob a marca Hilton, dois em Portimão e um em Faro. A construção dos hotéis arranca nos próximos dois anos e as aberturas estão calendarizadas para 2025 e 2026. Apenas a unidade de Faro resultará da reabilitação de um ativo existente, sendo as restantes cinco construídas de raiz.

"No Algarve os projetos serão de maior dimensão face aos que temos nos centros urbanos, como no Porto ou em Lisboa. O tipo de turismo e o público-alvo são diferentes. Temos hotéis que chegam às 400 unidades de alojamento", deslinda Miguel Gomes.

Também no início de 2023 arrancará a construção dos três primeiros hotéis na capital - que resultarão de projetos de reabilitação - num investimento que ascende aos 133 milhões de euros. O centro empresarial de Alfragide dará lugar ao investimento mais caro em Lisboa, o Moxy Alfragide Lisbon, que custará 63 milhões de euros e terá uma oferta de 218 quartos. Em Loures, próximo do aeroporto, irá nascer um quatro estrelas com 230 quartos, orçado em 38,5 milhões de euros. A tríade de estreia na capital portuguesa fica completa com a aposta de 31,5 milhões de euros na zona histórica da cidade, com 80 unidades de alojamento, entre o Bairro Alto e o Chiado.

O Alentejo não fica de fora dos planos e, além do cheque de 57 milhões de euros passado aos dois hotéis já anunciados - Hilton Garden Inn Évora, que abre no primeiro trimestre de 2023, e Holiday Inn Express Évora Hotel que se inaugura em 2024 -, a Mercan Properties vai pagar 37,8 milhões de euros por mais dois projetos na região, sendo um deles um pequeno hotel na freguesia de Santo André, em Santiago do Cacém.

A empresa, que desenvolve projetos imobiliários no setor do turismo, nunca escondeu a vontade de ampliar a operação às ilhas. O namoro com a Madeira já começou e, apesar de ainda não ter resultado em casamento, os canadianos esperam ter data marcada para a boda em breve. "Este foi o ano em que fizemos as primeiras prospeções de mercado, principalmente na Madeira, e investimos algum tempo na procura de imóveis. Identificámos potenciais investimentos mas por diversas razões, até ao momento, nenhuma se concretizou. Continuamos à procura muito convictos e com muita vontade de investir nas ilhas - primeiro na Madeira e depois nos Açores", assegura o gestor. O responsável conta que, além das ilhas, também o Douro está no radar dos investimentos.

Norte-americanos são os que mais investem
As mais de duas dezenas de projetos imobiliários no setor do turismo, que representam 2614 quartos, são financiados na totalidade através do programa dos vistos gold. Contas feitas, a Mercan Properties atraiu para solo nacional 2500 investidores estrangeiros; e se inicialmente eram os chineses os grandes interessados, atualmente o mercado norte-americano é o que pesa mais na carteira da empresa, sendo já o principal investidor, seguindo-se os mercados da Índia, China, Vietname, África do Sul e Rússia. Na lista de países seduzidos por Portugal constam ainda o Bangladesh, o Irão, o Paquistão e o México.

O responsável pela área de desenvolvimento da empresa canadiana assume, por isso, alguma preocupação com as mais recentes palavras do primeiro-ministro, António Costa, que durante a Web Summit admitiu estar a preparar um travão ao programa de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI), por este "já ter cumprido a sua função". "Os vistos gold tiveram um papel determinante ao nível da reabilitação urbana nos primeiros anos, em que praticamente não havia investimento imobiliário em Portugal, e vemos com alguma preocupação estas declarações", assume Miguel Gomes.

O engenheiro admite que poderá ser benéfico que o programa seja revisitado "mas sempre com o objetivo de o melhorar" e não de lhe colocar um ponto final, considerando "os benefícios que gera para a economia, para o turismo e para o emprego". "Raramente se fala dos benefícios que este programa trouxe ao longo destes dez anos em que está em vigor, de que é exemplo o investimento total de sete mil milhões de euros desde 2012, 90% no imobiliário [segundo os dados do SEF], e os postos de trabalho criados. Nós somos um bom exemplo de como os vistos gold contribuem de forma direta para a economia com a criação de postos de trabalho", aponta.

O porta-voz admite ainda que, no futuro, o objetivo da empresa é diversificar o modelo de negócio tanto na área de investimento como nos modelos de financiamento. "O mundo muda e as conjunturas mudam e iremos ajustar-nos a elas. Temos como objetivo a médio prazo diversificar o tipo de imóveis que edificamos, não investir apenas em hotelaria e entrar por outras áreas, como a residencial e os escritórios", garante.
Sobre o modelo de financiamento diz que a empresa não irá "ficar eternamente" a operar com vistos gold e o objetivo é diversificar as formas de investimento através de capitais próprios, da banca e de outros perfis de investidores.

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