Fundada em 2007 por um grupo de 30 investidores, a Seedcamp, que começou por ser uma aceleradora, tornou-se num dos maiores fundos europeus de investimento para startups em fase inicial (pre-seed e seed). Até hoje já investiu em 230 empresas um total de 365 milhões de euros. Só no ano passado, foram 60 os projetos apoiados, a maioria deles da área fintech (novas tecnologias aplicadas ao mundo das finanças).
Portugal tem sido um mercado importante para o fundo, por isso, são comuns as visitas da equipa. Antes de uma apresentação a fazedores na Beta-i, em Lisboa, Carlos Espinal, sócio da Seedcamp, falou ao Dinheiro Vivo.
Quais são as últimas tendências na área das startups? Para onde se andam a virar os novos negócios?
O processo de criação de uma startup é quase científico e tem vindo a melhorar com o passar dos anos. Tal como a Ciência ou a Medicina, quanto mais se pratica, melhor se fica. Passa-se o mesmo no mundo do empreendedorismo. As pessoas começam a seguir todas a mesma linha para otimizar as questões de marketing, as questões legais, pagamentos, infraestruturas. Hoje em dia, essa otimização já está a ser feita por startups. As startups que ajudam startups estão a ser uma tendência.
E existe algum setor que se destaque? Ou, por outro lado, existem setores que são mais fortes nalguns países, como por exemplo, o do turismo em Portugal?
O turismo é sempre uma área forte, tal como a área da restauração, retalho e serviços financeiros. Mas vamos ver a coisa por outro prisma. Cada parte do mundo tem áreas de maior atuação. Vejamos os combustíveis fósseis. Será que vão surgir startups relacionadas com o petróleo na Europa? Provavelmente não. A inovação nessa área surgirá de países que tenham essa riqueza natural. No território europeu, se calhar surgirão projetos mais relacionados com energias renováveis, por exemplo.
E em relação às startups, de que forma se deverão elas financiar? É melhor através de bootstrapping (reinvestindo toda a faturação) ou angariando fundos?
É um assunto controverso. São ambos bons caminhos. Depende do negócio, depende da rapidez com que é preciso crescer. Há projetos que não conseguem sobreviver sem financiamento exterior porque precisam de muito dinheiro. Imaginemos um negócio de entrega de comida: é preciso cozinhá-la e comprar os ingredientes. Em relação ao bootstrapping, ninguém poupa dinheiro suficiente que consiga avançar sozinho em certos projetos, de uma maior dimensão. Mas se estivermos a falar uma empresa de software, então sim, se calhar aí é fácil sobreviver com fundos próprios. Não é igual para todos.
E quais são os conselhos mais importantes que se pode dar a uma startup que está a tentar angariar capital externo?
O primeiro seria para trabalharem neles próprios: na forma como falam, no negócio em si – na ideia, na visão. É importante que pensem na cultura da empresa, na forma como constroem o produto, como falam com os clientes. Têm que trabalhar a maneira como comunicam isso tudo. É importante que causem uma boa primeira impressão aos investidores e estas áreas têm de estar muito bem trabalhadas. Depois: têm de criar relações! É a primeira coisa em que têm de se focar. Se não há relações, é muito difícil chegar à fase seguinte. Por último, que se certifiquem que compreendem na perfeição a forma como o seu produto impacta a vida dos seus clientes.
E porque está hoje em Lisboa?
A Seedcamp tem uma relação muito boa com a Beta-i e temos vindo cá várias vezes. Temos também aqui muitos parceiros: investidores portugueses e startups de Portugal que foram investidas por nós. É uma situação contínua mais do que um momento esporádico. Virei novamente daqui a duas semanas para a Web Summit.
Com a Web Summit, e todas as incubadoras e aceleradoras a nascer no país, Portugal está a ficar trendy no mundo do empreendedorismo?
A Estónia é um bom exemplo de um país que, através de políticas estatais, mudanças de mindset e com lideranças adequadas, se tornou conhecido no mundo como um lugar onde as startups podem ter sucesso. Acredito que é o que se está a passar agora com Portugal.
Com o Brexit, tem havido muita especulação sobre se as startups se manteriam ou não em Londres e, caso saiam, que cidade escolheriam para substituir a capital londrina. Lisboa pode ser uma opção?
Acho que a Europa ainda vai passar por muitas transformações ao longo dos próximos meses. Não acredito que as mudanças sejam só no Reino Unido. Podem acontecer também na Alemanha, na Itália, na França. Não consigo antever sequer se estaremos a falar de uma Europa unida daqui a um ano ou se mesmo o Brexit será uma saída muito suave. Não faço ideia. Não dá para especular.
E em relação às startups portuguesas que a Seedcamp apoiou, de quantas estamos a falar?
Em relação a Portugal, é importante ter em conta que o capítulo do empreendedorismo ainda está muito no início. Tem sido interessante acompanhar o caminho das startups portuguesas. Temos a Codacy que chegou até nós muito no início e agora o Jaime Jorge vai ser capa da Forbes. É incrível de assistir. Temos a Hole19, a CrowdProcess. Lógico que temos também outras que não correram tão bem. Mas faz parte.
E quanto a investidores portugueses?
Sim, temos a Caixa Capital a trabalhar connosco.
Quais são os maiores desafios que Portugal enfrenta para ser bem-sucedido nesta aventura do empreendedorismo?
Muito importante: é preciso desbloquear capital. Em todos os setores. É importante trabalhar a questão do alívio fiscal para que possa haver investimento. O governo português já está a trabalhar nisso. Londres é muito atrativa para as startups porque existe uma política forte de benefícios fiscais para investidores. Quando Portugal conseguir isso, fará uma grande diferença.