Nas últimas semanas, passei a ver a Globo
Internacional todos os dias. É o meu canal favorito. É mais ou menos como
emigrar, mas sem a chatice de ter de procurar trabalho, deixar a família e os
amigos para trás. Chego a casa, ligo-me à Globo e sinto-me longe de tudo o que
se passa por aqui. Mesmo quando o assunto somos nós, portugueses, é como se
olhasse de fora para o que se passa cá dentro. Neste domingo, a Globo noticiou
os cortes nas pensões e nos subsídios dos funcionários públicos. Que coisa
injusta, pensei - como se tivesse sabido disso só naquele momento.
Virei,
portanto, emigrante televisivo. Faço o que posso para fugir da dívida pública.
Bastam-me os ecos que me chegam ao longe de Portugal (curtos parêntesis) e
depois volto à realidade televisionada. Eu podia beber para esquecer - teria de
beber muito -, podia desgraçar-me com fertilizante para gramado (relva), mas
descobri que a Globo é mais eficaz, não me aliena completamente da realidade.
Tem um pouco de tudo, o que é bom, embora nem sempre tenha sido assim.
Antes,
eu fugia da informação dos canais brasileiros porque a tragédia era sempre a
mesma: violência e corrupção num círculo vicioso, interminável e monótono. Hoje, ainda há violência e corrupção, muita mesmo, mas também há uma atmosfera
geral positiva que reflecte o progresso social dos últimos dez anos no Brasil:
30 milhões de pessoas deixaram estatisticamente de ser pobres - embora não
vivam bem -, o que é uma evolução extraordinária. E há ainda a expectativa de
que o salto quântico vai continuar graças ao petróleo e às políticas sociais
que ele paga. Que grande oportunidade.
É
por isso que eu vejo quase todos os dias o programa do Jô Soares. Não por causa
do petróleo, mas porque redescobri outra riqueza natural: as entrevistas em que
o Jô exibe o bom e o mau do Brasil com sensibilidade e humor. Vejo o programa e
fico com vontade de me mexer. É bom sinal, não é? Também não perco o magnífico Altas Horas,
do Serginho Groisman, um dos únicos programas no mundo feito para gente nova
que não estupidifica, fala sobre todos os assuntos com normalidade, sem os
tornar exóticos (sem caretice e preconceito), mas também sem achar que
diferente e igual são a mesma coisa - cada macaco no seu galho. Muito bom este
Serginho; ele sabe que a vida nem é sempre para beber de penálti.
Chego a casa e sento-me a ver estas maravilhas.
Emigro e ganho distância sobre o que me está demasiado perto. É por isso que
quando me perguntam "o euro vai acabar amanhã?", contagiado pelo entusiasmo
brasileiro eu respondo que não, não agora, e que, embora a cimeira de amanhã
ainda não seja a definitiva, a Europa não deixará de ser a Europa que a minha
geração conheceu - um bom sítio para viver. Eu aposto nisso. Aposto que o
instinto de sobrevivência prevalecerá. Não há maior incentivo do que esse.