A Carris está em vias de comunicar a um seu motorista se vai despedi-lo por este não ter usado gravata. A denúncia foi feita pelo Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários Urbanos de Portugal (STRUP) e, também, motivou o Partido Comunista Português a perguntar ao Governo se "a gravata passou a ser um requisito para a condução de autocarros de passageiros ou estamos perante um acto vergonhoso, desumano e repressivo da administração da Carris".
Em protesto pelas medidas "persecutórias" e em sinal de apoio ao trabalhador que enfrenta o despedimento, o STRUP está a efectuar um abaixo-assinado numa gravata gigante, que será amanhã, numa acção de denúncia que partirá da estação de Miraflores, pelas 8.30 horas, entregue na Assembleia da República e no Ministério da Economia.
De acordo com Manuel Leal, dirigente do STRUP, "até há 15 anos, os requisitos dos uniformes utilizados na Carris eram sempre negociados com os sindicatos". Mas, "no final de 2009, num acto unilateral, a Carris tornou a gravata facultativa com manga curta e obrigatória com manga comprida". Ora, o trabalhador visado trabalha na Carris "desde o ano 2000, sem quaisquer registos a nível da condução", possuindo "indicação do médico da empresa, desde 2008, para não usar gravata devido a um problema de saúde", situação que terá sido aceite pela empresa até este ano.
Outros trabalhadores, adianta a mesma fonte, responderam este ano em processo disciplinar pela mesma falta de gravata: "Dois dirigentes sindicais, que foram punidos com 10 dias de suspensão". Estão, ainda, a decorrer "pelo menos mais três processos disciplinares por causa do uso de gravatas", e isto "contando só com os associados do STRUP, pois sabemos que há outros, não associados ou ligados aos outros sindicatos".
Na base do conflito estará o Acordo de Empresa, em cuja revisão os representantes dos trabalhadores não participaram e que tem vindo a ser alvo de protestos.
Sindicalistas e trabalhadores queixam-se de a Carris ter retirado o dia mensal para tratar de assuntos pessoais a que os trabalhadores tinham direito e o pagamento do trabalho nocturno ser feito, desde o final de Agosto, apenas com referência ao ordenado-base, havendo nota da "intenção da empresa de exigir retroactivos do que foi pago desde Janeiro" (quando era considerado o ordenado total).
Além disso, segundo Manuel Leal, estarão em causa "dez processos ganhos em tribunal, pelo sindicato, relativos ao pagamento do complemento de Baixa" pela empresa. "A Carris continua a não pagar o complemento de Baixa a quem não interpuser um processo em tribunal", reclama o sindicalista.
Uma vez que, em Junho, o PCP já alertara para a suspensão de 10 dias sem vencimento dos dirigentes sindicais que também não usaram gravata mediante atestado médico, desta feita os deputados perguntam ao Governo se "este tipo de atitudes, que envergonham o país e a democracia, não serão razão para despedir, não os trabalhadores, mas os engravatados administradores que as cometem".
"Não foi instaurado qualquer processo disciplinar porque o motorista se recusou a usar gravata. O processo em questão tem a ver com o facto do colaborador ter recusado três hipóteses de recolocação profissional, desrespeitando as Normas Internas e o Acordo de Empresa subscrito com as organizações sindicais", afirmou fonte oficial da empresa.No entanto, a mesma fonte lembra que "existe um regulamento de fardamento em vigor, que não foi objecto de alteração este ano, e que é amplamente conhecido pela empresa e tem de ser rigorosamente cumprido".