Casais. Construção modular vai chegar a mais quatro mercados na Europa

Os investimentos no reforço da capacidade industrial off-site estão em curso, mesmo sem dinheiro do PRR. Grupo prepara-se para levar o seu know-how de construção modular além da Península Ibérica. Entretanto, instalou-se na Arábia Saudita, onde há muito investimento e dinheiro a correr.
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O grupo Casais está determinado em ser uma referência nacional e internacional na construção off-site (ou modular) sustentável. Depois de ter construído em Guimarães o primeiro hotel híbrido (combinação de madeira e betão) da Península Ibérica em apenas 10 meses, um prazo só possível devido à aposta na industrialização da construção, prepara-se para levar o seu know-how a mercados como a Alemanha, Bélgica, França e Luxemburgo. Para isso, está a dar seguimento ao projeto de duplicar a capacidade de produção da Blufab, a fábrica do grupo especializada na produção em série de soluções como paredes técnicas e infraestruturas mecânicas para montar na obra, instalar uma carpintaria e arrancar, em conjunto com a Secil, com uma unidade de pré-fabricação de materiais de construção. São investimentos que no global ultrapassam os dez milhões de euros.

Estes projetos não foram aprovados no âmbito das Agendas Mobilizadoras para a Inovação Empresarial do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), mas o grupo de Braga não deixou cair as suas intenções de fortalecer a aposta na industrialização da construção e admite ter tudo operacional em 2025. Até porque, em 2024, quer estar a construir hotéis e residências nos quatro mercados europeus já referidos. Já este ano, tornou-se acionista da austríaca Cree Buildings, especializada em soluções construtivas sustentáveis.

O grupo português tinha já uma parceria com esta empresa ao nível das soluções para lajes estruturais e fachadas. Como sublinha António Carlos Rodrigues, CEO da Casais, "a Cree desenvolveu o problema da estrutura e nós do interior" dos edifícios. Sem divulgar o investimento e a participação nesta empresa, o gestor adianta que a Cree "tem um potencial de crescimento grande" e pode suceder a breve prazo "a entrada de investidores institucionais no capital". Na sua opinião, "nós só vamos impactar a forma de construir se juntarmos parcerias. Com a Cree podemos crescer mais rápido e ganhar escala".

Até porque, defende António Carlos Rodrigues, a construção off-site é a solução para a "insustentabilidade" do setor, um dos que mais impactam negativamente no ambiente. E também a forma de responder com celeridade e economia de meios a um dos problemas mais agudos do país, a falta de habitação. Como adianta, "se, desde o início, uma obra for toda industrializada reduz-se para metade o prazo de execução" e, em simultâneo, as necessidades de mão-de-obra. No hotel de Guimarães, em oito dias, o grupo construiu dois mil metros quadrados, volume que pelos meios tradicionais demoraria pelo menos dois meses. O número de pessoas em obra também diminuiu para metade, tendo sido necessários apenas cinco trabalhadores. Como frisa, "a montagem é uma operação logística", os componentes são construídos em fábrica e montados no local, como peças de lego.

Solução para a habitação

A industrialização da construção afigura-se também como solução para a escassez de mão-de-obra com que o setor se defronta e para o crescimento da massa salarial. Segundo o gestor, a Casais pensa "a sustentabilidade não apenas na vertente ambiental, mas também social". "Os trabalhadores passam a vida fora de casa, vão do Norte para o Sul, ficam longe das famílias, e com este trabalho em fábrica resolvemos parte dessa insustentabilidade, eleva-se a qualificação da mão-de-obra, a produtividade e os salários". Como frisa, "a subida dos salários não se faz por mera decisão administrativa, se não houver aumento da produtividade, não pode haver aumentos salariais". Em simultâneo, é mais fácil requalificar trabalhadores de outras áreas de atividade para a indústria da construção modular e integrar mulheres. A Blufab, a laborar desde 2019, emprega atualmente 31 colaboradores no chão de fábrica (quatro são mulheres) e 15 técnicos superiores (cinco do sexo feminino).

O grupo Casais está também apto a fazer parte da solução para o problema da falta de casas no país. Na sede, em Braga, edificou um protótipo de um apartamento T2 concebido de acordo com as regras para a construção a custos controlados, que serviu para ensaiar o prédio residencial que erigiu em Guimarães, junto ao hotel B&B. Segundo António Carlos Rodrigues, este sistema de construção de casas é utilizável em projetos de maior valor acrescentado, sendo apenas necessário substituir os materiais e equipamentos por outros mais nobres. Ou seja, a construção 4.0 pode servir todos os segmentos de mercado, de uma forma célere e ecoeficiente, mas os agentes têm que fazer a sua parte.

A construtora de Braga está preparada para marcar presença nos concursos de habitação/arrendamento acessível, mas só irá participar se for possível adaptar a sua solução construtiva. Segundo António Carlos Rodrigues, os projetos têm de ser pensados logo desde o início dentro dos princípios da modularidade, com as especificações do caderno de encargos direcionadas para o número de apartamentos, de pisos, dos metros quadrados edificáveis, sem perder tempo em detalhes para evitar incompatibilidades com o sistema off-site.

Enquanto isso, a Casais arrancou este ano com a construção de um hotel em Madrid, Espanha, e irá terminar até setembro as unidades hoteleiras de Vila Nova de Gaia e Olhão. Todos estes projetos baseiam-se na construção modular. O grupo quer construir uma rede de dez hotéis no país vizinho nos próximos quatro anos, concentrando o investimento na região de Madrid e Andaluzia. Em Portugal, onde já terminou os projetos do Montijo e Oeiras, está focado no desenvolvimento nas regiões urbanas do Porto e Lisboa. Em média, cada hotel tem 100 quartos e representa um investimento da ordem dos dez milhões de euros.

No caminho para se tornar um player de peso na construção sustentável, a Casais mantém a sua atividade tradicional em crescimento e muito centrada nas obras particulares. No ano passado, o volume de negócios atingiu os 682 milhões de euros, um crescimento de 21,7% face a 2021, com o mercado internacional a gerar 440 milhões (64% do total). O grupo, um dos maiores do setor em Portugal, opera em 17 geografias e prepara-se agora para estender a sua ação à Arábia Saudita. "Já temos a empresa criada, estamos no processo de olhar os projetos que o país tem. Há muito investimento e dinheiro a correr", diz António Carlos Rodrigues. A construtora está à procura da sua oportunidade no país dos petrodólares, sendo que este ano já assegurou uma carteira de obras da ordem dos 780 milhões de euros.

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