Cem anos de paixão. Walt Disney celebra centenário dum "império maravilhoso" adorado em todo o mundo

Faltam 100 dias para os 100 anos da Walt Disney Company, fundada a 16 de outubro de 1923. Fomos aos Arquivos em Burbank, Califórnia, descobrir o segredo desta longevidade.
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De luvas azuis e gestos cuidados, o arquivista da Disney, Edward Ovalle, manuseia o raro exemplar da primeira edição de sempre da banda desenhada do Rato Mickey em português. Tem uma capa colorida, mostrando um Mickey sorridente a tocar num tambor com uma mão, enquanto segura uma salsicha à frente do Pluto para o incentivar a andar. À direita, o preço: 2,5 escudos, uma relíquia do tempo em que foi publicada. A revista de banda desenhada chegou às bancas portuguesas a 26 de agosto de 1955, com periodicidade semanal e ilustrações a preto e branco e a cores. Agora mora nos Arquivos Walt Disney em Burbank, Califórnia, onde o Dinheiro Vivo esteve a propósito do centenário da empresa.

"Os arquivos são um grupo de pessoas que partilham esta base de conhecimento que organizamos e cuidamos", disse a diretora dos Arquivos da Walt Disney, Becky Cline, em entrevista. "Estas coisas são adoradas em todo o mundo, não apenas nos EUA. As crianças nos vários países pensam que a Cinderela fala alemão e o Encanto é uma história japonesa." Ou que o Goofy se chama Pateta e o Donald Duck é o Pato Donald. "Todos os temas são universais para que toda a gente pelo mundo possa apreciá-los", diz.

Ela foi uma das grandes responsáveis pela exposição do centenário da Disney, que será assinalado a 16 de outubro de 2023 - estamos a precisamente 100 dias da efeméride. Depois de ter arrancado em Filadélfia e viajado até Munique, há de chegar a Londres. E está permanentemente vigente em toda a sua glória no documentário Disney100: The exhibition - making the magic, para quem não puder visitar.

A exposição tem dez galerias e não está organizada por ordem cronológica, mas por temas e narrativas, como o fundador Walt Disney gostava. Os criativos quiseram replicar o que ele fez de especial, "as coisas que fez para construir este império maravilhoso que adoramos e como continuamos a fazê-las", frisou Becky Cline. "A exposição celebra todos os elementos: invenções, inovação e tecnologia, parques e filmes, e como as pessoas os integraram na vida. Temos uma porção só dedicada às memórias e livros de recortes criados por pessoas de diferentes gerações."

Essa galeria reflete o impacto duradouro do imaginário Disney em múltiplas gerações de fãs, que continuam a sorver as criações da empresa e a usar orelhas de Mickey em peregrinações à Disneyland original ou a um dos outros parques, como o de Paris.

É quase impossível enumerar tudo o que a Disney fez desde a fundação, mas o tamanho do negócio dá uma ideia: 75,8 mil milhões de euros de receitas em 2022, mais 23% do que no ano anterior. Isso incluiu 6,7 mil milhões oriundos de parques e experiências, um boom após os difíceis anos da pandemia, mesmo a tempo da comemoração sem restrições do centenário. "A ideia é que o Walt lançou estas bases e nós usámo-las durante cem anos", disse Cline. "E vamos continuar nos próximos cem."

Do passado longínquo à tecnologia de futuro
Uma das relíquias que se encontram no campus da Disney em Burbank é o escritório de Walt Disney, que foi restaurado e preservado tal como o fundador o deixou. É difícil conseguir autorização para visitar, o que torna o acesso ainda mais cobiçado por super fãs do homem e da empresa. "Há pessoas que entram no escritório do Walt e choram", conta Julia Dimayuga, especialista de tours na Disney. A responsável diz que o fundador tinha um espaço para trabalhar e um mais polido, reservado a audições com atores e à receção de dignitários.

"Ele começava o seu dia a assinar cartões à secretária", disse Dimayuga, explicando uma das originalidades do complexo: ter sido construído especificamente para a arte da animação. Outros estúdios de então eram espaços reconvertidos.

Ali pode ver-se uma vitrina cheia de prémios, e não são todos os que Walt Disney ganhou. "Ele foi o mais premiado de todos na sua categoria", disse Dimayuga. O escritório preserva uma aura de outros tempos, pendurada na glória de um pioneiro: há pesa-papéis, telefones de disco, cinzeiros e miniaturas de todo o tipo - Walt gostava de as colecionar. Há um piano de 1940 que ainda funciona, no qual o fundador pedia que tocassem a canção Feed the birds, de Mary Poppins (1964), para descomprimir depois de um dia de trabalho. Era a sua favorita.

Antes de sair do espaço, ainda é possível ver a cozinha - que estava escondida por uma parede falsa que podia ser aberta e onde Walt comia se fosse necessário. No armário estão os seus enlatados preferidos: feijão, chili, Jell-o e sumo V8, que ele bebia à temperatura ambiente.

"Os enlatados eram uma revolução naquela altura", contou Dimayuga, falando das agruras da II Guerra Mundial e da expansão que se seguiu. Walt Disney usou este espaço entre 1940 e 1966, ano em que morreu de cancro no pulmão.
"Walt passava a maior parte do tempo aqui, a consultar equipas de produção e os Imagineers." Estes últimos são a ligação da Disney ao futuro. Há 1800 em todo o mundo e mais de metade trabalha aqui, em Burbank, sonhando tudo o que vai aparecer nos parques temáticos, nos cruzeiros e em todas as partes criativas aonde a Disney chega.

Ao contrário do edifício do escritório, o sítio onde os primeiros Imagineers se instalaram não foi construído para esse propósito. Era uma fábrica de cosmética transformada em fábrica de sonhos, porque Walt Disney criou a equipa para conceber o primeiro parque temático, a Disneyland da Califórnia.

Aquilo que está lá dentro é o tecido de que o imaginário é feito: há maquetes de diversões nos parques, como o mundo Star Wars Galaxy Edge. Uma sala com milhares de esculturas que foram usadas nos parques ao longo das décadas, como as cabeças de Ariel e Eric (A Pequena Sereia). Presidentes robóticos, como um Lincoln de 1964.

"A tecnologia que vemos nos parques foi inventada pelos Imagineers", explica Frank Reifsnyder, gestor de comunicação. E é na sala secreta de Tony Dohi, principal Imagineer de Investigação e Desenvolvimento, e Morgan Pope, cientista da Disney Research, que se vê o que de mais incrível está a ser desenvolvido para os parques.

Os dois cientistas mostraram protótipos daquilo a que chamam Stuntronics, uma espécie de robôs que fazem acrobacias com recurso a componentes eletrónicos e a leis da Física. Há um Homem-Aranha que parece, de facto, um homem e sobrevoa edifícios sem rede, espantando os fãs no parque, que pensam tratar-se de uma pessoa. Há uma menina robótica a aprender a andar de patins. E há muitas ideias para trazer outros robôs ultra-acrobáticos aos vários parques, em projetos que demoram anos a concretizar.

Outra área onde se vislumbra o futuro é o Dish, showroom digital imersivo que se assemelha a uma cúpula onde são projetadas imagens 3D. Aqui, a equipa do laboratório conceptual dos Imagineers visualiza e testa novidades do ponto de vista do utilizador, como a diversão Frozen Ever After que chegará à Disneyland Hong Kong em novembro e à Tokyo DisneySea em 2024.

Mas é no Art Vault (Cofre da Arte) do Imagineering Resource Center que o queixo sente o maior peso da gravidade. Aqui estão armazenadas 180 mil peças de arte, sobretudo desenhos, criadas por 2000 artistas. "Há muitas coisas neste cofre que não foram catalogadas e não são tocadas há mais de 30 anos", revelou Mike Jusko, especialista principal de ativos de design da Walt Disney Imagineering.

Ali está, protegido por camadas num canto do cofre, o desenho original a carvão do mapa aéreo da Disneyland, feito por Herb Ryan durante um intenso fim de semana em setembro de 1953, a pedido de Walt Disney. "Feito sob stress considerável, sem reflexão nem preparação", é a descrição do desenho. O parque temático que revolucionou a indústria da diversão viria a abrir menos de dois anos depois em Anaheim, Califórnia, a 17/julho/1955.

O primeiro bilhete de sempre para esse dia inaugural está preservado nos Arquivos, não muito longe daquela cópia da primeira revista do Rato Mickey em português. Estão também passes da polícia para a estreia de A Branca de Neve e os Sete Anões, a primeira longa-metragem de animação da Disney (1937), o contrato de constituição da empresa de 16 de outubro de 1923 e o primeiro cartão de visita de Walt Disney. Há brinquedos de madeira do Mickey com muitas infâncias em cima, relógios analógicos e discos de vinil com bandas sonoras icónicas. Há fatos, esculturas e artefactos preservados durante décadas, desde que os Arquivos começaram a guardar mais do que apenas documentos e merchandising.

Este é o centro nevrálgico da história da Disney, que serve de guia para todo o tipo de projetos e que alimentou a exposição dos 100 anos. Becky Cline, a diretora, explicou que todos os dias há projetos e solicitações novas vindas de todo o mundo. "Uma das coisas incríveis é que todos os dias o trabalho é um pouco diferente. Nunca sei o que vou fazer quando chego, costumo ter um plano que descarrila na primeira hora", graceja. "É fascinante. Temos investigadores que vêm fazer pesquisa em materiais arquivados, por exemplo, ler a correspondência de Walt Disney num certo ano", conta.

"Também temos de ir aos armazéns para ir buscar coisas como itens antigos de merchandising ou acessórios e roupas." E ainda passam muito tempo a verificar textos, ensaios e outros trabalhos em que as pesquisas na internet podem ou não ter resultado em asneira. "Muitas vezes há boa informação por aí e noutras a informação está incorreta", disse Cline, de forma diplomática, referindo que a empresa desencoraja as pesquisas online por esse motivo.

Haver sempre algo novo a acontecer está no espírito da grande corporação que a Disney se tornou, mas uma conversa com Bret Iwan, que faz a voz do Mickey em inglês desde 2009, transporta-nos de volta ao início, quando Walt criou o pequeno rato animado em 1928.

"Walt disse que o Mickey é uma pequena personalidade atribuída ao propósito do riso", disse Iwan. "Mas penso que a parte mais forte do Mickey, quem ele é realmente, é um espelho do Walt. O Mickey é simples, humilde, é o líder do clube mas é o nosso melhor amigo", descreveu, de forma quase embevecida, lembrando a paixão que desenvolveu pelo personagem desde criança. De certa forma, é um reflexo da relação íntima que os fãs têm com o universo Disney 100 anos depois. "O Mickey é o amigo em comum que todos temos."

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