Cem grandes do calçado aceleram para emissões zero

Empresas responsáveis por nove mil trabalhadores e 800 milhões de euros de exportações já aderiram ao 'Compromisso Verde' da fileira do calçado e artigos de pele para diminuir emissões a metade até 2030 e atingir a neutralidade carbónica duas décadas depois.
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São cerca de cem as empresas do calçado e dos artigos de pele que aceitaram subscrever o 'Compromisso Verde' da fileira que será assinado dia 24 de fevereiro, no Porto, na presença do comissário europeu do Ambiente, Virginijus Sinkevičius. Representam cerca de nove mil trabalhadores e 800 milhões de euros de exportações e comprometem-se a reduzir, em metade, as suas emissões até 2030 e a atingirem a neutralidade carbónica em 2050, de acordo com as metas definidas pelas Nações Unidas e pela Comissão Europeia.

A medida, que consta do plano estratégico da fileira apresentado em novembro, prevê a realização de estudos de diagnóstico inicial, para avaliação, entre outros domínios, da pegada de carbono atual de cada empresa e a identificação de áreas com maior potencial de redução. O diagnóstico, que será gratuito e ficará a cargo do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP), dará origem à definição de um plano de ação individual.

O objetivo é envolver toda a fileira, desde os fabricantes de materiais e componentes, à área das tecnologias e à indústria do calçado e da marroquinaria, que é "chamado a contribuir para a sustentabilidade ambiental do planeta, desenvolvendo e inovando nos produtos e processos, aumentando a sua eficiência global e circularidade e sendo inclusivo e competitivo".

E se é verdade que o cluster é formado por 1.900 empresas responsáveis por 40 mil postos de trabalho, não é menos certo que as 100 que já aceitaram envolver-se neste 'Compromisso Verde' representam cerca de 35% das exportações totais da fileira, que rondam os 2300 milhões de euros. O objetivo inicial traçado pela APICCAPS - Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos para 2023 era precisamente o de conseguir abranger neste compromisso empresas que representem mais de 50% das exportações.

Paulo Gonçalves, porta-voz da associação, considera "muito satisfatório" o número com que o projeto arranca. "São cerca de uma centena as empresas que já subscreveram o documento. As grandes empresas e as maiores referências do setor estão já envolvidas e o que acreditamos é que vão ter um efeito de arrastamento muito grande sobre todas as outras, nomeadamente as de pequena e média dimensão que, muitas vezes, são subcontratadas pelas grandes e que vão querer associar-se também a este compromisso", sustenta.

O 'Compromisso Verde' surge na sequência do Plano de Ação para a Sustentabilidade, lançado em 2019, e que previa já esta iniciativa. A pandemia atrasou a sua implementação, mas é tempo de "passar das palavras aos atos". "Primeiro vamos avaliar o estado da arte do setor. Temos empresas com características muito distintas; divergem no tamanho, na tipologia de produtos e mesmo nos segmentos de mercado, e, por isso, os primeiros seis a oito meses serão para fazer o diagnóstico da situação, empresa a empresa. E depois teremos cerca de dois anos para implementar e cumprir os planos de ação, refere ainda Paulo Gonçalves.

Este responsável lembra que o setor assumiu a ambição de "ser a referência internacional no desenvolvimento de soluções sustentáveis", tendo previsto investir 140 milhões de euros, ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência. "É o maior investimento de sempre do setor em sustentabilidade. É verdade que é com o apoio do PRR, mas metade é assegurado pelas empresas, o que atesta o seu compromisso com o futuro", diz este responsável.

Paulo Gonçalves acrescenta: "A nossa premissa é que temos condições para continuarmos a fazer calçado de excelência e duradouro na Europa, vamos é ter que atuar ao nível também dos processos e dos materiais".

São 10 os indicadores sobre os quais irá incidir o diagnóstico e que vão desde a eficiência energética ao consumo de água, passando pela reutilização de matérias-primas, a redução dos desperdícios, o desenvolvimento de novos materiais e equipamentos, a redução do peso das embalagens e a promoção da economia circular. O ecodesign, com o desenvolvimento de produtos pensados para serem duráveis, reparáveis e recicláveis no fim de vida, é outra das áreas de atuação, sem esquecer a responsabilidade social, assegurando a motivação e o bem-estar de todos os colaboradores.

E para que possa ser devidamente escrutinado, o 'Compromisso Verde' terá um site onde toda a informação referente a esta matéria será publicada e de acesso livre para poder ser acompanhada.

"Os desafios e as oportunidades com que o cluster está confrontado em matéria de sustentabilidade são de grande relevância e complexidade. Se não respondermos de modo adequado, as crescentes exigências regulamentares e a atenção que os consumidores dedicam a este tema podem ser uma séria ameaça" para a fileira", defende, potr seu turno, o presidente do Centro Tecnológico do Calçado, Reinaldo Teixeira.

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