Centeno dá injeção de confiança a Costa e prevê convergência recorde com zona euro em 2022

Banco de Portugal prevê a maior convergência real de Portugal face à zona euro desde finais dos anos 1990. Fala em "aumento da confiança com a vacinação" e diz que percalços são de curto prazo, confinados ao início de 2022.
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Em 2022, a economia portuguesa deve registar, segundo as novas previsões do Banco de Portugal (BdP) e do Banco Central Europeu (BCE), a maior convergência real com a zona euro desde que esta foi criada, em 1997/1998.

Ontem, o banco central governado por Mário Centeno, ex-ministro das Finanças, deu um importante impulso de confiança relativamente à capacidade de Portugal sair da crise pandémica e, ato contínuo, superar em larga medida a retoma da zona euro.

A nova previsão do BdP para 2022 foi inclusivamente revista em alta, de 5,6% para 5,8%, contrariando a tendência projetada pelo BCE que cortou a retoma da área da moeda única de 4,6% para 4,2%.

Resultado: se estas previsões forem assim, Portugal vai crescer 1,6 pontos percentuais mais do que a média do euro no ano que vem. É preciso recuar até 1998 para encontrar um valor superior (1,8 pontos).

Pode ser a convergência real mais forte dos últimos 25 anos, de acordo com cálculos do Dinheiro Vivo a partir dos dados do BdP, BCE e das séries longas da Comissão Europeia.

O novo boletim económico apresentado por Mário Centeno argumenta que "o crescimento elevado em 2021-2022 está associado, em parte, à forte recuperação das despesas em serviços, que beneficiou do levantamento das medidas de contenção e do aumento da confiança com os progressos na vacinação, devendo continuar a recuperar ao longo do horizonte".

O banco central espera que haja alguns atritos à retoma no início do ano que vem por causa da quinta vaga da pandemia e de algumas medidas de contenção que vão ser adotadas, mas espera que o segundo semestre já corra de feição.

O ex-colega de governo, hoje ministro das Finanças, João Leão, tomou nota do cenário favorável endereçado por Centeno.

"Estas previsões, como tenho referido, confirmam que a atual situação política de eleições antecipadas não colocou, nem coloca em causa a confiança das diversas instituições no desempenho da economia portuguesa", congratulou-se João Leão, à Lusa.

Banco de Portugal sobe a fasquia em relação ao BCE

Ou seja, no entender do Banco de Portugal, a nova vaga da pandemia e os confinamentos que lhe estarão associados, mais as disrupções nos fornecimentos globais de mercadorias e matérias-primas primas, não vão ser suficientes para diminuir o ímpeto de retoma da economia portuguesa em 2022.

Haverá alguns percalços na atividade nos primeiros meses do ano que vem, mas depois, no segundo semestre, os problemas devem dissipar-se num ambiente globalmente "benigno", antecipa o banco central, que assim contraria o pessimismo da sua chefe no BCE.

Na passada quinta-feira, Christine Lagarde anunciou um corte na previsão de crescimento da área do euro para 2022 (de 4,6% para 4,2%), argumentando que as medidas de contenção que vários governos estão a decretar "podem atrasar a recuperação, especialmente em termos de viagens, turismo, hospitalidade [hotéis e alojamentos locais] e entretenimento". E lamentou que "a pandemia está a pesar na confiança dos consumidores e das empresas e na propagação de novas variantes de vírus estão a criar incerteza extra".

Centeno acha que Portugal resiste

Para Centeno, Portugal vai resistir a isso tudo e até sair por cima. O crescimento previsto para 2022 (5,8%) é até mais positivo do que os 5,5% projetados pelo ministro das Finanças, João Leão, no Orçamento do Estado (OE2022) que, entretanto, chumbou no Parlamento. A previsão do governo de António Costa é mais fraca e na altura ainda não se falava em quinta vaga da covid-19, nem em novas medidas de contenção.

Relativamente a este ano (2021), o BdP mantém tudo na mesma: a economia cresce 4,8%.

O banco central de Centeno refere que "as atuais projeções revêm em alta o crescimento da economia em 2022-23 face ao projetado em junho (0,2 e 0,7 pontos percentuais, respetivamente), mantendo-se inalterada a estimativa para 2021 publicada em junho e outubro".

A força da retoma é suportada "pela manutenção de condições financeiras favoráveis e pela aplicação de fundos da União Europeia".

Como referido, haverá alguns percalços no começo de 2022, mas depois isso desaparece. Além do mais, as políticas de juros muito baixos do BCE, as subvenções da Europa e o novo quadro de fundos europeus clássico mais do que compensam as adversidades pandémicas e ajudam a manter Portugal à tona, infere a autoridade monetária nacional.

"No curto prazo, a atividade é condicionada por uma nova vaga da pandemia na Europa e pelos problemas nas cadeias de fornecimento globais."

"O recente agravamento da pandemia deverá implicar uma desaceleração da atividade nos próximos meses. A retoma tem ainda sido condicionada pelos estrangulamentos no transporte de mercadorias, pela escassez da oferta de bens intermédios e pelo aumento dos custos das matérias-primas e dos transportes, que se têm revelado mais persistentes".

Mas depois, o banco central vê "uma atenuação gradual da pandemia e a progressiva normalização das cadeias de fornecimento de bens [mercadorias, como matérias-primas] a partir da segunda metade de 2022", o que ajudará a reduzir a inflação e muitos custos de produção, como os energéticos.

Além do mais, o Banco argumenta que nesta crise pandémica, "o choque teve uma natureza temporária e não sistémica e a resposta de política foi imediata, maciça e coordenada a nível nacional e europeu".

A inflação, que vai subir mais na zona euro como um todo (rondará 2,6% este ano e sobe para 3,2% no próximo, segundo o BCE), continuará relativamente baixa em Portugal, apesar da tendência para aumentar, mais concentrada no ano que vem.

"Projeta-se que a inflação aumente em 2021 e 2022, para 0,9% e 1,8%, respetivamente, fixando-se em 1,1% e 1,3% nos dois anos seguintes, com uma evolução muito influenciada pela componente energética. A projeção para a inflação foi revista em alta ao longo do horizonte face ao boletim de junho, destacando-se a revisão em 2022 (0,9 pontos percentuais)."

Preocupado com o salário mínimo

Mesmo assim, com a inflação abaixo dos 2% no horizonte que vai até 2024, a entidade de Centeno mostrou preocupação com o rumo do salário mínimo depois de 2022.

Novas subidas do salário mínimo que venham a ser acordadas além dos 705 euros brutos por mês -- já definidos pelo governo para vigorar a partir de 1 de janeiro do ano que vem - são "um risco" e podem fazer subir a inflação.

O BdP não faz qualquer consideração sobre eventuais repercussões do aumento de 6% (40 euros) no salário mínimo de 2022, mas avisa que "os riscos para a inflação são enviesados em alta" até 2024.

"Estes riscos decorrem sobretudo da possibilidade de uma maior transmissão dos aumentos dos preços das matérias-primas e dos bens intermédios aos preços no consumidor" e "eventuais aumentos do salário mínimo em 2023-24 constituem também um risco em alta para a inflação", refere o banco central.

"A subida recente da inflação, a par das dificuldades de recrutamento em alguns setores, pode também implicar pressões mais fortes sobre os salários do que as consideradas na projeção", acrescenta o supervisor.

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