Centeno. Medo do futuro e confinamentos fazem disparar poupança em Portugal

Taxa de poupança das famílias atingiu 18,8% no segundo trimestre de 2020 e, após moderação na segunda metade do ano, terá voltado a subir com o novo confinamento no início de 2021, diz o BdP.
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Os confinamentos impostos pelo governo por causa da pandemia e o receio em relação às suas consequências negativas no emprego e na economia levaram as famílias residentes em Portugal a poupar muito mais em 2020, diz o Banco de Portugal (BdP) no novo boletim económico, apresentado esta quarta-feira. As famílias mais ricas ou de rendimento médio-alto terão sido as que mais conseguiram concretizar este tipo de aforro, conclui o Banco.

No segundo trimestre do ano passado, com a doença a ganhar tração e com largas partes da economia encerrada ou em mínimos, a taxa de poupança disparou até quase 20% do rendimento disponível, um valor inédito na História recente.

Com muita gente ainda em teletrabalho e com várias restrições de horários, ao consumo e à lotação de espaços ainda em vigor (limites de encerramento no caso dos restaurantes, bares e discotecas ainda fechados e por tempo indeterminado, eventos culturais limitados em lotação ou cancelados, por exemplo), este efeito de poupança deverá prolongar-se ou sentir-se durante os próximos anos, afirma o BdP.

Face a um cenário em que não havia pandemia, o banco central governado por Mário Centeno calcula que nos quatro anos que vão de 2020 a 2023, as famílias residentes sejam capazes de aforrar 17,5 mil milhões de euros adicionais.

Boa parte deste dinheiro é consumo não realizado pelo que, se as famílias ganharem mais confiança e melhores condições de vida neste futuro próximo, a economia poderá crescer mais do que o previsto por via de um maior consumo privado, justamente. É um risco ascendente, na opinião do banco central. Se mais poupança for gasta em despesa de consumo, o PIB tende a aumentar muito mais do que se diz agora.

Segundo o BdP, "a queda de 5,9% do consumo privado em 2020 traduziu-se num aumento acentuado da taxa de poupança de 7,1% para 12,8% [do rendimento disponível das famílias], o máximo desde 2002".

"Este aumento, para além do motivo de precaução ligado ao contexto de incerteza, resultou de uma poupança involuntária associada ao confinamento", refere o Banco.

Por exemplo, o BdP revela que "a taxa de poupança atingiu 18,8% no segundo trimestre de 2020 e, após uma moderação na segunda metade do ano, terá voltado a subir com o novo confinamento no início de 2021".

O novo estudo diz ainda que "a poupança acumulada pelas famílias durante a pandemia se traduz, em termos agregados, num aumento persistente da riqueza". Isto é, o dinheiro poupado pode estar a ser transformado em mais património, como casas e outros investimentos, por exemplo.

Até 2023, "a habitação mantém-se como um ativo de investimento atrativo, o que poderá ser importante num contexto de acumulação significativa de poupança", refere o BdP.

Finalmente, é de relevar que "as características dos principais aforradores - de rendimentos mais elevados e com menor propensão ao consumo - suportam esta hipótese" de aumento previsto nos níveis de riqueza e de património, afirma a instituição.

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