CEO da Sonae garante que cadeia alimentar está a ter "atitude muito responsável"

"Se eu tivesse que procurar algum culpado [para a subida dos preços dos alimentos], seria, talvez, o presidente da Rússia, ou a China, ou a seca", afirma presidente executiva da Sonae.
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A presidente executiva (CEO) da Sonae garantiu esta quinta-feira que "toda a cadeia alimentar está a ter uma atitude muito responsável" face à inflação, salientando que a margem de lucro do retalho alimentar do grupo recuou em 2022 para 2,7%.

"Sinceramente, acho que toda a cadeia alimentar está a ter uma atitude muito responsável. Vejo aí tudo à procura de culpados [para a subida dos preços, mas] não é a cadeia alimentar com certeza. Se eu tivesse que procurar algum culpado, seria, talvez, o presidente da Rússia, ou a China, ou a seca", afirmou Cláudia Azevedo durante a apresentação dos resultados de 2022 do grupo Sonae.

Reiterando que "toda a cadeia alimentar, desde os produtores até aos distribuidores, tem tido uma atitude muito responsável" face ao atual contexto inflacionista, a líder da Sonae afirmou: "Isso vê-se nos dados, vê-se nos dados produzidos pelo Estado, portanto não vejo onde é que está o mistério de que andam à procura na cadeia alimentar".

Para Cláudia Azevedo, "é um problema sério Portugal ter 20% de inflação alimentar" e a Sonae quer "ser parte da solução", rejeitando a "campanha de desinformação" que aponta para um eventual aproveitamento por parte do setor da distribuição, através de um aumento das margens.

"Estamos solidários com os produtores, que tiveram um aumento dos custos muito significativos, e também estamos solidários com a indústria transformadora da cadeia alimentar. [A atual situação] é muito difícil para toda a cadeia alimentar e vê-se nos números do INE [Instituto Nacional de Estatística] que toda a gente está a acomodar um pouco da inflação, toda a gente está a reduzir a sua margem", enfatizou.

Relativamente aos números divulgados -- nomeadamente pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), na sequência de fiscalizações desenvolvidas junto de super e hipermercados -- que apontam para margens de lucro na ordem dos 50% em alguns produtos agrícolas, a CEO disse não fazer "a mínima ideia" de que como foram obtidos.

"Já ouvi em vários sítios números que não reconhecemos, não fazemos a mínima ideia de como chegaram àqueles números. E é muito fácil chegar a números certos, porque são informações do INE, do Ministério da Agricultura e nós somos uma empresa cotada. Portanto, não percebo a dificuldade", disse, concretizando que a margem de lucro nos formatos alimentares da Sonae recuou em 2022 para os 2,7% e que o aumento médio dos preços nas lojas Continente foi de 11,4%.

"Temos margens muito, muito, muito baixas. Não vou agora comentar as intenções de quem põe esses números [que o contradizem] cá fora, temos muito que fazer cá dentro", rematou.

Antes de Cláudia Azevedo, já o administrador financeiro da Sonae, João Dolores, tinha feito questão de clarificar que "a inflação tem causas bem identificadas, que estão a pressionar toda a cadeia de produção", garantindo que "todos os participantes na cadeia de valor estão a perder rentabilidade e a absorver parte destes custos adicionais".

"Certamente não é o setor da distribuição que está a provocar estes níveis de preços, nem está a procurar retirar ganhos indevidos devido à inflação", asseverou, reiterando que toda a cadeia de valor tem "tentado acomodar ao máximo estes aumentos dos custos para passar o menos possível deste encargo para o consumidor final".

Quanto ao facto de a inflação no setor alimentar ser superior à inflação geral, o administrador financeiro disse resultar do facto de o retalho alimentar vender "um conjunto de produtos cujos custos foram integrados há mais de um ano, em muitos casos".

Já no que respeita à "ideia que se tem vindo a passar de que o retalho alimentar tem margens de lucro altíssimas e de que essas margens têm subido à boleia da inflação", garantiu que "ambas as afirmações são falsas".

"As margens do retalho alimentar são historicamente e tipicamente as mais baixas a nível mundial, porque este é um setor de escala, de volumes elevados e margens reduzidas. E em Portugal isto não é diferente, todos os operadores de retalho alimentar têm margens desta ordem de grandeza", disse.

Sustentando que "é preciso desmistificar algumas ideias que se tem passado de que existem margens de lucro de 40 e 50%" no setor alimentar, João Dolores assegurou que "isso não é verdade", sendo que, "no caso do Continente, a margem liquida durante o ano 2022 foi de 2,7%", ou seja, "o lucro do Continente foi de 2,7% das vendas".

Relativamente ao anúncio feito pela ministra da Agricultura e da Alimentação, Maria do Céu Antunes, de que será criado um símbolo que ateste que os produtos alimentares chegam aos consumidores com um preço justo, refletido em todas as etapas da cadeia nacional, a CEO da Sonae afirmou apenas: "Não sei muito bem o que é isso, fico à espera de perceber exatamente o que isso é".

Cláudia Azevedo avisou ainda que, num "mercado aberto e mundial" como o alimentar, a fixação de preços máximos "dá sempre mau resultado" e resultaria em "prateleiras vazias" nos supermercados.

Questionada pela agência Lusa, durante a apresentação das contas de 2022 do grupo Sonae, sobre se a eventual fixação de preços máximos para os bens essenciais poderia ser uma solução para mitigar os efeitos da inflação, a líder da Sonae avisou que "tentar fixar preços dá sempre mau resultado" num mercado como o alimentar.

"Um produtor português que tem que remunerar os seus fatores de produção -- e muito bem -- não vai querer vender a uma cadeia portuguesa com os preços fixos. Vai vender lá fora. E um produtor internacional também não vai vender a Portugal com margens tão baixas. Eu acho que o resultado final de uma política dessas é as prateleiras vazias. E acho que isso ninguém quer", sustentou.

Relativamente às operações que têm vindo a ser desenvolvidas pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) junto de supermercados e hipermercados de todo o país - e que e que resultou na instauração de várias dezenas de processos-crime pela prática do crime de especulação, nomeadamente por diferenças entre os preços afixados nas prateleiras e o valor pago em caixa pelos consumidores - a CEO da Sonae considerou que "a ASAE tem de continuar a fazer o seu papel e fiscalizar".

"Nós fazemos muito mais controlo nessa situação [de diferenças entre o valor afixado e efetivamente pago] do que a ASAE, fazemos imensas auditorias internas. Isso às vezes acontece, mas é mesmo muito raro e, quanto acontece, é até mais em benefício do cliente", sustentou.

Segundo Cláudia Azevedo, sendo Portugal "um país que compra 50% em promoção, a 'guerra' competitiva é muita nas promoções": "Estamos constantemente a remarcar os preços em loja e pode acontecer -- não devia, mas pode acontecer -- um erro ao trocar uma etiqueta. Mas é muito, muito raro e fazemos muito mais controlo do que a ASAE, para nós esse é um tema importantíssimo", assegurou.

Defendendo que "a ASAE tem de continuar a fazer o seu papel e a fiscalizar", a líder da Sonae considerou que "instrumentalizar casos isolados" é que "é um ataque ao setor, de desinformação".

"Nunca sabemos de quem estão a falar e que números estão a usar", disse.

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