Cérebro português aposta em "supermercado" de inteligência artificial

Empresa de Daniela Braga passou a chamar-se Defined.ai e está a apostar em parcerias com multinacionais na Europa e Ásia.
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Comecemos pela mudança de nome: desde a semana passada que a DefinedCrowd, empresa tecnológica fundada em 2015, passou a chamar-se Defined.ai. Mas as novidades não ficam por aqui. A plataforma liderada por Daniela Braga agora assume-se como um "supermercado" da inteligência artificial, atuando sozinha nos Estados Unidos e com parcerias com multinacionais na Europa e na Ásia.

"Num supermercado ou numa loja de retalho, podemos comprar livros, jogos e eletrodomésticos. Na Defined.ai compram-se dados, ferramentas e modelos já feitos de inteligência artificial", assinala a especialista portuguesa, em entrevista ao Dinheiro Vivo durante a Web Summit.

No passado, a empresa apenas estava focada em fornecer dados de alta qualidade usados nos assistentes pessoais como a Alexa (Amazon) ou a Bixby (Samsung). O mercado, contudo, "começou a ficar mais maduro" e o mundo está a mudar porque "há empresas de outros segmentos de mercado que já pegam numa peça em dados abertos de marcas de processadores".

Com a Defined.ai, a democratização da inteligência artificial está a chegar e o controlo da inteligência artificial "não vai ficar na mão de cinco ou seis empresas", acredita Daniela Braga. Nas telecomunicações, por exemplo, a alemã T-Mobile "não vai pagar mais por sistemas de reconhecimento por voz à Google ou à Amazon".

Os consumidores também vão sentir cada vez mais os efeitos da inteligência artificial, que está a alargar-se a indústrias como hardware, automóvel, saúde e retalho. A partir daí, será possível criar frigoríficos inteligentes, "que avisam automaticamente que os ovos estão a acabar e que conseguem estimar quantas unidades poderemos comprar com base nas dietas que estamos a fazer".

A forma como a Defined.ai conquista mercado depende dos continentes. Nos Estados Unidos, basta vender os dados às peças para conquistar novos clientes; na Europa e na Ásia, são necessárias parcerias, como já existem com a KPMG e a portuguesa Talkdesk.

A tecnológica de Daniela Braga também enfrenta desafios a nível laboral. Os efeitos da covid-19 levaram ao fenómeno "Great Resignation", em que os funcionários apresentam a sua demissão.
"Perdemos 25% a 30% da nossa força de trabalho. As pessoas acham que têm mais opções para trabalhar", assume a empresária. Atualmente, a Defined.ai conta com 250 trabalhadores, espalhados pelos escritórios de Portugal, Estados Unidos e Tóquio.

A própria empresa está a mudar o formato dos escritórios por causa das preferências dos trabalhadores. "Estamos a reduzir os escritórios - não faz sentido pagar por um espaço tão grande - e vamos adotar um modelo híbrido, para permitir alguma flexibilidade".

Fora da equação está a colocação de funcionários à distância a tempo inteiro. "Não aceitamos o formato totalmente remoto: está mais do que provado que não funciona para a produtividade. As pessoas não constroem laços de colaboração e perde-se a cultura da equipa".

Na conferência de imprensa, Daniela Braga assumiu que a Defined.ai vai precisar de captar mais investimento no próximo ano, após acumular 63,6 milhões de dólares (55 milhões de euros) desde a fundação. O montante da série C de financiamento já tem destino marcado: "Queremos começar a ir muito além da indústria homem-máquina e começar a ir para a saúde, serviços financeiros e seguros".

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