Chega de (A)venturas

É preciso assumir o posicionamento de país mais ocidental da Europa, detentor de uma das maiores zonas económicas marítimas do mundo.
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Destruir é muitíssimo mais fácil que construir, tal como criticar é bastante mais simples que resolver. O facilitismo e a ligeireza de argumentação, simplificados e superficiais, constituem encantos, bem retratados por Camões no canto das Sereias, que apesar de enganadores são apelativos. Esse é um campo muito incómodo para quem crê na ação criativa e consequente desenvolvimento de uma sociedade com qualidade de vida. É, contudo, com cantos de Sereias que proliferam por todo o mundo, ganhadores e vitoriosos, políticos que bem representam a ligeireza e facilitismo argumentativo. Essas venturas encontram terreno fértil nas profundas e prolongadas deformações que os sistemas políticos ocidentais, assentes em partidocracias de carreira, introduziram na qualidade da democracia e subsequente má gestão da causa pública. Por isso, foram os cidadãos perdendo confiança nos partidos muito por causa da mediocridade das lideranças e consequente mau resultado económico a que conduzem.

A pandemia covid-19 evidenciou a fragilidade da economia portuguesa que, sejamos muito claros, não se resolve apontando de forma cobarde a grupos étnicos mais desfavorecidos, cujo isolamento não se resolve ignorando, acusando ou perseguindo. Pessoalmente e enquanto cidadão sinto-me totalmente desrespeitado por assistir ao debate da resolução de temas complexos e importantes, de modo vulgar, desviando a atenção de forma gratuita e perversa do tema mais importante, e relativamente ao qual é imprescindível aptidão de estadista e estratega na definição do que Portugal pode ser quando for crescido, para que possa viver independente, sem o pânico da falta de recursos e sem necessitar de pedinchar a quem empreste ou, preferencialmente, quem dê. É nesta conjuntura que a inaptidão preconceituosa de André Ventura o torna no principal aliado parlamentar do Partido Socialista de António Costa, ao conseguir a proeza de desviar atenções para matérias que, apesar de sérias, se tornam corriqueiras e polémicas, próprias de conversas onde política e futebol alternam ao mesmo nível. Fico, contudo, particularmente impressionado com as boas capacidades desses mesmos intervenientes em falar de futebol.

Toda esta situação de fragilidade económica grave e crónica, excessivamente pesada e penosa para as pessoas é desnecessária, por haver caminho sustentável e muito interessante para a economia portuguesa. Para isso necessitamos assumir o posicionamento de país mais ocidental da Europa, detentor de uma das maiores zonas económicas marítimas do mundo.

Portugal deve bater-se em contexto europeu pela força militar conjunta, onde as incumbências de Portugal no que ao papel humano, tecnológico e industrial no controlo e defesa do espaço marítimo e espacial devem ser de 1ª linha. Adicionalmente, há todo um conjunto de fontes de desenvolvimento e riqueza ligadas à alimentação com culturas piscícolas e vegetais em alto mar, à investigação oceanográfica na pesquisa de novas moléculas e materiais com aplicações várias, desde a indústria farmacêutica às telecomunicações. E entre um vasto leque de possibilidades económicas múltiplas, é de relevar a componente de fonte energética proveniente do aproveitamento da força das marés, correntes e ondas. O aproveitamento e exploração do espaço marítimo para o desenvolvimento económico do país deve constituir a missão de longo prazo mais estruturante da economia portuguesa. A consciencialização do país para uma missão desta grandeza pressupõe uma orientação dos diversos níveis do ensino e formação, e da investigação científica para as áreas de suporte a esta tão grandiosa missão. Por outro lado, parte significativa do investimento publico deverá ser canalizado para o suporte infraestrutural que uma missão desta natureza necessita. Portugal, tal como há 5 séculos, tem no Oceano a capacidade em se afirmar política e economicamente como uma referência mundial. Não há necessidade de sermos os eternos pedintes. Para isso necessitamos mudar.

Eduardo Baptista Correia, CEO do Taguspark e professor da Escola de Gestão do ISCTE

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