Cheias em Moçambique afundam negócios de portugueses do Chókwè

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O português Lindolfo Gonçalves perdeu quase tudo com a chuva que

fustigou a cidade de Chókwè, no sul de Moçambique, e hoje vive numa

tenda, até a água baixar para retomar o seu negócio na agricultura.

"Só ficou o barco, porque o dono da machambana (horta) que trabalhava

com ele conseguiu tirá-lo. O resto, perdi tudo", disse o empresário

português, natural de Trás-os-Montes, numa conversa com o cônsul

português em Maputo.

Gonçalo Teles Gomes visitou, na quarta-feira, as 47 famílias portuguesas residentes na província de Gaza, duramente afetadas pelas cheias que resultaram do transbordo do rio Limpopo.

Lindolfo Gonçalves contou ao diplomata português que a chuva do dia 15 de janeiro "foi com tudo" que conseguiu desde 1960, quando decidiu morar no Chókwè.

"Nas cheias de 2000, (a água) atingiu 1,5 metro. Desta vez, foi mais alto, até as casas de palhotas foram todas varridas. Tudo, não ficou nada. Só ficou tubos da motobomba, mas, o resto, tudo foi", afirmou.

Mas não foi só Lindolfo quem, repetidas vezes, disse que "perdeu tudo". A quase totalidade dos empresários portugueses que vive em Gaza, a província mais afetada pelas enxurradas, também lamentou as perdas.

Magna vive no Chókwè há quase 10 anos, mas nunca tinha visto "uma onda de água" como a que invadiu a sua propriedade e tornou incerta a sua vida.

"Perdemos tudo: motores, animais e até as próprias instalações. A violência era tal, que a água derrubou muros, levou telhados", afirmou.

"Vimos muita gente a fugir, passarinhos a voarem e veio a tal de uma onda com capim, canas, muita lama à mistura e só tivemos tempo de dar a volta ao camião e fugir para o lado de Guijá. Já não conseguimos tirar o trator, nem o resto dos animais. A casa já estava praticamente submersa. Essa onda fez a rutura da passagem entre Chókwè e Guijá. E até hoje não se pode passar" de um lado para outro, disse Magna, em entrevista à Lusa.

Apesar das palavras de conforto do cônsul de Portugal em Maputo, Magna sabe que "nesta terra, ninguém pode garantir nada a ninguém, porque isso é tudo uma incerteza".

"Recebemos aquela palavra, aquele apoio, que já ajuda muito e agora é só nós seguirmos, refazermos tudo de novo", refere a empresária que teve que mandar todos os filhos para prosseguirem os estudos em Maputo.

Questionado pelo cônsul, o português Júlio Carvalho foi dos poucos empresários que garantiu ter noção de quanto é necessário para recuperar os seus negócios: "É sempre mais de um milhão e meio de meticais", de resto o mesmo valor (cerca de 38 mil euros) estimado pelo também empresário português Afonso Cardoso.

"Não há condições de arrancar. O que se pede é alguns empréstimos com juros bonificados, para que pudéssemos arrancar com mais facilidade", apelou Júlio Carvalho.

Há 55 anos que o agricultor de origem portuguesa Albino António Seixas vive em Chókwè com os seus 16 filhos, mas as cheias deste ano alteraram por completo os seus planos de produção de arroz na região que outrora foi a de maior cultivo deste cereal a nível mundial.

"Perdi tudo. Este ano tinha apostado fazer 55 hectares de arroz. Foi tudo, porque o canal arrebentou aí no ramal e arrancou todo o arroz. Tinha lá a maquinaria toda e não consegui tirar nada. Tinha uma loja de comércio. Também foi tudo", disse Albino Seixas, que agora foi forçado a viver com a família entre os distritos de Hokwe e Mapapa, onde também possui residências.

As cheias que, desde outubro, assolam Moçambique, causaram 91 mortos e afetaram 200 mil pessoas, segundo o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, órgão governamental.

"Apenas uma parte das pessoas perdeu quase tudo: os seus haveres, todos os seus bens, negócios, portanto, estão numa situação difícil e complicada. E as coisas vão demorar o seu tempo a voltar àquilo que eram. Agora vou transmitir a Lisboa aquilo que vi, que é impressionante", disse à Lusa o cônsul de Portugal em Maputo.

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