A China é, há vários anos, o quarto maior investidor direto estrangeiro em Portugal, detendo uma posição global avaliada em 11,2 mil milhões de euros no final de 2022, segundo o Banco de Portugal (BdP).
O gigante asiático, a segunda maior economia do mundo a seguir aos Estados Unidos, é ainda o quarto maior vendedor de mercadorias a Portugal, tendo ultrapassado os Países Baixos no ano passado neste ranking. E quer ganhar peso nas exportações.
O turismo vai ser uma das grandes alavancas num plano que tenciona chegar a "um milhão de turistas" chineses por ano dentro de quatro anos, segundo a Associação do Turismo Chinês em Portugal, que reuniu há menos de um mês com o secretário de Estado do Turismo, Nuno Fazenda.
O vice-presidente da República Popular da China, Han Zheng, chega hoje (domingo, 7 de maio) a Portugal para uma visita de quatro dias.
Na agenda estará, claro, o aprofundamento das relações económicas entre os dois países que, sendo de facto profundas, foram afetadas nos últimos anos por dificuldades maiores. A ideia é mais do que superar estes contratempos.
Primeiro, a pandemia, que travou as economias e a expansão do comércio. Depois, mais recentemente, em 2022, pela guerra da Rússia contra a Ucrânia.
A China é um aliado histórico da Rússia e tem sido muito criticada por não ter tido uma posição mais contundente em relação ao Kremlin. Mas até este ambiente parece estar a desanuviar um pouco.
Recentemente, a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, foi à China, encontrou-se com o Presidente do país, Xi Jinping. Com ela foi o Presidente francês, Emmanuel Macron. E vieram de lá mais animados.
Bruxelas e Paris vieram mais animadas
Na sequência desse encontro, Von der Leyen avançou com o que parece ser um género de recomeço da relação bilateral com a Europa.
"Não queremos cortar os laços económicos, sociais, políticos e científicos. Temos muitos laços fortes e a China é um parceiro comercial vital - o nosso comércio representa cerca de 2,3 mil milhões de euros por dia", disse a chefe do executivo europeu.
"A maior parte do nosso comércio de bens e serviços continua a ser mutuamente benéfico", mas "é urgente reequilibrar as relações entre a União Europeia (UE) e a China com base em transparência, previsibilidade e reciprocidade" e "a nossa futura estratégia para a China deve ser a redução dos riscos económicos".
Na China, Macron anunciou a abertura de uma nova fábrica de aviões da Airbus e vendeu helicópteros da marca. Terá sido um negócio de valor.
Vice chinês vai de Londres a Lisboa
Han Zheng, o vice de Xi, até há pouco tempo responsável pelas relações com Hong Kong, vem a Portugal, que também é um país bastante amigo, e de longa data. A todos os níveis.
Nas últimas horas, pode ter contactado, ainda que informalmente, com o Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa. Ambos estiveram em Londres para assistir à coroação do Rei Carlos III.
Cá, Han terá reuniões de alto nível com líderes das autoridades portuguesas (governo e Presidência da República) e com representantes empresariais. Os encontros estão concentrados na segunda e terça-feira.
Tendo em conta a parceria que existe, ainda há terreno para desbravar. A China quer investir mais em Portugal. Além das participações que já detém em muitas empresas de calibre, há outros setores nos quais pretende solidificar a sua presença.
Nos portos marítimos nacionais (Sines), por exemplo. São uma via prioritária para consolidar a chamada Nova Rota da Seda, uma estratégia de conexão económica e comercial global iniciada por Pequim em 2013.
Segundo o Ministério da Economia (GEE - Gabinete de Estratégia e Estudos), que analisou os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2022, Portugal comprou à China 5,5 mil milhões de euros em mercadorias, o equivalente a 5,1% do total das importações nacionais. Como referido, passou a Holanda e quer continua a subir no ranking.
Nas exportações, também em 2022, a posição da China ainda é relativamente baixa (é o 19º maior cliente), com 629 milhões de euros em compras às empresas portuguesas. Vale 0,8% do total. Mas há planos para subir no ranking.
Um dos vetores para o Portugal exportador é, como referido, o turismo. Atualmente, já com o levantamento decretado pela China, em março, de restrições a viagens aos seus nacionais, o número de turistas chineses disparou.
Antes da pandemia, segundo o Turismo de Portugal, mais de 385 mil chineses visitaram Portugal em 2019. A estimativa diz que estes gastaram, no total, 224 milhões de euros no país, um crescimento de 20%, face a 2018.
Como referido, a ideia agora é duplicar o número de visitas anuais, para um milhão de turistas vindos da China, ou mais.
Nesse encontro com o governo de António Costa, a Associação do Turismo Chinês em Portugal defendeu sim, mais turistas vindos da China, mas disse que o plano passa também por estes ficarem mais tempo em Portugal e gastarem mais dinheiro.
Empresas portuguesas de capital chinês
Seja através de entidades estatais, seja através da Fosun, um grupo privado, a China está presente em várias empresas estratégicas portuguesas, muitas delas cotadas em bolsa, como BCP, EDP, EDP Renováveis, REN, Mota-Engil, Martifer, Inapa, Reditus, entre outras.
Um dos investimentos mais emblemáticos e lucrativos é na EDP. A companhia estatal de energia, a gigante a China Three Gorges (CTG), entrou na EDP em 2012, nos tempos de máxima urgência da troika, e comprou mais de 20% da elétrica portuguesa. Terá investido quase 2,7 mil milhões de euros na altura.
Na semana passada, a EDP apresentou resultados e contas, revelando que a CTG já terá recuperado em dividendos e outros rendimentos (venda de ações, por exemplo) quase 80% do capital injetado há uma década. Está a correr bem e ambos os lados mostram-se contentes com o negócio.
A companhia que controla a maior barragem hidroelétrica do mundo (a Três Gargantas, "Three Gorges") continua como acionista e ainda detém quase 21% da EDP.
"A Fosun, uma holding cotada em Hong Kong, integrada num dos mais reputados grupos privados de investimento chineses, é o acionista maioritário da Fidelidade", diz a antiga seguradora da CGD. A holding é ainda acionista de referência do Grupo Luz Saúde, que tem vários hospitais privados a operar em Portugal.
Os chineses ficaram também com o negócio do antigo BES Investimento, que hoje se chama Haitong Bank, na sequência da falência do BES.
São muitos nomes e muitos serão falados na visita oficial do vice chinês, quatro anos depois do chefe de Estado chinês Xi ter vindo a Portugal.