Meia hora. Este foi o tempo de vida das bolsas chinesas na sessão desta quinta-feira, a mais curta nos seus 25 anos de história.
Os receios investidores quanto ao abrandamento da segunda maior economia mundial e a desvalorização do yuan provocaram uma nova onda de pressão vendedora que ditou tombos superiores a 7% dos mercados asiáticos.
Resultado? As autoridades chinesas interromperam a negociação, pela segunda vez esta semana, e as bolsas do gigante asiático só voltam a abrir amanhã.
No entanto, o tsunami na China acabou por inundar os restantes mercados acionistas mundiais. Mas o que provocou, de facto, esta nova convulsão?
Os analistas e economistas explicam ao Dinheiro Vivo os factores que ditaram o novo crash bolsista, se a ameaça de abrandamento económico da China poderá tornar-se numa realidade e se os investidores devem prevenir-se para a eventual continuação das perdas nos mercados acionistas.
As causas do tsunami
Os recentes indicadores económicos divulgados na China apontam para o abrandamento da segunda maior economia mundial. A somar a isto, as autoridades do país tentam travar as perdas com mecanismos de interrupção dos mercados e desvalorizações da moeda. Mas quais as razões para a hecatombe?
"A desvalorização do yuan e o fim de algumas restrições impostas aos grandes investidores que os impediam de vender as suas ações, estão a ditar as fortes quedas da bolsa chinesa", explica Pedro Lino, CEO da corretora Dif Broker.
Já Frederico Antão, corretor da BIZ Valor salienta o abrandamento económico na China, mas também a "noção que as medidas do Banco Central chinês e do Regulador do mercado acionista local não estão a ter o efeito pretendido", juntamente com as "medidas restritivas que afastam investidores (ex: proibição de acionistas com participação superior a 5% de vender), o sentimento negativo que se vai contagiando pelo mercado e a desalavancagem obrigatória".
"Os dados divulgados no início do ano confirmam a recessão na atividade industrial chinesa, mas pior do que os investidores estimavam. Isso teve um impacto direto na desvalorização da moeda chinesa que está sob pressão nestes primeiros dias do ano", defende João Pereira Leite, diretor de investimentos do Banco Carregosa.
Igualmente ao Dinheiro Vivo, o economista João César das Neves salienta que a China "teve nas últimas décadas um crescimento espantoso, único, irrepetível, mas inquinado por vários desequilíbrios", e dá exemplos: "Do sistema político aos bloqueios à liberdade económica, das questões ambientais às demográficas, e tantas outras, os problemas iam-se empilhando atrás da prosperidade".
"Por isso não é difícil explicar porque razão as bolsas chinesas caíram. O que surpreende é a surpresa de tanta gente quando isso aconteceu. Há muito que ando a dizer que a China me assusta, não pelo seu sucesso, mas pela queda que haveria de vir", sentenciou.
Já para Steven Santos, gestor do BiG, tratou-se "novamente de uma conjugação de factores negativos, com mais foco, desta vez, na redução do nível cambial fixado diariamente pelo People’s Bank of China, o que sugere que a China precisa de depreciar o yuan contra o dólar americano (USD/CNH) para conseguir crescer. A transição de um modelo económico ancorado nas exportações e na manufactura para um modelo baseado na procura interna das classes médias não tem sido fácil".
No caso de Albino Oliveira, o analista da Patris Investimentos relembra o crash do verão passado. "É de certa forma uma continuação da queda observada entre junho e agosto do ano passado, refletindo as preocupações após a forte subida desde os mínimos de meados de 2014. O movimento neste início do ano também parece ser consequência da tendência de desvalorização apresentada pela moeda Chinesa".
Abrandamento já é uma realidade
Mas o abrandamento da segunda maior economia mundial é uma ameaça ou poderá tornar-se, de facto, numa realidade? Os peritos não têm dúvidas de que já é uma realidade.
"Sim, os dados avançados da economia assim o indicam, como por exemplo índices relativos à atividade industrial. Relevante também assinalar que, por uma questão matemática, é muito difícil sustentar crescimentos económicos percentuais elevados e constantes ao longo do tempo porque a base vai aumentando", alerta Frederico Antão.
Para João César das Neves o abrandamento económico da China "é já uma realidade, é inevitável e até saudável". "Todos os países que atingiram aquele nível de desenvolvimento abrandaram. O que era estranho e insustentável era o crescimento anterior, que tantos pensaram ser normal". Por isso, o economista defende que "vamos ter de nos adaptar todos a uma China mais normal. Mas ao abrandamento não precisa de ser derrocada".
A opinião é partilhada por João Pereira Leite que também considera que o abrandamento "já é uma realidade pois para travar esse abrandamento, parece evidente que a China quer estimular o comércio externo com uma política de desvalorização cambial". "Isso é sinal de que as autoridades já têm evidência de um abrandamento acima do previsto", sublinha.
Mas Albino Oliveira também considera que a economia da China "está a abrandar", e" deverá provavelmente continuar a abrandar nos próximos anos, à medida que a economia avança no seu processo de transição para um ritmo de crescimento mais sustentável, tendo em conta a maior dimensão que a economia neste momento apresenta". "Os investidores esperam já que este processo continue nos próximos anos", antecipa.
No caso de Steven Santos, "esse é um dos maiores receios existentes, uma vez que um hard landing penalizaria muitos parceiros comerciais, nomeadamente países emergentes, e afectaria ainda mais as matérias-primas".
Já Pedro Lino considera que a ameaça "pode tornar-se uma realidade" porque "muitos chineses investiram no mercado e estão com fortes perdas, o que significa que irão consumir menos, ou têm maior incerteza nas suas vidas".
Efeito perverso do mecanismo de interrupção
Desde o início do ano que os mercados asiáticos passaram a contar com um mecanismo de interrupção, que suspende a negociação das bolsas quando se registam subidas ou descidas superiores a 7%. Numa primeira fase, os mercados são suspensos durante quinze minutos, mas poderão ser suspensos até ao dia seguinte, o que já aconteceu duas vezes esta semana. Se na segunda-feira as bolsas chinesas fecharam uma hora e meia antes do horário habitual, hoje a negociação só durou meia hora. Mas será que o mecanismo não está a ter o efeito inverso de incitar os investidores a vender ainda mais?
"Sim", alerta Steven Santos uma vez que "o circuito de suspensão tem o efeito pernicioso de incentivar os clientes assim que a negociação é retomada, devido ao receio de ficarem presos nas posições. O facto de muitos investidores serem pouco experientes e recorrerem a alavancagem exacerba o lado negativo do mecanismo de suspensão".
Frederico Antão segue na mesma tónica ao avisar que "o facto de haver um valor específico para suspender o mercado pode ter um efeito atrativo psicológico que tente os investidores a irem testá-lo".
Por seu turno, Albino Oliveira também considera que "provavelmente sim", "como foi visível hoje". "A sessão de negociação durou apenas 30 minutos, antes de ser suspensa, pelo que os investidores terão agora que esperar até à próxima sessão para ter outra oportunidade para negociar. Por outro lado acaba por ser também fonte de um efeito contágio para os outros mercados, uma vez que investidores que investem noutras regiões, quando confrontados com um mercado 'fechado' na China, acabam por avançar com vendas de ativos financeiros noutros mercados", explica.
"Este mecanismo é útil do ponto de vista da gestão de pânico, tenta impor alguma racionalidade às decisões e evita uma espiral ligada aos sistema de trading e stop losses automáticos. Existem outros mecanismos, como a suspensão de venda a descoberto ou a limitação de venda por parte de gestores das empresas cotadas, que essas sim merecem mais discussão e a sua limitação de liberdade não parece ser na defesa do interesse dos investidores", explica João Pereira Leite.
Já Pedro Lino e João César Neves alertam para a ineficácia destes mecanismos. Se para o primeiro "este mecanismo de suspensão é ineficaz e apenas contribui para aumentar a volatilidade e receio dos investidores, já que temem não conseguir vender as suas ações", já o economista salienta que "a base das finanças é a confiança e quando ela falta não há mecanismos que a possam substituir. É habitual que instrumentos que são úteis e eficazes quando a confiança existe tenham o efeito contrário quando ela falha".
Quedas das bolsas vão continuar?
A pergunta que se impõe neste momento é: será que a convulsão e a hecatombe nos mercados vão continuar? Os peritos antecipam que sim.
"Tudo depende da evolução da moeda chinesa, se continuar sob pressão e a desvalorizar-se, os mercados poderão continuar sob pressão", estima João Pereira Leite, explicando que "apesar de oficialmente não ter regime de câmbio fixo, é alvo de intervenção e controlo por parte das autoridades chinesas e só essas podem servir de travão a esta desvalorização".
Pedro Lino também salienta o factor cambial: "É expectável que enquanto o yuan continuar a desvalorizar e não se perceber se os grandes investidores vão vender as suas posições, a bolsa chinesa continue a desvalorizar".
Apesar de qualificar de "imprevisível", Frederico Antão considera que "não seria de admirar, ainda que a dimensão das quedas deva abrandar: a economia chinesa parece estar numa rota de abrandamento e esta noção vai reter investimentos".
"É plausível que as quedas fortes se sucedam", antecipa Steven Santos. E explica porquê: "O atual mecanismo de interrupção da negociação parece ser mais prejudicial do que benéfico. Embora o agosto de 2015 tenha sido um cisne negro e tenha contribuído bastante para esta estatística, verificamos que o índice chinês CSI 300 caiu mais de 3% em 22 sessões ao longo de 2015, o que equivalente a um mês inteiro de negociação. Nesse sentido, não ficaria admirado se tivéssemos mais sessões negativas".
Já João César das Neves não tem dúvidas de que as quedas dos mercados vão continuar, mas salvaguarda que "as bolsas na China são menos influentes do que se pensa, porque não representam grande parte da economia. As quedas são mais sonoras que dolorosas".
Por seu turno, Albino Oliveira acrescenta que "as autoridades Chinesas parecem continuar a ter espaço para suportar a economia através de instrumentos de política monetária e fiscal. Adicionalmente, a China apresenta um elevadíssimo montante de reservas cambiais". "Contudo, a continuação do processo de abrandamento da economia e os níveis de endividamento que esta apresenta representam riscos para os próximos meses", conclui.