Foi Rui Leão Martinho, bastonário da Ordem dos Economistas (parceiro da Ageas Seguros no ciclo de conferências Fórum PME Global) quem traçou o retrato daquela que já foi a terceira cidade do país: tem hoje 435 mil residentes na sua área metropolitana, e não obstante a universidade, a biblioteca Joanina, e toda a cidade de cultura e ciência, não deixa de ser a cidade que apenas ocupa o número 249 de pernoita por turistas. Por outro lado, no que respeita ao rendimento obtido pelos hotéis, restauração e similares, também Coimbra ocupa (no todo nacional) o lugar 230. "Vejam só o trabalho que aqui é possível fazer", disse o bastonário, olhando para o quadro geral, na conferência que decorreu em Coimbra, na quinta-feira. Estava dado o mote para um debate que se focou então no domínio empresarial. E, nesse capítulo, o concelho é apenas o 67º do país em empresas não financeiras por cada cem habitantes.
"Eu vejo que aqui há vetores que podiam ser bem desenvolvidos, porque para além da questão da Educação, da Ciência, e da Criatividade e do Património, poderíamos aqui trabalhar vastas áreas", disse Rui Leão Martinho, deixando pistas para um aproveitamento da economia verde em toda a zona do rio Mondego - e da qualidade de vida que pode propiciar a quem escolher a região para morar.
As smart cities - que estarão em destaque em Lisboa, de 16 a 18 de novembro, na FIL -, são apontadas como o modelo perfeito para Coimbra se reinventar, segundo o bastonário dos Economistas: "que consiga atrair gente para vir trabalhar, empresas para se estabelecer. Porque dentro do país, que é um país tão pequeno, nós precisamos de cidades para além de Lisboa, Porto, Braga, Viseu ou Aveiro, e podemos exatamente em Coimbra tentar de novo ter esse desenvolvimento e ter esse lugar no ranking das cidades portuguesas, porque condições há. Acho é que não se têm trabalhado devidamente".
Foi nesse ponto que o moderador da conferência pegou, antes mesmo de chamar os diversos oradores. Camilo Lourenço lembrou a Coimbra dos anos 70, então "um centro de conhecimento" de grandes dimensões, acompanhado de muita indústria, "e de repente, de um momento para o outro, desapareceu tudo". Antecipando a resposta, o comentador apontou as razões pelas quais "deixámos de ouvir falar de Coimbra", ao mesmo tempo que despontavam as universidades de Aveiro, Trás-os-Montes, Beira Interior, Minho, ou Évora. Mas Rui Leão Martinho acredita que a resposta estará também na própria universidade. Camilo insiste que é preciso vender a história da cidade. Mais: é preciso "saber vender" a própria cidade, no seu conjunto, para lá do turismo.
Com a mudança de poder autárquico, ficou expressa alguma esperança por parte dos diversos oradores do painel. Ainda antes da mesa redonda, houve espaço para trazer um tema caro a Coimbra: o aeroporto, que há anos consome artigos, petições, debates e conversas. "Qualquer dos aeroportos pode servir Coimbra. Não faz qualquer sentido, quando Lisboa dista 180 km daqui e o Porto ainda menos", disse o bastonário dos Economistas, lembrando que "não é esse o óbice de Coimbra. A questão é que durante longos anos a cidade foi esquecida. E não foi vendida como deve ser".
Jorge Pimenta, diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes, teve essa tarefa árdua de defender a dama coimbrã. E da parte daquela instituição, tem a explicação encontrada: "a tecnologia nem sempre é sexy", sem contar que "existe uma certa inclinação para outras empresas", que é como quem diz para que os media divulguem outras instituições. Quanto ao decréscimo populacional, lembrou que "as pessoas não saem só de Coimbra. Saem do país. Por isso eu vejo o copo meio cheio", disse.
Paulo Barradas Rebelo, o CEO da Bluepharma, a farmacêutica sediada em Coimbra, considera que, afinal, a cidade não é mais que "o reflexo do país em que vivemos e da Europa onde estamos". Sempre pronto a defender a [sua] cidade, onde há 20 anos foi possível "criar uma empresa com base no conhecimento, tecnológica, na área do medicamento". Hoje a Bluepharma é uma das grandes exportadoras do país (90%) nessa área, e está nos lugares cimeiros da inovação, investigação e desenvolvimento. "É uma empresa que todos os dias cria postos de trabalho. Por isso é possível em Coimbra, e em Portugal, fazer coisas bem feitas", disse Paulo Barradas Rebelo, certo de que à espera desta geração de empresários estão ainda imensas oportunidades, se é que não está ainda "tudo por fazer". Amante da cidade, acredita mesmo que ela só precisa de "atrair mais pessoas e reter as que tem, tornando a cidade mais agradável".
A analogia das autoestradas com a banda larga (download e upload) serviu na perfeição para Camilo Lourenço introduzir a questão do interior, de levar gente para lá, ou de lá para fora. Paulo Calado, diretor de gestão de parceiros da Microsoft Portugal, considera que temos as ferramentas em todo o país - todas as que precisamos para trabalhar -, mas falta agora educação e literacia. "Falta transformar a forma como as organizações trabalham".
E foi Paulo Júlio, CEO da Frijobel, uma empresa "ilógica" - que nasce na serra e se dedica à transformação e comércio de pescado congelado - quem conseguiu, afinal, colocar na mesa a "pescadinha de rabo na boca". "Eu não acho nada que a cidade não seja agradável. Tem história, tem património, quando falamos da dimensão económica já não podemos falar só de Coimbra; e depois há uma questão de expectativa e de ponto de partida. Porque o ranking das cidades vale o que vale. Porque é que Coimbra foi ficando para trás? Porque aqui valoriza-se de menos o empresário. E isso tem que ver com a política local".
Paulo Júlio é agora administrador a tempo inteiro da Frijobel, mas já foi presidente da Câmara de Penela (concelho onde está sediada a empresa). E tem no seu palmarés outro cargo importante: foi secretário de Estado da Administração Local.
"Quando digo que somos uma empresa que não tem lógica nenhuma, é porque nós somos uma empresa do setor do pescado, que já é a terceira em volume de negócios do país, que é a empresa no nosso setor com mais clientes em Portugal, e está em Penela, em plena serra da Lousã. É evidente que isto tem que ver com pessoas. Neste caso com o fundador, com a família Vasconcelos".
É aqui que encontramos o fio à meada: Raul Vasconcelos, fundador da Frijobel, não abriu aquela empresa em Coimbra em 1988 "por causa da burocracia da Câmara de Coimbra". Comparativamente, Paulo Júlio não tem dúvidas de que "em Aveiro ou em Leiria dá-se muito mais importância ao empresário". E de onde vem, afinal, essa explicação: "isso intercede com alguma coisa que está ainda agarrado ao cinzentismo que vem do século passado, e que caracterizava esta cidade como a dos doutores".
Num debate vivo, que assinalou a 12ª sessão deste conjunto de conferências organizadas pela Ageas Seguros, o Fórum PME Global trouxe à discussão, no hotel Quinta das Lágrimas, muitas das que são as preocupações empresariais do país, em diversos setores.
"Corremos o país de lés a lés. Ouvimos as empresas e ajudámos a partilhar experiências", lembrou José Gomes, da Ageas Seguros Portugal, logo no início da sessão, sublinhando que "agora entramos num novo ciclo, que é de investimento, e que por isso abre novas oportunidades".