As privatizações vão fazer mudar as caras das maiores empresas
participadas pelo Estado. Esperam-se novos nomes na gestão das
sociedades, mas esta mudança não deverá acontecer no curto prazo.
A expectativa é de que, pelo menos numa primeira fase, se opte por
alguma continuidade - sobretudo dos presidentes.
Na EDP tudo indica que António Mexia pode fazer um terceiro
mandato à frente da maior empresa nacional. É a leitura dos
analistas contactados pelo Dinheiro Vivo, para quem a sucessão ainda
não é uma questão. Há sinais que apontam nesse sentido. Caso os
chineses da Three Gorges ganhem o concurso, pouco mudará na gestão
da eléctrica. E da Eletrobras não se esperam mudanças de fundo já
que foi a administração de Mexia que iniciou os contactos com a
brasileira para a entrada no capital da EDP ainda na anterior
legislatura. Apenas uma vitória da alemã E.on poderá implicar
mexidas mais profundas na administração, acreditam os analistas.
Quanto à TAP, Fernando Pinto é o presidente de uma empresa
pública em funções há mais tempo - está a completar o quarto
mandato. O gestor já disse que não quer o quinto, mas o governo
pediu-lhe que ficasse até se concretizar a privatização - que
acontecerá no primeiro semestre de 2012. E ele aceitou. Afinal,
quando foi contratado, em 2000, a missão de Fernando Pinto já era
privatizar a companhia aérea. Depois de escolhido o novo accionista,
o gestor brasileiro, que também tem nacionalidade portuguesa, está
disponível para ficar, mas como chairman.
Já na Galp, as muito discutidas mexidas na administração
parecem estar suspensas. A equipa de Ferreira de Oliveira terminou o
mandato em Março, mas os dois maiores accionistas mantêm o
braço-de-ferro sobre o novo CEO. Amorim quer mantê-lo; a Eni está
contra. Enquanto isso, os administradores estão na corda bamba
porque, a qualquer momento, alguém pode marcar uma assembleia-geral
para eleger novos órgãos. No entanto, há quem admita que isso só
deve acontecer com a recomposição accionista da petrolífera. O
acordo parassocial da Gap exige que o presidente da comissão
executiva seja escolhido de comum acordo entre Amorim e a Eni. O
pacto está em vigor até final de 2013 e limita o acesso dos
angolanos ao capital e gestão da Galp.
O problema é que a venda da posição da Eni, que há um ano era
um dado adquirido, parece agora mais difícil. A saída do Estado
limita ainda uma eventual intervenção do Governo no processo.
Freitas do Amaral chegou a ser referido como sucessor da Murteira
Nabo, mas ao ceder 1% do capital detido pela CGD, o Estado perde o
direito de indicar o presidente não-executivo.
Mais tranquila parece ser a situação da administração da REN
(Redes Energéticas Nacionais) cujo mandato termina no final de 2012,
a tempo de concluir a privatização.
A par das privatizações, a mudança no poder político é sempre
motor de mexidas nas empresas que dependem do Estado. Mas com este,
têm sido mais as demissões que as nomeações. A redução e
reestruturação do tecido empresarial do Estado, mas sobretudo as
imposições do novo estatuto do gestor público, que reduz o nível
salarial e exige mais responsabilização, ajudam a explicar a
dificuldade na escolha dos sucessores.