Ao raiar do sexto dia de guerra, após as forças comandadas por Vladimir Putin terem invadido a Ucrânia, a moeda russa está no valor mais baixo de sempre, depois de perder 27% do valor face ao dólar. As trocas na bolsa de Moscovo foram suspensas, o banco central russo duplicou as taxas de juro e há economistas a avisar que a economia da Rússia pode tombar 5%. O perigo de catástrofe financeira no país é real, em resultado das mais duras sanções alguma vez impostas pelo Ocidente, incluindo a expulsão de alguns bancos russos do sistema de intercomunicações bancárias SWIFT.
"Aqui há um jogo de adivinhar o que se passava na cabeça de Putin, mas parece claro que ele estava a apostar na divisão entre os europeus e na sua superdependência do petróleo, gás, minérios e outros aspetos", disse ao Dinheiro Vivo a cientista política Daniela Melo, professora na Universidade de Boston. "Mesmo que Putin tenha considerado que eventualmente eles se poderiam unir com sanções, não pensou que seria tão rápido", notou a especialista em relações internacionais.
Segundo Melo, o rápido acordo para expulsar bancos russos do SWIFT "mostra que a estratégia de Biden está a dar frutos, porque esta é uma decisão muito difícil para os europeus", considerou. "Os americanos não estão tão dependentes do gás e do petróleo russo como os europeus", disse, notando que 40% do gás e 27% do petróleo consumido na Europa vem da Rússia.
Esta concertação, no seu entender, é um cenário pelo qual Vladimir Putin não esperava.
"De quantas maneiras é que o tiro pode sair pela culatra ao Putin? Há aqui muito potencial de "blowback"", afirmou a académica. "O Putin apostou que o enfraquecimento das relações entre os Estados Unidos e a Europa ia jogar a favor dele."
Na sua análise, esta é a grande oportunidade do presidente norte-americano Joe Biden de reanimar a ideia dos Estados Unidos a liderar a aliança transatlântica e as democracias do mundo.
"Historicamente, os Estados Unidos lideram melhor quando têm um inimigo bem definido. E a NATO trabalha melhor quando tem um inimigo bem definido", afirmou. "O Putin entregou-se de bandeja como esse inimigo".
Por causa das consequências imediatas que a invasão está a ter, não apenas no sistema financeiro mas em vários outros segmentos - com a suspensão das equipas de futebol das competições FIFA e UEFA, expulsão da Eurovisão, cancelamento do Grand Prix de Fórmula Um em Sochi, suspensão de todos os eventos da Federação Internacional de Ténis na Rússia e outros, o cenário de agitação interna é cada vez mais real.
E a isso junta-se a possibilidade de um conflito demorado. "Putin apostou que teria mais tempo ou que conseguiria entrar na Ucrânia mais rápido. Veni, Vidi, Vinci", disse Daniela Melo. "Ele convenceu-se de que isto seria uma luta mais rápida para mudar o poder em Kiev."
Ao mesmo tempo, a tentativa de lançar uma narrativa que enquadrava a Ucrânia como agressora não funcionou, uma vez que os Estados Unidos revelaram os planos com antecedência e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ganhou destaque positivo.
"Onde ele queria que o mundo visse um bicho papão criou heróis. O Zelensky, neste momento, é um herói a nível mundial", considerou Daniela Melo. "Isso vai tornar o seu assassinato muito improvável, porque criaria um mártir e tudo o que as insurreições precisam é de mártires."
A especialista considerou que Zelensky está a fazer um uso inteligente das redes sociais, com o intuito de fazer com que o mundo acredite que há esperança e se deve lutar pela Ucrânia,. "Tem superado as expectativas por todos os lados."
"Estes ataques constantes aos ucranianos e ao direito da Ucrânia de se sentir nação, com o direito de existir e uma certa independência cultural e uma distinção dos russos, terão imenso "blowback"" disse a especialista. "Onde tínhamos uma nação dividida agora não temos. Toda a gente foi obrigada a decidir se era ucraniana ou se sentia mais russa."