

Os pacientes que têm diabetes sabem que a doença é influenciada por um conjunto complexo de fatores. E é aqui que entra a tecnologia, nomeadamente a inteligência artificial. Como aponta o professor Miguel Melo, do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, as pessoas com diabetes já estão habituadas a ter muitos dados que têm de processar. Os níveis de glicose, os componentes macronutrientes da alimentação, por exemplo, os hidratos de carbono, a atividade física que desempenham em termos de intensidade e de minutos, a qualidade do sono que hoje é monitorizada por qualquer smartwatch, a pressão arterial, ou seja, dados que são necessários para as pessoas tomarem decisões.
A tecnologia atua ao nível da monitorização contínua da concentração da glicose, ou seja, a avaliação contínua da glicemia, de uma forma indireta. Hoje, através da AI há a possibilidade de fazer análise preditiva, “não só com base na tendência das últimas horas, que era o que nós tínhamos até há pouco tempo, mas também com a incorporação da inteligência artificial, a possibilidade de o sistema aprender, ter um mecanismo de adaptive learning. com as experiências daquela pessoa e conseguir fazer uma previsão muito mais precisa”.
Miguel Melo explica que esta previsão não só vai permitir, por exemplo, prever hipoglicémia, mas, também, dar aconselhamento personalizado à pessoa, sugerindo que coma determinado alimentou ou faça uma dose de insulina. “Se isto for acoplado a uma bomba infusora de insulina, naquilo que nós hoje chamamos pâncreas artificial externa, então, o próprio sistema pode, sem qualquer intervenção da pessoa, modular a infusão em função desta análise cardíaca”, acrescenta o professor.
Acontece que há algumas condicionantes à utilização desta tecnologia. Miguel Melo constata que são os próprios pacientes com diabetes que estão a “puxar” pela utilização destas ferramentas, nomeadamente as aplicações para smartphone, “porque sabem que existem, porque têm acesso a eles e no fundo a maior parte deles já um processo de regulamentação, mas ainda não tem a regulamentação completa”. E é precisamente este último ponto que leva a que os profissionais de saúde não tenham autorização para a sua utilização nalgumas práticas clínicas.
Há ainda um outro ponto, ainda mais importante. Como aponta Miguel Melo, é preciso assegurar “que aquele instrumento, ao dar uma determinada previsão, ao dar uma determinada instrução para uma alteração terapêutica, tem realmente um grau de fiabilidade muito grande, por forma a não, eventualmente, poder provocar um erro terapêutico”. Dito isto, “grande parte desse entusiasmo é puxado pelos próprios utilizadores, pelas pessoas que têm diabetes, que muitas vezes são elas o principal fator difusor da tecnologia”, porque “sentem no corpo as suas vantagens”.
Esta é uma vantagem importante, quer para pacientes como para os profissionais de saúde. Porque, e como refere Miguel Melo, esta é uma doença que tem vindo a ter cada vez mais pacientes. O professor afirma mesmo que, segundo as previsões apontam para Portugal ter cerca de 14% da população com diabetes. A números de 2021.
Questionado sobre o valor deste tipo de ferramentas Miguel Melo refere que, no que concerne à monitorização contínua o valor é relativamente acessível, mesmo porque é comparticipado pelo Estado. Depois há outras ferramentas, em que o nível de tecnologia associado é maior, como as bombas infusoras de insulina, destinadas fundamentalmente para pessoas com diabetes tipo 1 - de menos de 10% do total de pessoas com diabetes.
O futuro - que já está a ser utilizado nalguns países, mas não em Portugal - passa pela possibilidade de, através destes sistemas, ter informação capaz de suportar a decisão clínica. E isso quer dizer profissionais de saúde, não necessariamente especialistas. Através da utilização de algoritmos geralmente de deep learning, com base naquilo na previsibilidade do que acontece naquela pessoa, em termos de complicações, não só em termos de glicemia, mas também poder prever o risco daquela pessoa ter um enfarte, um AVC, ou outras complicações.