Como a Urban Wind evitou a saída de Lisboa da Volvo Ocean Race

A seis meses da passagem dos barcos da Volvo Ocean Race por Lisboa, João Lagos teve de desistir da organização do evento, que passara pelo país em 2012. José Pedro Amaral teve de se deslocar a Alicante, local de partida da prova, para garantir mais duas passagens pela capital em 2015 e 2018, adianta o responsável pelo Stopover da prova em Lisboa e administrador do consorcio Urban Wind em entrevista ao Dinheiro Vivo.
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O que levou a Urban Wind a entrar na Volvo Ocean Race (VOR)?

Entrámos numa lógica de revenue assurance (retorno garantido). A Urban Wind é um consórcio de duas empresas, a Urbanos e a Boulevard. Em 2012, a Urbanos tinha sido o parcerio logístico da VOR em Portugal, em conjunto com a DHL e a Boulevard, que está a trabalhar na organização da prova no Brasil. Apercebemo-nos, a seis meses do arranque da prova, que se vivia um clima de alguma instabilidade junto da organização, que tinha a ver com a situação que a Lagos Sports atravessava.

Tinha conhecimento direto da situação? Tinha falado com João Lagos?

Não, só sabíamos pelas notícias que iam saindo e por alguns contatos diretos com a casa-mãe da VOR. Tendo presente essa situação, antes de a prova passar por Alicante (em outubro), metemo-nos num avião e fomos falar com elementos da organização da VOR. Serviu para dizer que estávamos prontos para assumir a organização da prova. O histórico em paragens anteriores facilitou o clima de confiança. Rapidamente passou-se de um clima de instabilidade para uma confiança e uma aposta.

Qual foi o argumento decisivo?

O histórico, pelo facto de a Urbanos e de a Boulevard já terem trabalhado com a VOR. Acho que estas coisas são destemidas. Quando alguém chega a um lado e mostra que tem vontade...

Mas não foi só vontade...

Há três vetores: económico, patriótico e da oportunidade, o timming em que as coisas surgiram. Do lado económico, estamos a falar de um dos cinco maiores eventos desportivos do Mundo. Em 2012, este evento gerou 30 milhões de euros de impacto direto, de uma prova que faz mexer não só com a economia real mas também com a economia do mar. A VOR é uma porta aberta para essa economia. Do lado patriótico, o rio Tejo só existe em Lisboa. E este anfiteatro natural é único. Apesar de ser uma prova de vela oceânica, cada etapa tem uma regata costeira. Lisboa é o único sítio em que esta regata é feita num rio. Há uma história que é importante partilhar. Queremos sublinhar o lado do patriotismo.

Houve uma altura em que compararam esta situação com a Fórmula 1: passa um ano e já não volta. Queríamos evitar isso. Por isso é que surgiu esta ambição. A história da VOR não tem qualquer novidade [descreve o percurso da prova]. Tem o lado da portugalidade. A partir daí surgiu a hipótese de organizar o evento, e que levou à criação da Urban Wind. Sinto-me muto mais um empreendedor do que um empresário. Este era um grande desafio para nós. Era agora ou nunca.

Tem sido uma tarefa muito difícil?

Tem sido muito intensa. Não tem sido muito difícil porque construímos uma equipa fantástica. Fomos buscar empresas de um Portugal novo.

Como define esse "Portugal novo"?

É um Portugal que arrisca com responsabilidade. São empresas como a Torke CC, que ganha prémios de criatividade, como a Lift, que comunica eventos de tamanho assinalável, são várias pessoas que, não sendo da Lagos Sports, ajudaram-na muitas vezes neste tipo de organizações.

É parte da experiência na edição de 2012 que entra aqui?

É um Portugal novo, jovem. Conseguimos a combinação perfeita entre experiência, saber fazer e ter sangue na guelra e muita vontade de fazer.

A intensidade do desafio também tem sido essa?

Cada vez que conto a alguém que decidimos, apenas com seis meses de antecedência, organizar um dos cinco maiores eventos do Mundo, as pessoas riem-se um bocadinho e acham que há uma dose de loucura. Não há. Sou-lhe sincero. Há uma dose grande de empenho e de comprometimento.

Mas a Câmara de Lisboa também ajudou um pouco?

Há quatro entidades que são as grandes responsáveis pela manutenção da prova em Portugal, de forma diferente e por as pontes com a organização internacional se terem mantido: a Câmara Municipal de Lisboa - com um grande envolvimento do próprio presidente [na altura, António Costa] e do vice-presidente [agora presidente, Fernando Medina] - da Associação de Turismo de Lisboa, da administração do Porto de Lisboa e da Direção-Geral de Política do Mar.

Nunca foi necessário falar com o secretário de Estado do Turismo?

Nunca falei com qualquer membro do Governo. Acredito que as empresas privadas têm de ter espaço para tomar as suas decisões.

Mas para que seja atribuído o "interesse público" tem de haver intervenção do Governo...

Essa questão está a ser tratada pela Direção-Geral de Política do Mar. Nunca senti necessidade falar com ninguém do Governo sobre esta matéria.

E com João Lagos?

Falei com João Lagos. É fácil dizer mal das pessoas quando vivem um período de instabilidade na vida. Só tenho coisas boas a dizer dele. Trouxe para Portugal muitos eventos que levaram longe o nome do país. Deitou abaixo muitas barreiras. Esta tradição e esta voz comum de Portugal organizar muito bem eventos deve-se muito a João Lagos. Se a VOR está em Portugal, deve-se a ele, que a trouxe para cá em 2012.

Falei com ele, pedi-lhe conselhos. Aprendi algumas coisas com ele e tenho a certeza de que vai correr tudo bem. Ele está a torcer por isso.

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