O furacão Sandy atingiu de forma muito dura a Costa Leste dos Estados Unidos provocando danos no valor de milhões de euros às empresas norte-americanas, mas Portugal também está exposto a catástrofes de relevo, como a tempestade da Madeira em 2010 ou o facto de Lisboa estar numa zona sísmica, com o sismo de 1755 ainda bem presente na cidade.
"Ter um plano, por muito simples que seja, é sempre melhor do que não ter plano nenhum", explica Henrique Koenders, Risk Prevention & Engineering Manager da corretora e gestora de risco Aon Portugal, em entrevista ao Dinheiro Vivo, onde alerta para os riscos que as empresas em Portugal correm em termos de catástrofes naturais e como é que estas podem proteger-se.
Quais são os riscos que Portugal corre em termos de catástrofes?
Em Portugal, Algarve e a Bacia do Tejo são zonas com uma exposição
catastrófica a fenómenos sísmicos. Lisboa está um pouco mais protegida
mas, de qualquer maneira, continua a estar exposta a qualquer sismo que
ocorra como já aconteceu no passado.
Na tempestade que atingiu a
Madeira em 2010, os danos segurados excederam os 100 milhões de euros,
no que pode ser considerado um sinistro de grande dimensão.
Nos
tornados que ocorreram em Portugal os valores são inferiores à
tempestade da Madeira: No tornado que atingiu Tomar em 2010, os danos
foram da ordem dos 20 milhões de euros, com os valores pagos pelas
seguradoras a serem na ordem de um décimo desse valor. No Algarve, ainda
não sabemos ao certo mas existem valores importantes que resultam dos
danos que ocorreram nas instalações municipais em Silves, no complexo de
piscinas e no estádio, e no complexo de habitações.
Que tipo de apoio é que a Aon pode providenciar às empresas portuguesas?
Trabalhamos
com as empresas para acautelar que, primeiro, estão protegidas quando
estas catástrofes ocorrem, há algo que as empresas podem fazer para se
prevenirem, como analisar e actualizar os valores seguros que é algo que
vemos com alguma preocupação, porque em Portugal muitas empresas vivem
em situação de infra-seguro e isso é algo que depois prejudica muito
quando ocorrem sinistros desta natureza com danos graves e que sofrem
uma regra proporcional, que é uma condição em que o segurado segura
valores inferiores ao que realmente tem, depois a seguradora assumirá
que parte do seguro está por conta do segurado. Podemos ajudar neste
campo, porque temos áreas específicas para acautelar os valores seguros.
Por
outro lado, há o aspecto da interrupção da actividade que é causado por
este tipo de fenómenos que pode ser acautelada através do
desenvolvimento de planos de continuidade de negócio, em que se planeiam
as exposições que existem em termos de interrupção de negócio, que tipo
de riscos é que existem que podem vir a parar o negócio, e que medidas é
que eu posso implementar na minha empresa para continuar a actividade.
Em caso de uma empresa de comunicação social, por exemplo, se calhar é
preciso ter energia para os computadores trabalharem, ligações
informáticas ou telecomunicações.
Estes são dois temas que
podem vir a ser acautelados com alternativas, com alguns meios que podem
vir a ser adquiridos ou contratados para em caso de sinistro virem a
ser implementados.
Que conselhos é que dá aos empresários portugueses, de forma a protegerem os seus negócios?
Em primeiro, olhar para os capitais seguros e verificar se estes são suficientes para repor as instalações em caso de destruição total.
Uma das mensagens que temos para as empresas, é que ter um plano, por muito simples que seja, é sempre melhor do que não ter nenhum, porque quando o fez é um sinal de que estudou a sua exposição.
Existem muitas empresas com os bens infra-segurados?
Sim, infelizmente é frequente e normalmente não tem grande impacto para sinistros de pequena montra, os seguradores tipicamente não tem uma grande preocupação em sinistros de pequena montra com o infra-seguro, mas é extremamente crítico quando os danos são elevados porque os valores indemnizados podem variar muito consideravelmente com o infra-seguro. Em situações de grandes danos os seguradores vão verificar também que capitais é que deveriam estar seguros e se o cliente tiver os bens segurados por valores inferiores ao que deveria estar, será-lhe aplicado a regra proporcional e não pagar todos os danos que sofreu.
O furacão Sandy que atingiu os Estados Unidos recentemente pode ser considerado um exemplo em como as empresas devem estar seguradas?
O Sandy foi um furacão extremamente grave, de enorme dimensão teve uma área de diâmetro de 1600 quilómetros, sobretudo sobre Nova Iorque e Nova Jérsei e um dos problemas desta catástrofe foi uma subida do nível médio do nível do mar entre os dois e os três metros e isso causou inundações.
Nos Estados Unidos, o mercado funciona de uma maneira um pouco diferente e vai haver grande dificuldade na colação destes sinistros, por parte dos sinistros que estão cobertos pela Aon e outros estão cobertos pelo Estado, e isto vai levar bastante tempo até saberem exactamente os valores.
Nós temos uma divisão que é a Aon Bandfields que está muito vocacionada para co-orçamento na área de catástrofes naturais, é uma empresa que presta assistência a seguradoras e que estima que os danos, neste caso do Sandy, serão superiores a dez mil milhões de dólares, de danos seguráveis, e estima-se também que, relativamente aos danos totais, vão exceder os 30 mil milhões de dólares.
Há várias empresas que fazem modelação de catástrofes e estas empresas estão a indicar valores entre os 7 mil milhões e os 25 mil milhões de dólares em danos seguráveis, com os danos totais a ascenderem aos 50 mil milhões de dólares.
Muitos destes valores ainda não se sabe ao certo porque muitos destes valores dependem ainda da reclamação dos segurados e também há reclamações mais complexas, que são dos negócios que pararam devido à interrupção na cadeia de fornecimento, por danos em fornecedores, essas vão levar mais tempo a chegar e a regularizar também.
Como é que as empresas podem solucionar quebras na rede de fornecedores, como aconteceu recentemente com o sismo e tsunami no Japão?
A área de planeamento de continuidade de negócio, business continuity planning, é uma área onde se pode estudar com antecipação ao sinistro este tipo de exposição e em vez de se ter um fornecedor somente numa zona do globo pode-se ter um fornecedor alternativo que não seja afectado por um fenómeno deste tipo, catastrófico.
Também temos outro serviço que ajuda as empresas a entenderem a sua exposição para empresas que tenham muitas localizações, com várias instalações, quer no país quer a nível global. A problemática de perceber se os riscos estão expostos a fenómenos deste tipo torna-se mais complicado, é necessário recorrer a ferramentas informáticas que permitam aos clientes perceberem como é que podem ser afectados em termos de impacto económico e em termos de impacto na cadeia da operação.
Temos ferramentas desenvolvidas pela AON Benfield que permitem aos nossos clientes visualizarem muito bem as exposições que tem a fenómenos catastróficos inclusive permitir-lhes, em caso de catástrofes como no furacão Sandy, puderem simular a sua passagem na carteira de activos e puderem estimar quais é que foram os danos que ocorreram nas suas instalações, de forma a puder dar uma resposta muito mais rápida às instalações mais afectadas e puder suportar o processo de recuperação do negócio.
É uma ferramenta semelhante à utilizada às empresas norte-americanas que estimam os danos, que tem as carteiras de activos e simulam as catástrofes para estimar os danos. Esta ferramenta permite no fundo customizar essa situação para clientes em concreto.