Como ser feliz com um tsunami

Homens valentes camuflam medos. Mulheres frágeis escondem fortalezas. A frágil senhora que está no palco à minha frente é uma forte. Arqueia mas não quebra. Traz o semblante carregado mas não chora. Acabará por nos fazer chorar.
Publicado a

Seu nome é Maria Belón, a sua história é trágica e foi contada no filme "O Impossível", lançado em 2012. Maria, o marido e três filhos pequenos foram sobreviventes daquele funestamente famoso tsunami tailandês de 2004.

[jwplayer url="https://www.youtube.com/watch?v=GBtRaFnOZN4" vtype="yt"]

Maria começa a sua palestra a pedir desculpas por não estar fisicamente bem. Avisa que irá se socorrer de uma cadeira em boa parte da preleção. O seu pedido pela nossa compreensão soa estranho. Aquela mulher enfrentou uma das maiores tragédias naturais já registadas e mesmo assim teme a nossa censura, a nossa opinião.

Percebo o temor. Estamos num evento sobre gestão, storytelling, liderança e marketing. O imenso e belo Teatro Real de Madrid está lotado de tipos engravatados (gestores, marqueteiros e publicitários de vários países europeus, além de toda uma ala preenchida com centenas de universitários convidados).

É difícil descortinar à partida o que Maria vem ali fazer. Que lições a sua desgraça particular poderá nos trazer? O que pode aquela mãe de família ensinar a tão douta audiência?

Confesso que foram muitas coisas. Fico-me por uma, a mais filosófica: enfrentar um tsunami pode ser uma bênção divina.

Maria relata-nos que desde miúda tinha sonhos maus com uma onda gigante que a ameaçava. Tinha medo de morar perto do mar. Tinha medo de sismos. Tinha medo de tsunamis. Por incríveis coincidências do destino teve de morar em dois países que vivem em constante ameaças e práticas de tremores de terra (México e Japão).

A experiência de residir no instável território japonês era tão stressante que Maria achou ótima a ideia de passar férias de fim de ano numa plácida praia tailandesa.

Foi lá que teve que enfrentar e sobreviver aos seus piores medos. Literalmente.

O que Maria explica-nos é que após isso tornou-se uma pessoa melhor, mais confiante, mais destemida. Compreendeu que não adianta viver a fugir. Que o mau, o errado, o problema, o fracasso não existem para nos assustar e sim para nos mostrar que podemos sobreviver a eles.

Maria, pacientemente, nos lembra que o mundo divide-se em poucos grupos.

Há os que vivem em plenitude, sabendo que falhar é apenas um dos corolários possíveis de se tentar acertar.

Há os que temem viver, escondendo-se atrás do mediano, do medíocre, do já testado, do senso comum, do mais ou menos, sem nunca levantar a cabeça para olhar as infinitas possibilidades que estão no horizonte.

E ainda há o pior grupo, os que vivem para apedrejar os que tentam ter sucesso e que falham, sem nunca perceber que tentar já é uma vitória, que festejar o infortúnio alheio é do mais torpe que há.

O que a Maria nos alerta é que enquanto líderes, colaboradores de uma empresa, planeadores, estrategas, comunicadores, enfim, seres humanos, não podemos deixar ter a humildade de saber que não há como viver apenas dias bons.

Ser feliz não é perseguir uma boa vida sem percalços. Ser feliz é saber que uma boa vida também tem percalços. Nem mais.

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Depois do tsunami vem a bonança".

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt