Comunicação política

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Vivemos tempos estranhos onde até atividades relativamente inócuas ganharam um significado político. Desde os hábitos alimentares até às escolhas de consumo energético, tudo serve para afirmarmos uma posição ideológica, desde a roupa que vestimos aos filmes que vemos pouco escapa à lupa politica.

A politização dos mais variados temas foi superestimulada na última década pelas redes sociais, e com uma consequência curiosa: começámos a usar esses estereótipos sociais para inferir posições políticas e modificando as nossas escolhas sobre com quem queremos interagir. O leitor não come carne? É porque tem algum grau de consciência ecológica e não porque está a fazer uma dieta para ficar melhor em fato de banho. A sua escolha pode afastar ou aproximar algumas pessoas para quem essa consciência ecológica é prova de um determinado alinhamento politico.

O resultado? Uma radical diminuição do diálogo interpartidário, da discussão política transversal capaz de gerar pontes ou objetivos comuns. A atualidade noticiosa está cheia de exemplos em que escolhas de consumo ou hábitos sociais levam a um extremar de posições, indignações várias e afirmações absolutas de certo e errado, com um consequente afunilar das opções estratégicas dos decisores políticos.

Se este facto foi particularmente evidente nas duas últimas eleições americanas, os seus efeitos são mais generalizados. Em Portugal, nem as melhores intenções evitaram que a forma como as medidas de saúde pública foram comunicadas, levassem a uma polarização de posições. Se cumpria era um seguidista, se não cumpria um negacionista... nada pelo meio.

A forma como as políticas são entendidas pelo público e os seus efeitos, sentem-se claramente na forma como os partidos e os seus líderes se apresentam. Quais são os desafios então?

É que se não parece especialmente difícil perceber que ações moralmente condenáveis afetam a escolha de uma só pessoa, parece bastante mais complexo concluir positivamente que os media são veículos eficazes para comunicar convicções morais. A verdade é que é bastante mais simples estimular uma reação negativa generalizada, que o contrário. Trata-se de um mecanismo natural de sobrevivência, mas incrivelmente impactante. O medo e a desconfiança são emoções poderosas que ajudam a manter-nos vivos. São também o alimento das ideologias extremistas que encontraram neste enquadramento o ambiente ideal para prosperarem.

Num panorama altamente volátil de uma crise económica, a comunicação política das lideranças partidárias passa assim a ter um papel vital na manutenção das instituições que norteiam a sua atividade. Nunca se tornou mais clara a responsabilidade dos decisores políticos em assegurar que o seu discurso deve procurar soluções transversais, evitar polarizações infantis e encontrar consensos. Precisamente o tipo de discurso mais difícil de fazer passar a um eleitorado que está viciado diariamente em picos de stress e adrenalina. Basta ler as caixas de comentários dos jornais ou dos milhares de grupos de discussão no facebook. Os temas mais inesperados e neutros servem para afirmar verdades absolutas, julgamentos sumários, criando sentenças que são efetivadas num só dia.

O discurso consensual é visto como uma fraqueza, uma concessão perigosa e um abandonar de convicções. Já ninguém pode mudar de posição sem ser um traidor, ceder a uma exigência sem ser um fraco ou admitir um erro sem ser votado ao abandono.

Sem nos apercebermos, estamos a impedir a mais nobre função da comunicação política: a procura de um objetivo maior do que as nossas ambições pessoais, a capacidade de perceber os outros e criar soluções comuns.

Afonso Azevedo Neves, account director da AMPAssociates

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