O valor do ouro aumentou cerca de 20% desde o final do ano passado, logo após a subida da taxa de juro de referência nos Estados Unidos, em dezembro. No primeiro dia de 2016, a onça de ouro valia 1075 dólares. Na semana passada a cotação do metal precioso chegou aos 1360 dólares, o valor médio mais alto dos últimos dois anos.
O metal amarelo atingiu a cotação mais elevada de sempre em 2011, quando o Congresso dos Estados Unidos discutia o aumento do limite de endividamento do país. O receio dos investidores em relação um possível corte do rating do país elevou, então, o valor do metal amarelo para 1900 dólares. Entre 2013 e 2015 a perceção do risco baixou e o valor do ouro também.
“É um facto que a procura pelo ouro e outros metais preciosos, como a prata, tende a aumentar quando a complacência perante o risco baixa e a aversão aumenta”, salienta João Queiroz, diretor de Negociação do Banco Carregosa. Para os investidores comprar ouro é uma forma de “diversificação de investimentos em ativos de maior risco”, declara o analista.
Um exemplo da correlação entre o risco e a corrida ao ouro teve lugar na semana passada, quando o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos revelou que a criação de postos de trabalho no país tinha ficado acima das expectativas dos analistas. No mesmo dia, o valor do ouro caiu para mínimos de uma semana, 1327 dólares, ao mesmo tempo que crescia o otimismo dos investidores.
O refúgio dos investidores
A matéria-prima, considerada pelos analistas como o eldorado dos tempos de crise, é vista como um refúgio pelos investidores a nível global.
É por isso que fatores como o Brexit, a crise do setor financeiro, a incerteza que paira sob a economia chinesa e até a possível vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas de 8 de novembro estão a catapultar novamente o metal precioso para os píncaros.
“O ouro é caracteristicamente utilizado como hedge contra a inflação, como reserva de valor contra uma moeda em depreciação e como ativo de refúgio em momentos de volatilidade ou queda nos mercados. Eventos macroeconómicos ou geopolíticos que aumentem a incerteza, como o Brexit, e gerem volatilidade no mercado tendem a impulsionar o metal”, explica a equipa de research do Banco Big.
Foi uma tempestade perfeita que criou as condições para o ouro voltar a brilhar nos mercados. Até porque ao contrário de matérias-primas como o petróleo e o gás, não é a evolução da oferta e da procura que determina se o ouro é um investimento atrativo.
“O ouro é uma classe de ativo bastante específica, dado que, ao contrário das ações ou obrigações, não gera uma corrente de cash flow previsível e consistente, com os ganhos para o investidor a decorrerem de uma valorização do preço”, observam os analistas do banco Big.
A opções de política monetária dos bancos centrais, como a manutenção de taxas de juro historicamente baixas ou a compra de dívida em doses maciças foram um fator precioso.
“Face às valorizações das ações e das obrigações com melhor notação de risco, em resultado da forte expansão monetária e de taxas de juro negativas, reduziram-se as alternativas disponíveis para investir, o que estimulou a maior procura e interesse por metais preciosos”, justificam os analistas do Banco Big.
Rumo aos 1500$
Face a todas estas condicionantes, é ou não seguro investir as poupanças no metal precioso? João Queiroz considera que o investimento é “seguro na medida em que o seu ativo subjacente não se desgasta”, mas salienta que “está sujeito a flutuações no preço, como quase tudo”.
A mesma posição é defendida pelos analistas do Banco Big. “Não obstante o caráter de ativo de refúgio do ouro, este acarreta riscos como qualquer outro ativo, nomeadamente o seu desempenho está pendente de expectativas do mercado, que na sua maioria não assentam em fundamentais específicos ao metal, mas sim relativamente à evolução da economia mundial”.
Os indicadores positivos que chegam dos Estados Unidos dão uma pista para o que pode estar para vir.
Na semana passada “os investidores em ouro recuaram e tiraram algum proveito do facto de terem aumentado as probabilidades de as taxas de juro subirem nos Estados Unidos. No entanto, ainda não se sabe quando é que isso poderá acontecer, porque as eleições trazem muita incerteza”, afirma Naeem Aslam, analista da Think Markets, citado pelo Market Watch.
Alguns analistas acreditam que a Reserva Federal pode subir os juros já em setembro, o que a acontecer tornaria novamente o ouro num ativo menos competitivo, por não render juros.
Ainda assim as previsões mais recentes revelam que, a curto prazo, o futuro será brilhante para quem investe no metal precioso. Segundo um relatório do Bank of America Merryl Lynch, o preço do ouro deverá escalar mais 10% até ao final do ano e alcançar os 1500 dólares por onça no próximo ano.