COTEC quer alargar parceria entre empresas e academia além dos "suspeitos do costume"

Jorge Portugal notou que, "em muitos casos, os investigadores não têm incentivos para olhar para os problemas das empresas de uma forma valorizada" em termos de carreira, sendo preciso "mudar esta perceção".
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O diretor-geral da COTEC -- Associação Empresarial para a Inovação defendeu nesta quarta-feira que a "injeção de apoios públicos" dos próximos anos sirva para consolidar a parceria entre empresas e academia, alargando-a para além dos "suspeitos do costume".

"Há, obviamente, relações entre empresas e academia que já estão bastante consolidadas e consolidadas com décadas, são compromissos bem firmados e muito para além daquilo que são os contactos ocasionais e esporádicos. Agora, com a injeção de apoios públicos que vai acontecer nos próximos três anos, é preciso ir para além daquilo que são os suspeitos do costume, isto é, as empresas que já estão com essas relações bem estabelecidas com a academia e os grupos de investigação que também têm já as relações bem estabelecidas com as empresas", sustentou Jorge Portugal.

O diretor-geral da COTEC falava no final de uma conferência organizada no Porto pela agência Lusa, em parceria com aquela associação, e em que, sob o tema "Empresas e Academia -- O novo compromisso para a Inovação", se debateram "os próximos passos a dar para criar e consolidar parcerias" entre o setor empresarial e as universidades e centros de investigação.

Jorge Portugal notou ter ficado evidente no debate que, "em muitos casos, os investigadores não têm incentivos para olhar para os problemas das empresas de uma forma valorizada" em termos de carreira, sendo preciso "mudar esta perceção": "Hoje ouvimos aqui que as empresas têm problemas muito interessantes, com enorme mérito científico, que merecem a atenção dos investigadores", disse.

"Por outro lado -- acrescentou - as empresas também têm que baixar a guarda e aumentar a sua confiança de que o conhecimento de que precisam para responderem aos problemas do mercado e à sua necessidade de diferenciação competitiva passa por uma relação reforçada com o sistema científico e tecnológico".

Neste contexto, o diretor-geral da COTEC destacou a importância de "trabalhar nessas relações, que não acontecem por acaso", nomeadamente deslocando para as empresas "o centro de gravidade da investigação", trazendo os doutorandos para as empresas e promovendo que os doutoramentos se façam nas empresas.

Porque é nas empresas "que se sentem as dores de mercado, é lá que se sentem os problemas e é lá onde estão as oportunidades", enfatizou.

Apesar do "muito que já foi feito nos últimos 30 anos" a este nível, "em que o sistema científico se posicionou como uma arma competitiva da economia e da sociedade", Jorge Portugal considera que "é preciso tornar essas relações cada vez mais fortes e mais profícuas, encurtando a distância face à Europa" que ainda persiste.

"Três quartos da investigação e desenvolvimento são feitos nas empresas e uma em cada cinco empresas colabora com alguma entidade. Portanto, há uma cultura de colaboração e de abertura das empresas relativamente ao exterior, mas esse número deve aumentar", defendeu.

Defendendo que o sistema empresarial português ainda "não está a tirar o devido valor do conhecimento científico que está a ser produzido", o responsável da COTEC avançou, a prová-lo, o facto de o peso das exportações de média e alta tecnologia ser ainda "cerca de 30% inferior à média europeia" e, nos serviços, a distância ser "ainda maior".

"A relação entre empresas e academia, se estivéssemos a falar de relações sociais, é ainda muito precária. Encontramo-nos de vez em quando à noite, para beber um copo, mas muitas vezes não passa muito disso e os números mostram-no: Do volume de investimento feito pelas empresas, só 4 a 5% é feito com academia, o resto é feito dentro das empresas. Isto é um grande desperdício e não é sustentável", considerou.

Jorge Portugal salientou que "os problemas com que hoje as empresas se debatem no mercado são multidisciplinares, exigem múltiplas competências e exige um investimento em equipamento e 'hardware' científico que não podem fazer".

"Esse investimento está feito nas universidades e nos centros de investigação e compete às empresas encontrar qual é o seu nível adequado de colaboração, o que devem interiorizar do ponto de vista de investigadores e aquilo que deve ser externalizado, numa lógica de uma relação recorrente, contínua e de confiança com o sistema científico", sublinhou.

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