Na parte I e parte II deste artigo foram elencadas medidas de reforço ao comportamento social, com o propósito de minimizar a contaminação, fator imprescindível para que o regresso ao trabalho e adequado funcionamento das instituições seja possível. Adicionalmente, foram apresentadas propostas que possibilitam, com recurso a plataformas digitais, a retoma de um conjunto de atividades vitais e imprescindíveis ao funcionamento do país.
Neste artigo são abordadas matérias que respeitam à reação do espaço e política comum europeia. A Europa comunitária é um espaço de livre circulação de pessoas e bens, com o propósito de aprofundar a solidariedade entre os povos, respeitando a sua história, cultura e tradições. Tem por finalidade o desenvolvimento económico e social numa base sustentável, de acordo com políticas comuns. Os últimos anos têm, contudo, de algum modo evidenciado a fragilidade da união, e apesar de maiores orçamentos e do número crescente de funcionários e políticos associados às instituições comunitárias, pouco se tem cumprido no modelo idealizado pelos pais fundadores.
Com a existência de várias Europas dentro da Europa tem crescido a desconfiança por parte dos cidadãos europeus quanto à eficácia das instituições comunitárias. Há um excesso de desequilíbrios e desentendimentos e uma falta de estratégia associada a uma já prolongada ausência de liderança reconhecida. A Europa está estagnada, sendo que têm sido mais evidentes as suas fragilidades e desencontros do que propriamente a sua visão e funcionamento. A realidade é que a Europa assiste a uma disputa entre dois blocos poderosíssimos (Americano e Asiático) pela definição de uma ordem mundial e pelo domínio do desenvolvimento económico e comercial. A ausência de estratégia e lideranças claras tem dificultado muito a adaptação europeia a estas circunstâncias e poderá, a longo prazo, constituir um entrave muito penalizante à posição competitiva da Europa no mundo.
A crise que atualmente vivemos veio enfatizar a dificuldade de entendimento dos diversos líderes políticos quanto ao modelo de reação e que ficou patente naquela que considero uma picardia própria de conversa de café entre o 1º ministro de Portugal (país excessivamente endividado) e o ministro das finanças holandês (que enganou ao colocar no seu currículo um mestrado em economia empresarial que não tinha feito). É nestes detalhes que facilmente concluímos quanto ao fraquíssimo nível daqueles em cujas decisões assenta o futuro da nossa Europa.
Enquanto europeísta convicto, reconheço que o atual modelo de funcionamento cria muito mais antipatias do que adesões convictas. A crise que atualmente vivemos constitui uma oportunidade para a Europa compreender que necessita de atuar em uníssono. Não é credível aceitar que uma crise com estas características se resolve com teorias económicas e monetárias ortodoxas provenientes dos livros de Economia do século XX. É fundamental entendermos que uma parte substancial da capacidade competitiva da Europa resultará da forma como gerir a resposta aos constrangimentos sociais e económicos consequência da pandemia. É importante evitarmos que por teimosia, falta de criatividade e excesso de ortodoxia se entre numa recessão profunda com níveis elevados de desemprego e consequente instabilidade social. Seria certamente terrível para a Europa enquanto espaço de valores e de desenvolvimento socioeconómico associado à qualidade de vida.
A única forma de a Europa conter a proliferação do vírus é garantir a continuidade do encerramento de fronteiras e implementar o cartão de imunidade para que todos os que apresentem níveis de anticorpos aceitáveis, possam em ambiente de trabalho circular livremente em espaço europeu. Quanto às medidas de recuperação relativas à reação a este tsunami económico sistémico, é absolutamente necessário que a versão de entrega de dinheiro às famílias e empresas que estavam do ponto de vista da sua atividade no lugar errado à hora errada, cumpra metodologias de intervenção monetária “drone”. Essa intervenção monetária, que necessita estar totalmente alinhada com o BCE, deve funcionar como uma apólice de seguros, logo não deve nem constituir défice dos governos nem tão pouco endividamento. Deve ser entregue a fundo perdido, com origem em emissão de moeda, como modo de compensação por percas associadas a um risco sistémico.
São circunstâncias novas que em nada se relacionam com movimentos de mercado, más práticas ou crises políticas. Apanharam todos desprevenidos e é muito perigoso para o equilíbrio social e retoma económica, que alguns saiam profundamente prejudicados. Compensar parcialmente as perdas dos que ficaram estagnados é uma obrigação ética à luz da segurança comum, é sensato e assegura retoma a uma velocidade aceitável. Tudo o resto é irresponsabilidade e incompetência.
Eduardo Baptista Correia é CEO do Taguspark e professor da Escola de Gestão do ISCTE