Crescer na Ásia e consolidar vendas é meta d"As Portuguesas

Os 'sneakers' são a mais recente aposta da marca da Ecochic, que tem a Amorim e a Kyaia por sócios. Aumento dos preços e retração dos mercados são uma preocupação.
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Apesar de "muito difícil", com as incertezas no mercado, o aumento do custo das matérias-primas e o crescendo da inflação em toda a cadeia de valor, o ano de 2022 acabou por se revelar "muito positivo" para As Portuguesas, cuja faturação cresceu 50%. Em 2021, havia aumentado 80%, para "mais de quatro milhões de euros".

Para 2023, a marca de calçado sustentável criada por Pedro Abrantes, e que tem como acionistas a Corticeira Amorim e a Kyaia, pretende "reforçar a sua presença" internacional, muito em especial nos mercados asiáticos, de modo a assegurar os mesmos níveis de crescimento. Mas com a consciência de que 2023 será um ano "ainda mais difícil" do que o anterior.

"Temos que ter a humildade suficiente para saber que as exigências são muitas e que não é fácil crescer a estes níveis todos os anos. Há que manter os pés bem assentes na terra, mas acreditamos que, com a abertura de alguns novos mercados, poderemos manter o crescimento", refere o CEO da Ecochic, empresa que detém a marca.

Incerteza dos mercados

A incerteza dos mercados é a maior preocupação, sendo que o aumento dos produtos, por efeito agregado da subida dos preços das matérias-primas, dos custos energéticos e até da mão-de-obra, que em alguns casos chegou aos 40%, não ajuda. Em causa estão ajustamentos de preço final na coleção de verão, que agora está a chegar às lojas, na ordem dos 25%. "Tivemos que passar esses custos para o consumidor, pelo que até podemos faturar mais, mas não é real, porque vamos ter uma redução de vendas em número de pares. O consumidor está hoje mais consciente das incertezas e vai pensar duas vezes se vai comprar mais um par de sapatos ou não. As coisas não estão nada fáceis e já sabemos de antemão que vendemos menos porque as lojas compraram menos", explica Pedro Abrantes.

Por isso, a aposta passa por entrar em novos mercados e expandir a base de clientes. As Portuguesas estão presentes já em quase meia centena de países, mas têm nos Estados Unidos e no Canadá os seus principais mercados. O norte da Europa tem sido "muito forte", mas a Alemanha, por exemplo, é um mercado "muito sensível ao aumento dos preços. Os consumidores estão muito cautelosos, com todas as questões da guerra e dos efeitos da inflação, em termos energéticos e alimentares".

Reforçar o peso dos mercados asiáticos é a grande aposta para 2023. "A nossa principal presença no mercado asiático é em Taiwan, onde temos mesmo uma equipa própria, mas o Japão e a Coreia do Sul têm-nos surpreendido, com reações muito positivas, e é nesses mercados que vamos procurar dar um empurrãozinho adicional para nos sedimentarmos lá", avança.

Uma lança no Brasil

Na América do Sul, a empresa tem perspetivas "interessantes" no Uruguai, onde está a trabalhar com uma grande cadeia de retalho local, e tem dois clientes no Brasil que vão testar a marca nas suas cadeias de sapatarias. "Estamos muito contentes por termos esta primeira lança no Brasil, mas vamos ver a que preço é que o produto chega lá, atendendo a que as taxas de importação rondam os 60 a 70%. Será sempre um nicho", admite o empresário.

Recorde-se que As Portuguesas nasceram como o primeiro chinelo de cortiça do mundo, dispostas a concorrer com marcas como a brasileira Havaianas, embora num segmento de preço distinto. Mas hoje, os flip-flop d"As Portuguesas representam já apenas 20% das vendas da marca, e com tendência para descer ainda mais na próxima estação, por efeito da subida do preço dos materiais, designadamente da cortiça.

Em contrapartida, a marca tem vindo a alargar sucessivamente a sua oferta na gama de sapatos e botas. E a coleção de verão que agora chegou às lojas tem também uma oferta de sapatilhas, mantendo a proposta de valor da marca: a cortiça nas solas e os materiais sustentáveis nas gáspeas (a parte superior do sapato), feitas a partir de algodão e linho reciclado, mas também de compostos a partir de resíduos de café, cascas de milho ou películas e grainhas de uvas.

"Somos uma marca muito fiel ao nosso ADN e gostamos de dar passos certos e seguros. Fazemos sempre estudos de mercado e muitas análises para percebermos que direção queremos tomar e lançámos, na coleção deste verão, uma nova linha de sneakers para dar resposta a um mercado que não estávamos a atingir. Sabemos que vai levar o seu tempo a impor-se, mas a reação [do retalho] tem sido muito positiva, estamos curiosos como vai reagir o consumidor", refere Pedro Abrantes.

Produto 100% nacional

A escolha dos materiais é uma das grandes preocupações da marca, designadamente na procura por alternativas igualmente sustentáveis, mas a menor custo. As Portuguesas só usam matérias-primas produzidas na Europa. As solas são feitas a partir de granulado de cortiça da Amorim e o calçado é fabricado pela Kyaia - um casamento a três, que se manterá enquanto for interessante para a Ecochic e para a marca.

"Estamos sempre atentos e a sondar o mercado, para defender os interesses da Ecochic. Se em alguma altura virmos que a competitividade d"As Portuguesas passa por outros lados, dá-la-emos a produzir aí. Não é o caso atual, mas nada nos prende", garante Pedro Abrantes, que dá conta que já chegou a produzir solas fora da Corticeira Amorim quando assim foi necessário. "Somos uma startup com sócios fortes e eu tenho aprendido muito, tanto com a Corticeira Amorim como com a Kyaia. Mas estou aqui é para defender a Ecochic e o meu compromisso é com As Portuguesas", frisa.

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