Crescimento da Irlanda revisto para o nível invulgar de 26,3%

"Somos uma economia pequena e, se conseguimos um grande aumento de ativos, é isto o que acontece", referiu Michael Connolly.
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A surpresa foi geral e deixou os economistas de boca aberta. O crescimento da Irlanda de 2015 acabou de passar de uma primeira previsão de 7,8% – número que já era impressionante, uma vez que estamos a falar de um país que foi alvo de um resgate em 2010 - para uns surpreendentes 26,3%.

Os valores são oficiais e foram revelados hoje pelo gabinete central de estatísticas (CSO) da Irlanda. Mas como se explica este crescimento?

Há vários fatores importantes para perceber o que se está a passar na Irlanda. Para começar, o gabinete de estatística explicou que deu conta de um aumento do número de aviões exportados pela Irlanda para atividades de locação. Este crescimento (as exportações mais do que duplicaram) faria aumentar o PIB, claro, mas não seria suficiente para atirá-lo para um valor de dois dígitos.

A seguir, vem o mais relevante para compreender o que está a acontecer: foi detetado "um enorme aumento no capital das empresas".

E é com este novo dado que se percebe o fenómeno irlandês. Jack Allen, analista da Capital Economics, citado pela Bloomberg, explica: trata-se de um reflexo da deslocalização da sede de algumas empresas para a Irlanda onde beneficiam de baixos impostos. Ainda esta semana, só para dar um exemplo, a Mota-Engil anunciou que iria abrir uma sede naquele país. O mesmo se passa com empresas de leasing de aviões e que explicam o já referido aumento nas exportações de aeronaves. Na prática, não é da Irlanda que estes aviões estão realmente a ser exportados.

Trocando por miúdos, o que acontece é que a Irlanda está a cobrar impostos muitos baixos às empresas multinacionais (um IRC de 12,5% quando em Portugal a taxa nominal é de 21%) e com isso está a conseguir que muitas delas, a maioria é norte-americana, deslocalizem as suas sedes fiscais para Dublin. A consequência imediata é que os ativos contabilizados no PIB disparam.

"Somos uma economia pequena e, se conseguimos um grande aumento de ativos, é isto o que acontece", referiu Michael Connolly, um funcionário do CSO, citado pela Bloomberg, argumentando que os números, depois de explicados, são "credíveis".

O outro lado da moeda

Mas não se pense que a Irlanda em peso está a comemorar esta notícia. Michael Noonan, ministro das Finanças irlandês, não demorou a fazer um comunicado sobre esta matéria. E o seu tom foi de preocupação e não de euforia.

O primeiro alerta vai para o aumento artificial do PIB que acaba por não ter consequências na economia real. Noonan relembra que a partir do momento em que uma grande empresa passa a ter sede na Irlanda os seus lucros globais passam a ser incluídos no PIB do país. Mas isso não quer dizer que os valores tenham uma consequência direta na criação de emprego, relembra o governante, e ainda fazem aumentar as contribuições nacionais para o orçamento da União Europeia que é calculado com base no tamanho da economia de cada Estado-Membro.

Para se ter uma ideia, desde 2008 para cá, o PIB irlandês aumentou 7 mil milhões de euros à conta destas deslocalizações.

Na sua conta de Twitter, Paul Krugman, Nobel da Economia, não poupou nas críticas à "economia de duendes". Num dos tweets, onde argumentava que este crescimento não fazia sentido, questionava o porquê dos números das multinacionais aparecerem no PIB irlandês.

https://twitter.com/paulkrugman/status/752841032870551552

Aidan Regan, diretor do Dublin European Institute, acusava as contas de serem uma farsa e dava um bom exemplo: as companhias de leasing de todo o mundo estão a transferir as suas sedes fiscais para a Irlanda mas nenhum desses aviões - e todos os empregos que trazem consigo - estão estacionados num aeroporto irlandês. Em Dublin, "estarão cerca de 20 pessoas a gerir um fundo financeiro para evasão fiscal".

Jim Power, economista citado pela Bloomberg e que por estes dias dará uma palestra sobre o crescimento da economia irlandesa, confessa que ainda não sabe o que dirá: "A Irlanda está a crescer a uma taxa razoável, que será talvez de 5,5%."

Por isso, a única certeza que tem é que ninguém na plateia o ouvirá dizer que a economia da Irlanda cresceu 26,3%.

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