«Crise gera grandes assimetrias nos diferentes setores»

Numa crise que não é como as outras, pois afeta de forma diferente vários setores de atividade, é importante para o Novo Banco conhecer as necessidades específicas de cada área para avançar com soluções costumizadas.
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A situação de pandemia está a causar danos colaterais na economia, e como tal, os desafios que as empresas nacionais enfrentam são mais do que muitos. Porém, o país está longe de estar parado e, como diz António Ramalho, CEO do Novo Banco, "não vai ser possível sair desta crise sem uma parceria de ideias, destinada a encontrar soluções entre todos. Isto significa falar menos e ouvir mais". Para o presidente desta instituição esta crise tem uma característica fora do normal: ataca de forma assimétrica diferentes setores, diferentes regiões e até diferentes empresas. É, por isso, essencial conhecer as diversas realidades para se dar uma resposta efetiva às necessidades sentidas pelas empresas nacionais.

Foi com este objetivo que o Novo Banco avançou com a iniciativa Portugal que Faz, um ciclo de seis conferências regionais onde o banco e as associações representativas de cada região vão debater os desafios que as empresas enfrentam. A primeira, a ter lugar na AIDA - Câmara de Comércio e Indústria do Distrito de Aveiro, será transmitida no dia 9 de novembro, seguindo-se a sessão de Leiria, no dia 12 de novembro, nas instalações da NERLEI - Associação Empresarial da Região de Leiria. Até ao final do ano outras se seguirão em Braga, Porto/Maia, e Faro, ficando a sexta e última conferência para o início de 2021.

António Ramalho acredita que a saída para a crise será mais fácil se houver sinergias entre todos os stakeholders e que a descentralização das conferências é fundamental para identificar as necessidades próprias de cada zona.

Carlos Andrade, chief economist do Novo Banco, acompanhará António Ramalho nesta ronda pelo país e apresentará, numa perspetiva mais macroeconómica, os grandes desafios que a economia vai enfrentar. Os empresários nacionais deverão estar alerta para estes riscos - e também para as oportunidades geradas -, para assim tomarem as suas decisões estratégicas. Carlos Andrade afirma que é importante reconhecer que o ambiente é de grande incerteza, mas há que traçar cenários que possam definir caminhos, uma espécie de GPS que guie as empresas.

"Acreditamos que vamos ter uma recuperação económica relativamente lenta e gradual, e sujeita aos «soluços» dos confinamentos. Esta recuperação económica vai ficar abaixo dos níveis pré-covid, o que poderá durar até ao final de 2022", explica o economista. Isto tem consequências na capacidade produtiva, com um desemprego mais resistente e há o risco de alguns setores mais afetados não recuperarem a sua atividade, explica. Assim, poderá haver assimetrias relevantes, quer nos setores quer nos mercados. "No ciclo de conferências vamos adaptar a nossa apresentação em função das necessidades de cada região e de cada setor. Por exemplo, os indicadores apontam para uma recuperação mais rápida na indústria do que nos serviços. Em Aveiro e Leiria vamos incidir mais sobre a indústria, e em Faro mais no turismo", explica. Também haverá assimetrias por mercados de exportação - por exemplo, setores que dependem mais de Espanha, que deverá ter uma recuperação mais lenta do que a Alemanha, poderão ter consequências mais profundas.

O economista revela ainda que o banco tem dedicado alguma atenção à previsão da economia pós-covid, período a que chama de «economia prudente e cautelosa». "O conceito de economia prudente significa que vamos ter de aprender a coexistir com o vírus e manter alguns comportamentos. Os espaços comerciais, por exemplo, vão ter de continuar a ter atenção à densidade, o que traz desafios de rentabilidade, tal como nos hotéis, nos restaurantes, entre outros", explica. Haverá uma maior preocupação com as questões da sustentabilidade, as despesas de consumo e de investimento serão mais seletivas, e as pessoas, tal como as empresas, também terão uma maior preocupação com a chamada poupança preventiva. Ou seja, o lock down mostrou-nos a importância de ter uma almofada de liquidez para enfrentar períodos difíceis como este.

Outra tendência da economia pós covid é a redução da dependência dos fornecimentos externos, ou seja, as empresas não deverão depender tanto do sistema just in time, deverão ter mais stocks e sobretudo apostar em cadeias de fornecimentos locais e regionais.

Fernando Castro, presidente da AIDA, refere que vê este ciclo de conferências como um diálogo muito positivo com os empresários. "É sempre bom haver uma aproximação entre as empresas e o setor financeiro," diz. No entanto, também relembra que, como é sabido, as empresas estão muito descapitalizadas e com rácios de dívida muito grandes, e as medidas divulgadas pelo governo empurram-nas para mais endividamento. "Houve até aqui alguma morosidade, burocracia e falta de sintonia no acesso às linhas de crédito. E como falamos sobretudo de PME, o problema é difícil de resolver", explica.

António Poças, presidente da Nerlei, refere também que estes momentos de partilha de ideias são importantes para incentivar uma reflexão sobre os temas. "Acredito que esta cultura de proximidade pode potenciar a compreensão e a utilização de alguns instrumentos financeiros", diz.

O distrito de Aveiro é um dos mais dinâmicos do país, com uma atividade económica diversificada. Com uma estrutura empresarial muito heterogénea, convivem na região empresas industriais ligadas a setores mais tradicionais, como o agroalimentar, indústrias extrativas e metalomecânica, e empresas de alto valor tecnológico, ligadas à inovação proporcionada pela Universidade de Aveiro. "Temos cerca de 80 mil empresas na região, o que corresponde a cerca de 7% do número total do país, e registamos um rácio de exportação sobre as importações de 1,7%. Somos um distrito altamente exportador e com uma contribuição bastante positiva para o VAB e para o PIB nacional", adianta Fernando Castro, presidente da AIDA.

"O que seria uma boa notícia para os empresários da região era que a banca pudesse aprovar algumas propostas de financiamento sem exigências de maior", afirma este responsável. Explica ainda que o distrito não tinha problemas de empregabilidade antes da pandemia, mas o desemprego vai começar agora a ensombrar a região. Por isso, alerta que o governo terá de assegurar o maior volume de apoios possível, apostar sobretudo na formação e na requalificação dos recursos humanos.

"A Indústria 4.0 foi acelerada com a pandemia e as empresas têm de ter colaboradores qualificados para isso. O digital, que se revelou fundamental nesta fase, veio para ficar. As pessoas foram obrigadas a aprender a trabalhar com o digital de uma forma muito rápida mas agora terão de ter formação e estar muito mais preparadas ", afirma.

Tal como Aveiro, também Leiria é um distrito muito forte em termos empresariais. Só no concelho de Leiria existem mais de cinco mil empresas que registam um volume de negócios conjunto superior a 4,8 mil milhões de euros, e das quais mais de 700 são altamente exportadoras, com uma taxa de exportação de 14%.
"Este distrito tem uma grande diversidade de setores económicos, o que é muito positivo, pois não ficamos com demasiada dependência de uma só atividade", afirma António Poças, presidente da Nerlei.
Além dos moldes e dos plásticos, existem ainda inúmeras empresas na área das indústrias extrativas, da cerâmica, da agroalimentar, entre muitas outras.

Relativamente aos impactos da pandemia nas empresas da região, este é sensivelmente idêntico aos das outras regiões. António Poças entende que o governo não tem tido muita atenção às dificuldades que as empresas estão a atravessar nesta fase. Há medidas positivas sim, mas não são suficientes para fazer face aos desafios que enfrentamos, nomeadamente na área da legislação laboral.

"O lay -off foi uma medida importante para segurar o emprego, mas infelizmente não continuou nos mesmos moldes", diz o responsável, que entende que as medidas são, de facto, insuficientes mas, são, sobretudo, pouco claras e complicadas de implementar, pois têm muitas exceções. A simplificação deveria ter sido posta em prática, mas não foi, ou pelo menos não foi de forma eficaz.

António Ramalho defende que só ouvindo as necessidades do mercado conseguirá definir produtos ajustados para fazer face à crise

Qual foi o principal objetivo do Novo Banco ao proporcionar este roadshow junto dos empresários nacionais?

Num primeiro momento, o Novo Banco entendeu que era necessário esclarecer as dúvidas dos empresários, e até da sociedade civil, em relação à sua atuação e em relação à sua estratégia. Depois, num segundo momento, e agora que o ambiente económico está mais esclarecido e que está a aprender a gerir a incerteza face a estas circunstâncias, está a na altura de fazer um debate interno para perceber o que vai acontecer numa fase pós-crise sanitária. Porque esta nos vai obrigar a um esforço maior do que a própria crise em si, que surgiu inesperadamente. Sabemos que a economia vai ter uma recuperação mais lenta do que o expectável, e que isso significa uma melhor preparação, um melhor ajustamento e uma maior compreensão do mercado.

Porquê esta solução de fazer as conferências em vários locais do país?

Optámos por fazer estas conferências de uma forma descentralizada, porque esta é uma altura em que devemos ouvir em vez de falar. Os parceiros devem ouvir-se mutuamente, entenderem-se, e desenharem soluções para um novo futuro. Por isso, optámos por ir junto dos empresários, que estão todos os dias a trabalhar para encontrar soluções para os seus problemas, e com eles debater, em parceria a nossa visão e também aprender com eles sobre as suas necessidades numa circunstância como esta.

Falar menos e ouvir mais. O Novo Banco vai mesmo dar ouvidos às solicitações dos empresários? E de que forma?

Esta crise trouxe uma novidade face a outras crises, que foi uma assimetria dos seus efeitos nos mercados. Ou seja, não afetou da mesma forma todos os setores, todas as regiões, todas as empresas. E para dar voz a isso é preciso, não segmentar, mas sim costumizar as respostas, e para isso é preciso ouvir as pessoas. Não há receitas feitas para sair desta crise, pois esta é simultaneamente uma crise sanitária, de comportamentos, de mobilidade e de negócios, quer do lado da procura quer no lado da oferta.

Auscultar as necessidades trará instrumentos mais bem definidos?

Vamos ter de ajustar os nossos produtos porque essa é uma das características que esta crise nos vai impor. Temos de nos reinventar, mas para isso precisamos saber aquilo que os nossos clientes mais precisam, e aquilo que mais precisam hoje pode não ser o que mais precisam amanhã. Vamos ter que perceber como é que se enquadram as moratórias, como é que se sai das moratórias, como é que se enquadram os apoios do Estado, como é que se organizam propostas de valor de curto prazo, como é que se assegura maior flexibilidade na cadeia de valor, como é que se aproximam os clientes e como é que se antecipam as receitas. Ou seja, há ainda muitas questões em aberto.

Primeiro usou-se um «penso rápido», mas agora são precisos medicamento?

Claro que agora temos de ter soluções mais definitivas, a medicação. Essa medicação passa por remédios, mas também passa por muita fisioterapia.

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