A inflação muito elevada, que em abril disparou para 7,2% em Portugal, segundo avançou recentemente o INE, já não está a afetar apenas os preços da energia e das matérias-primas agrícolas, alimentares e industriais. A subida forte dos preços já está a contaminar muitos outros segmentos de bens e serviços, avisa o Banco de Portugal (BdP), no boletim económico de maio, publicado esta quinta-feira.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) já tinha alertado para este fenómeno de contaminação na semana passada e hoje o banco central governado por Mário Centeno reitera o alerta.
Segundo o novo estudo do BdP, "uma análise complementar - que decompõe a inflação total observada nas variações de preços dos itens elementares classificados por grau de volatilidade histórica dos respetivos preços - aponta para que as pressões ascendentes estejam a transmitir-se aos preços das componentes tipicamente mais estáveis".
"A subida da inflação no período recente é explicada em larga medida pelo quartil [25% das observações feitas ao nível dos preços] de maior volatilidade. No entanto, a variação homóloga média dos preços nos quartis de menor volatilidade também aumentou no final de 2021 e início de 2022".
Estes conjuntos de preços de bens e serviços mais estáveis e que até agora pareciam mais imunes à subida da inflação da energia e alimentar já "incluem, por exemplo, alguns serviços de educação e saúde, as rendas e os restaurantes e cafés", diz o estudo inserido no boletim.
"A variação homóloga dos preços no período 2016-2020 manteve-se próxima da média de 1,5% para o primeiro quartil de volatilidade e em 1,1% para o segundo quartil, mas aumentou para 2,9% e 5,2%, respetivamente, em março de 2022."
Uma comparação com a zona euro ao nível das medidas apresentadas "aponta para uma tendência ascendente da inflação similar à observada em Portugal" pelo que é "importante continuar a monitorizar estas medidas, a par de outros indicadores relevantes de pressões inflacionistas, com destaque para os salários e as expectativas de inflação", aconselha o BdP.
INE avisou para a contaminação na semana passada
A inflação homóloga em Portugal acelerou para 7,2% em abril, "o valor mais elevado desde março de 1993", revelou o INE na semana passada.
Além disso, percebe-se que foi agora, em abril, que Portugal começou a sentir, finalmente, o embate mais amplo e completo da crise energética e de matérias básicas na economia.
"O indicador de inflação subjacente (índice total excluindo produtos alimentares não transformados e energéticos) terá registado uma variação de 5% (3,8% no mês anterior), registo mais elevado desde setembro de 1995", diz o INE.
Isto significa que a inflação nos combustíveis e na alimentação já está a contaminar o resto da economia e os custos de outros bens e serviços ao nível do consumidor final, das famílias, escreveu o Dinheiro Vivo no sábado.
Segundo o instituto, "estima-se que a taxa de variação homóloga do índice relativo aos produtos energéticos se situe em 26,7% (19,8% no mês precedente), valor mais alto desde maio de 1985", ao passo que "o índice referente aos produtos alimentares não transformados terá apresentado uma variação de 9,5% (5,8% em março)".