Cristina Fonseca: "Muitas startups vão ficar pelo caminho"

A cofundadora da Talkdesk e agora investidora da Indico Capital Partners diz que o problema de hoje é todas as pessoas considerarem a sua startup "investível". Não sendo a realidade assim, as empresas devem ponderar antes de recorrer ao financiamento de Venture Capital.
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A crença de que o seu conhecimento tinha capacidade para gerar um grande impacto no mundo do empreendedorismo, levou Cristina Fonseca, cofundadora do unicórnio com ADN português Talkdesk, a embarcar na aventura do investimento em 2018, ao erguer um dos primeiros fundos independentes em Portugal, a Indico Capital Partners. Este foi, segundo a empreendedora distinguida em 2016 no ranking "30 under 30" da Forbes, o momento que ditou um antes e depois no ecossistema.

"Quando fundei a Talkdesk não havia um único investidor profissional no País. Existiam alguns fundos, a maioria associados a empresas, cuja mecânica de investimento é diferente", começa por contar. O surgimento de investidores profissionais marcou a diferença no setor, não só porque estes passaram a investir, mas porque "vieram com capital a sério" para o mercado, com o mindset de que o sucesso das empresas é também o seu sucesso. "Colocamos desde 100 mil euros a 10 milhões nas startups. O nosso objetivo é acompanhar os projetos ao longo das suas vidas. Sermos verdadeiros parceiros", explica, frisando: "O nosso trabalho não vai estar lá se fizermos um mau trabalho a investir."

A missão diária é "encontrar o top dos tops". O problema é que, hoje em dia, sobretudo com o surgimento da Web Summit e a promoção do ecossistema português, "toda a gente acredita que tem uma startup investível". A realidade não é bem assim, diz a sócia fundadora da Indico. Os pedidos de potencial investimento são muitos e grande parte está "totalmente fora daquilo" que é a área de atuação da Venture Capital (VC). Há que ser rigoroso ao fazer a escolha, isto porque muitas das startups investidas "vão ficar pelo caminho ou não vão cumprir com as expectativas".

Imaginemos que "eu tenho um fundo de 50 milhões de euros. Quando invisto numa empresa, tenho de acreditar que essa empresa vai pagar o meu fundo, que vou captar [por exemplo] 150 milhões com a sua venda". Ora, "tendo 15% de participação (o que é muito), essa empresa teria de ser vendida por mil milhões, pelo menos", ou seja, tenho de crer que chegará a unicórnio. "Isto é muito difícil".

Segundo Cristina Fonseca, a maioria dos negócios não tem este potencial. Das três hipóteses uma: o mercado não está lá, não são as pessoas certas e não têm essa ambição, ou não são empresas que se consigam escalar com tecnologia. Este último tópico assume um papel de relevância, uma vez que permite vender produto para qualquer ponto do mundo, detalha a empreendedora.

Outra questão diz respeito ao tempo, que tem cronometrado habitualmente dez anos para conseguir fazer vingar o negócio. Por tudo isto, "as empresas devem questionar-se se levantar dinheiro de VC é a coisa acertada ou quais os ingredientes que devem colocar no seu modelo de negócio para o tornar apetecível e investível por investidores do nosso tipo".

O ano passado bateu todos os recordes ao nível do financiamento levantado pelas startups portuguesas, que captaram aproximadamente 1,5 mil milhões de euros, compreendidos em 158 rondas de investimento, segundo dados do DealRoom. A dois meses de terminar 2022, o número de rondas realizadas vai em 74 e o montante levantado em 720 milhões, levando isto a concluir que há uma desaceleração no mercado de investimento.

Questionada sobre o que poderá estar a colocar um travão, a sócia fundadora da Indico considera estarmos numa transição a nível económica, levando os investidores a serem mais seletivos nas empresas que investem. Contudo, ao analisar melhor estes números, rapidamente se chegará à conclusão de que "há menos startups a surgir" - e "os investidores acabam por ter um incentivo maior a proteger as suas próprias empresas, a fazer rondas internas", explica. "Se eu tiver uma pool de dinheiro finita, numa altura de crise ou recessão económica, a minha preferência vai ser proteger o meu portefólio, vou investir mais nas empresas que já tenho em detrimento de ter novas."

Segundo Cristina Fonseca, "há cada vez mais fundos, muito dinheiro disponível". O momento continua a ser o de investir e de serem criadas startups. "As empresas que tiverem o privilégio de passar os próximos dois anos a testar produto e conseguirem, numa altura de mais turbulência económica, provar que o seu produto resolve um problema relevante, não terão problema em levantar dinheiro. Há sempre dinheiro para empresas boas, venham ter comigo."

Já no que toca ao novo enquadramento legal, que está a ser trabalhado pelo governo em conjunto com a Startup Portugal, a investidora considera que o impacto das leis lançadas pelo executivo não chega às startups e que os verdadeiros fatores limitativos deste tipo de empresas são o difícil acesso a talento.

O facto de o teletrabalho ser hoje o regime adotado por grande parte dos profissionais, torna a tarefa de contratar quase impossível, salienta a responsável. "Talento técnico e especializado muito facilmente trabalha para empresas a partir de qualquer parte do mundo. O efeito disto é que, de repente, as startups portuguesas precisam de muito mais dinheiro para serem competitivas e para conseguirem contratar estas pessoas e tirar os seus projetos do papel", vinca, acrescentando que são necessários incentivos que permitam colmatar este problema, bem como o do acesso a capital.

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