Crónicas na Corda Bamba: O negócio da pornografia está nas mãos dos homens

Porque é que o livro "50 Sombras de Grey" é um best seller? Porque é que o filme baseado no livro esgotou rapidamente as bilheteiras, depois do seu teaser ter sido o vídeo mais visto do YouTube em 2014?
Publicado a

Não me interessam as críticas sobre a quantidade de sexo que o filme apresenta ou esconde, nem sequer me interessa se o livro está bem ou mal escrito. Não li o livro, nem vi o filme, estou, por isso, à vontade para falar do assunto na única perspetiva que me interessa: porque é que as mulheres, jovens entre os 20 e os 40 anos, esgotam os livros e as bilheteiras desta história erótica, quase ligeiramente pornográfica?

Porque a indústria pornográfica ainda pertence aos homens e porque ainda somos demasiado machistas para aceitarmos que é normal as mulheres gostarem de pornografia.

A pornografia, em modo de livro, revista ou filme, está totalmente direcionada para os homens que, desde miúdos, assumem, escondendo até se não gostarem, o consumo destes produtos.

As mulheres podem assistir, meio às escondidas, ganhando por vezes um estatuto de que não gostam. Já adultas, algumas confessarão, perante os olhares críticos dos homens e até de outras mulheres. Somos ainda muito machistas, não fica bem a uma mulher gostar dessas coisas. Só podemos gostar de um livro sugestivo e esgotar salas de cinema com cenas quase eróticas.

Quando as mulheres puderem comprar pornografia, os realizadores investirão em cenas de prazer feminino (sem ser apenas lésbico, onde existe uma abertura de mente muito maior e um desenvolvimento de produto muito maior, se calhar apenas porque os homens também consomem).

Quando as mulheres lerem livros eróticos sem vergonha, existirão muitos outros títulos, em muitas cores, quando as mulheres abrirem o youporn com a mesma naturalidade com que abrem um site de receitas serão feitos filmes onde elas também terão direito e vontade de dar umas palmadas.

No momento em que a igualdade dos géneros chegar à indústria pornográfica teremos um verdadeiro desenvolvimento de produto adaptado aos vários clientes - homens e mulheres - e o normal aumento da qualidade daquilo que se faz. Está nas leis da economia, não nas leis do sexo.

E nesse dia, além de produtos com mais qualidade, teremos dado um enorme salto nos valores da igualdade, talvez a violência doméstica diminua, talvez as violações não sejam desculpadas porque a saia era demasiado curta, e talvez não morram tantas mulheres nas mãos de homens.

Quando não estranharmos que as mulheres esgotem livros e bilhetes de cinema - independentemente da qualidade do mesmo -, se calhar também não precisaremos de quotas na Assembleia da República, nem de estudos e iniciativas para igualar os salários de homens e mulheres que desemprenham as mesmas funções.

No dia em que homens e mulheres virem pornografia, ou rejeitarem vê-la, com a mesma naturalidade, teremos um mundo muito melhor.

Jornalista e autora do blog Dias de Uma Princesa

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt