A próxima década pode ser incerta e turbulenta. A crise do custo de vida, os confrontos geopolíticos e a falha nas políticas contra as alterações climáticas são principais riscos que a população mundial vai enfrentar nos próximos anos. São estes os pontos principais de alerta que o Global Risks Report 2023, do Fórum Económico Mundial, identificou e para os quais frisa serem necessárias ações coletivas urgentes "antes que os riscos atinjam um ponto de viragem."
Esta 17ª edição do relatório - levado a cabo com a Marsh McLennan e o Zurich Insurance Group - baseou-se nas opiniões de mais de 1200 especialistas mundiais em riscos, decisores políticos e líderes empresariais.
Como revela o documento, atualmente a preocupação e riscos maiores são as crises energéticas, inflacionistas, alimentares e de segurança, causadas primeiro pela pandemia e depois pela guerra na Ucrânia. Devido a estes fatores, e segundo os intervenientes no relatório, os próximos dois anos vão ser dominados pelos riscos de recessão; crescente sobre-endividamento; crise do custo de vida; sociedades polarizadas devido à desinformação e à má informação.
Desta forma, vai criar-se um hiato na ação climática. A menos que comece a existir cooperação a nível mundial, vamos ter aquecimento global de forma continuada e assistir à degradação ambiental, nos próximos 10 anos, alerta o Global Risks Report 2023. Aliás, dos 10 principais riscos associados à próxima década, seis são relacionados com o ambiente.
Como refere ao Dinheiro Vivo, Edgar Lopes, chief Risk Officer da Zurich Portugal, numa análise ao documento, o Global Risks Report de 2023 é muito claro a mostrar como, a curto prazo, as questões relacionadas com o custo de vida se tornaram prementes. "O mundo estava ainda em fase de recuperação da pandemia quando a guerra na Ucrânia trouxe de volta o espectro de um conflito militar de dimensões significativas ao continente europeu". No entanto, e apesar de ainda estarmos a sentir esse impacto, os riscos climáticos surgem "com grande destaque, quando falamos em riscos a dois anos - e ganham ainda mais importância quando pensamos num cenário a dez anos". E frisa: "Num horizonte a dez anos, a saúde do planeta domina mesmo as preocupações globais".
Por seu turno, Fernando Chaves, Risk Specialist da Marsh declara que "os riscos ambientais não são mais de caráter futurista, mas sim uma realidade que se traduz num número crescente de eventos cada vez mais extremos". O que implica uma ação rápida, porque se não se fizer nada "já para mitigar os riscos de mais longo prazo (isso) vai significar um agravamento dos mesmos para uma situação catastrófica, que ainda é possível evitar".
Edgar Lopes apela a "uma visão sistémica" por parte dos decisores políticos, que atualmente estão muito focados nos riscos de curto prazo, em particular no que concerne às questões económicas e sociais mais imediatas. "É natural que nos queiramos preocupar com o momento atual da economia, mas não nos podemos esquecer das questões do ambiente, que estão na base de tudo o que fazemos", afirma.
Já Fernando Chaves declara que "todos - governos nacionais, regionais ou locais, instituições governamentais e organizações internacionais, empresas e sociedade civil - temos um papel, mas o maior exemplo tem de ser dado por quem nos lidera", e adianta ainda que o exemplo europeu em matéria de liderança na implementação de medidas de sustentabilidade (sem foco exclusivo em aspetos ambientais) "deve ser tido em conta por todos e apoiado, nomeadamente pelos países mais ricos relativamente aos mais pobres".
O relatório diz que nos próximos anos, os governos que estejam a enfrentar situações de conflito que ameacem a sociedade, o ambiente e a segurança, irão sofrer "duras contrapartidas". E, é para evitar um maior aquecimento global e todas as consequências que daí possam advir que o documento "apela aos líderes para agirem coletiva e decisivamente, equilibrando visões a curto e longo prazo".
O estudo expõe a falta de progressos profundos nesta área, assim como de metas concertadas e como as exigências de recursos para outras crises - tanto do setor público como privado - e que vão acabar por diminuir a velocidade das ações que se têm levado a cabo. Para além dos parcos progressos no sentido de garantir a adaptação das populações que, cada vez mais, são afetadas pelas alterações climáticas. Tudo isto no espaço de dois anos.
Para evitar um cenário tão dramático, são mandatórias mudanças políticas e investimentos significativos. Ou estaremos a correr, em passo acelerado, para uma "interação entre impactos das alterações climáticas, perda de biodiversidade, segurança alimentar e consumo de recursos naturais acelerará o colapso dos ecossistemas".
O que resultará, inevitavelmente, numa ameaça ao abastecimento alimentar, num aumento dos impactos das catástrofes naturais, limitando novos progressos na mitigação do clima.
A inflação chegou, à boleia das consequências económicas causadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia. Iniciou-se uma época de baixo investimento e, como tal, baixo crescimento.
O Global Risks Report 2023 diz que nos próximos dois anos "governos e bancos centrais poderão enfrentar pressões inflacionistas persistentes", em especial se o conflito no leste da Europa se prolongar.
E se acontecer "um erro de calibração entre as políticas monetárias e fiscais", corremos o risco de um endividamento à escala global, após uma desaceleração económica prolongada. Também uma inflação prolongada poderá levar a uma estagflação com consequências socioeconómicas sem precedentes. "A fragmentação económica global, as tensões geopolíticas e uma reestruturação mais exigente poderão contribuir para o desespero da dívida generalizada nos próximos 10 anos", alerta o relatório.
Um cenário que pode levar a uma nova era económica, acentuando as divergências os países economicamente mais capazes e os mais pobres, podendo até existir "o primeiro retrocesso no desenvolvimento humano em décadas."
Tudo isto, apoiado no crescente descontentamento das populações que verão os seus ganhos corroídos pelas pressões económicas.
Os países mais ricos conseguem investir no seu desenvolvimento tecnológico e encontram soluções tecnológicas para a "abordagem de novas ameaças para a saúde e crises na capacidade dos cuidados de saúde, até à escalada da segurança alimentar e mitigação do clima", entre várias outras crises. Já os países com menos recursos e que não podem levar a cabo esses investimentos vão sentir a que a desigualdades e as divergências aumentam.
No entanto, o crescente desenvolvimento tecnológico também não é isento de riscos, alerta o relatório do Fórum Económico Mundial. E aponta: o aumento do cibercrime e ataques contra a agricultura e a água, sistemas financeiros, segurança pública, transportes, energia e infraestruturas de comunicação domésticas, espaciais e submarinas vão ser mais comuns. Que vão ameaçar populações de forma direta ou indireta, devido ao acesso indevido a informações pessoais, ameaçando o direito à privacidade.