Da Belíndia ao Brasil

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A Belíndia é um país pequenino e muito rico,

com leis rígidas, impostos elevados e acesso a educação e saúde

de qualidade. E é, em simultâneo, um país enorme, pobre e

ignorante, com disparidades sociais gritantes.

Logicamente, a Belíndia não existe, a não

ser na fábula imaginada nos anos 70 por Edmar Bacha, um afamado

economista brasileiro que mais tarde estaria na equipa que instituiu

o Plano Real, em 1994, o programa que controlou a hiperinflação no

curto prazo e possibilitou o crescimento do país nas décadas

seguintes.

A Belíndia era uma sátira ao abismo entre o

pequeno Brasil rico e o gigantesco Brasil pobre da ditadura militar

mas que se manteve atual até meados dos anos 90 do século passado,

durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso - e um

bocadinho, cada vez menos, até hoje.

Um Brasil em que uma percentagem mínima de

multimilionários concentrava a maioria do dinheiro e vivia com luxos

de primeiro mundo (o lado do estereótipo belga) mas em que cerca de

largas faixas da população era analfabeta, em que a esperança de

vida mal passava dos 60 anos, em que o índice de desenvolvimento

humano do país (IDH) o colocava fora do top-100 mundial e em que no

índice de desenvolvimento humano por município (IDHM) 86 por cento

das cidades tinham a classificação de "muito baixo", o pior de

todos (o lado do estereótipo indiano).

Hoje, de acordo com os números da última

versão do IDHM conhecidos no final de Julho, em vez de 86 por cento

de municípios classificados como "muito baixos" há apenas seis

por cento. Com metade dos 25 mil habitantes por alfabetizar e um IDH

de 0,418 (igual ao do Malawi), Melgaço, no estado do Pará, foi

notícia por ser o o último da lista - há 20 anos estaria na média

geral. Já nessa época, o estado de São Paulo se destacava mas não

havia lugares, como São Caetano do Sul, nos arredores da capital do

estado, que tem hoje um índice de 0,862 (quase ao nível do Reino

Unido). Mas o mais importante é que a maioria dos municípios está

agora dentro de limites relativamente equilibrados, que nos últimos

20 anos a esperança média de vida dos brasileiros subiu de 63 para

74 anos e que a classificação geral do país no IDH passou para 85º

do mundo e é considerada "alta".

(Para servir de parâmetro, Portugal, cuja

média de vida é quase de 81 anos, é o 43º da lista e está, por

pouco, no grupo das nações com índice "muito alto").

Numa altura em que os gurus da economia global

e local veem o futuro do Brasil cinzento por culpa dos erros crassos

da equipa económica de Dilma Rousseff, são os gurus da estatística

que trazem, mostrando o que já se fez, otimismo aos brasileiros,

recuperando os números negros do passado. Mas entre os gurus da

economia, cujo mantra é prever o futuro, e os da estatística, cujo

fim é analisar o passado, há os gurus da auto-ajuda que defendem

que não existem nem passado, nem futuro, só presente.

E o presente deve ser aproveitado porque o

Brasil nunca teve números tão bons: com o tal 85º lugar no IDH,

está mais perto da Índia (136ª) do que da Bélgica (17ª), mas com

a acentuada diminuição das desigualdades está cada vez mais longe

de ser uma Belíndia.

Jornalista

Crónicas de um português emigrado no Brasil

Escreve à quarta-feira

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