Desde 1995 que a Pixar não tinha um desempenho tão fraco nas bilheteiras como obteve com "Elemental", a sua mais recente longa-metragem de animação. Só o "Toy Story" original, há 28 anos, gerou menos receitas que este novo lançamento no fim-de-semana de lançamento.
Apesar dos visuais incríveis e da história comovente, "Elemental" encaixou apenas 40,7 milhões de euros na estreia, 27 milhões no mercado doméstico dos Estados Unidos e 13,7 milhões no mercado internacional. Não há como esconder, o filme realizado por Pete Sohn é um desastre. Conseguiu render menos que "Lightyear", em Junho do ano passado, também esse um enorme desapontamento para a Pixar.
Terá o lendário estúdio perdido o rumo? Será este falhanço um indicador de que algo está errado no império de animação?
Certamente que sim, ou não estaríamos a falar de um falhanço tão crasso - "Elemental" custou mais de 183 milhões de euros e a este ritmo possivelmente nem chegará ao "break even". Mas há uma história mais abrangente a ser espremida do comportamento das bilheteiras neste Verão, onde o muito aguardado "The Flash" também se espalhou ao comprido. O filme do universo cinemático DC, cujo orçamento também ultrapassou os 180 milhões de euros, estreou-se com um fim-de-semana miserável na bilheteira - apenas 50,4 milhões nos Estados Unidos e 124 milhões nos mercados internacionais.
Olhando para estas duas bombas de tristeza para a Disney Pixar e para a Warner Bros Discovery, há várias ilações a retirar. Uma: as audiências que se habituaram a que os filmes fossem rapidamente do cinema para o streaming não estão dispostas a gastar para ter a experiência no grande ecrã. A Pixar está a sofrer especialmente com isso, depois de vários dos seus filmes (como "Luca" ou "Soul") terem estreado logo no Disney+ durante a pandemia. Para uma família de quatro ou cinco, ir ao cinema tornou-se muito dispendioso e saber que o filme irá para o streaming em breve tornou esse investimento mais raro.
É algo que também terá afectado "The Flash", porque os espectadores sabem que mais coisa, menos coisa vão ver o título disponível no (HBO) Max.
Aqui há também uma fadiga crescente com os filmes de super-heróis, cujo pico já está no retrovisor. A Marvel capitalizou de forma brilhante nos seus personagens e conseguiu montar histórias cruzadas em múltiplos filmes com enorme sucesso. Mas o DC Studios nem por isso, e "The Flash" é mais uma evidência de que os espectadores andam à procura de outra coisa. Especialmente depois de "Guardiões da Galáxia: Volume 3", um dos melhores filmes de super-heróis de sempre que elevou a fasquia para níveis difíceis de alcançar.
No caso do "The Flash", há também a considerar o comportamento bizarro do protagonista Ezra Miller, que pode ter desencorajado muita gente de o ir ver ao cinema.
Tal não seria o caso com "Elemental", cujos protagonistas são elementos cheios de vida e características engraçadas. A questão é que este é um filme de animação mais para adultos que para crianças, tal como várias das últimas propostas da Pixar. E se é verdade que histórias como "Toy Story", "Up" e "Wall-E" se tornaram icónicas por apaixonarem fãs de todas as idades, há um elemento de apelo infantil necessário para cativar as massas.
Afinal, se querem ir ver filmes de animação mais maduros, as audiências escolhem títulos como "Homem-Aranha: Através do Aranhaverso", que esmagou as marcas desde a estreia em Junho: já encaixou 223 milhões de euros nas bilheteiras internacionais e 344 milhões nos EUA.
Aí está outro motivo para a espiral descendente da Pixar. Há agora várias alternativas de qualidade, tanto no estilo de animação como na capacidade de contar histórias emocionantes. Ser Pixar já não é suficiente para que tenha sucesso. Tal como ser uma história de super-heróis já não significa brilharete automático..
Atirar com dinheiro para cima das produções, numa altura de grande transformação das audiências e da própria Hollywood, não garante coisa nenhuma. As pessoas não precisam de ir às salas de cinema para verem conteúdos incríveis. É preciso dar-lhes (muitas) razões para isso.