De Ratos e de Homens

Os ratos quando postos em situações de extrema opressão portam-se de maneira mais digna do que os humanos
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A pergunta de mil milhões de dólares no mundo da publicidade e do marketing é: “Como fazer os consumidores quererem o meu produto repetidas vezes e nunca o do meu concorrente?”

Graças a um Deus bondoso não há uma resposta científica para isto. Quem diz saber a solução para tão intricada charada está a mentir para os outros. Quem acredita que irá encontrar um mecanismo mágico para resolver o problema está a mentir para si mesmo.

O que nós, profissionais da área, temos são aspirinas para tratar dores de cabeça, não fazemos cirurgias aos cérebros dos consumidores.

A pergunta do primeiro parágrafo inclui muitas coisas, uma delas tem que ver com os mecanismos do vício.

Há muitas teorias sobre porque certas pessoas se viciam em determinadas drogas e outras não. Questões físicas, químicas ou biológicas explicam quase tudo. Mas não tudo.

Um clássico experimento punha numa gaiola um rato com acesso a duas fontes de água. Uma limpa, outra com cocaína adicionada. O rato experimentava e acabava por gostar mais da que tinha coca. Bebia até morrer pelo vício.

A experiência foi repetida vezes sem conta, quase sempre com o mesmo resultado.

Até que, nos anos 70, um professor de Psicologia canadiano, chamado Bruce Alexander, tentou algo diferente: criou o Rat Park, uma gaiola cheia de bolinhas coloridas, túneis e boa comida. Lá despejou alguns camundongos que podiam brincar e comer à vontade. Colocou também as duas fontes de água.

Nenhum dos ratinhos se tornou dependente de coca.

Há vários paralelismos que apontam para a mesma coisa. Doentes tratados com morfina via de regra não ficam viciados. Morfina e heroína são opiáceos em tudo iguais.

Daí que muitos pesquisadores concluíram que a chave está na socialização, no quanto o indivíduo se sente protegido, amado, capaz de estar bem com os outros. Ou como diria o meu Tio Olavo: “Pessoas que estão bem com pessoas não procuram amor no universo das coisas.”

Para encerrar, lembrei-me de um trecho do meu segundo romance (Jonas Vai Morrer), onde um personagem relata o seguinte: “Uma vez li um estudo, uma comparação entre ratos e homens. O teste passava por desferir marteladas nas cabeças de camundongos e humanos até que morressem. Os ratos emitiram alguns guinchos, os humanos choraram imenso, rezaram, pediram ajuda a diferentes deuses, demonstraram predisposição para trair familiares em troca de salvação.

Numa segunda fase do estudo, submeteram roedores a leituras ininterruptas de todas as peças de Shakespeare. Após várias semanas, nenhum rato reclamou de nada. Já os homens, em menos de 36 horas, começaram a ter atitudes estranhas como tentar arrancar a cabeça dos companheiros ou comer a própria mão. Os dois testes revelaram que os ratos, quando postos em situações de extrema opressão, portam-se de maneira mais digna do que os humanos. E que também são mais afeitos à chamada alta cultura.”

Storyteller e publicitário

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