Desencanto

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Entre os vários estudos internacionais que têm tentado diagnosticar os determinantes da produtividade, há uma conexão que tem passado algo despercebida: a ligação negativa entre a jactância dos gestores e a qualidade das suas práticas de gestão. Pode parecer paradoxal, mas é nos países reconhecidos por adotarem as melhores práticas (e, ao mesmo tempo, terem produtividades e níveis de rendimento mais elevados) que os gestores se manifestam mais insatisfeitos com o seu próprio desempenho. As consequências são óbvias: se considerarmos que fazemos tudo bem e os resultados são fracos, a responsabilidade tem de ser exterior à empresa. Os resultados são maus por causa do contexto. Enquanto este não mudar, é difícil fazer melhor. Em contraponto, outros, mais focados no seu labor, vão continuando a caminhar.

Segundo alguns estudos, em Portugal prevalece a autossuficiência. Não é plausível, porém, que tal seja um exclusivo de quem gere. Se a mesma for generalizada, uma questão de "cultura", como se costuma dizer, teremos governantes e cidadãos auto complacentes, à procura do "seu contexto", em que, ou quem, possam, possamos alijar as culpas. A mudança ocorre mais por reação que por iniciativa própria. As políticas falham por causa das empresas, do mercado, da fraude, da China, da... Ou, num registo oposto, por causa do Estado, da burocracia, do nepotismo, da China, da... Do outro, dos outros! Sem que nada se aprenda.

Em resultado, temos uma sociedade em que escasseia a humildade e a determinação, em que a ambição se resume, amiúde, ao desejo de que o sonho se torne realidade. Distraídos em acrimónias recíprocas ("em casa em que não há pão..."), consumimos nelas a vitalidade essencial para a pequena melhoria que, continuada, dará origem às grandes transformações. Entretanto, vamos dando espaço e ensejo a discursos salvíficos e populistas, que têm tanto de conveniente (haverá algo melhor do que um milagre, para resolver problemas?), como de perigoso.

Há exceções: os insatisfeitos porfiam e alcançam. Rui Nabeiro foi disso um exemplo!

Alberto Castro, economista e professor universitário

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