Desta vez é a sério: uma ameaça existencial contra o Facebook

Mark Zuckerberg fez tudo para evitar que este momento chegasse. Diz-se, por aí, que tentou ficar nas graças do presidente Donald Trump para dificultar aquilo que acabou por acontecer - o regulador norte-americano FTC formalizou um processo para tentar desmantelar o império Facebook.
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O processo anti-concentração alega que a gigante das redes sociais abusou do seu domínio e fez aquisições estratégicas não pelo valor intrínseco das empresas compradas, mas para esmagar a sua competição. O congresso grelhou Zuckerberg sobre este comportamento anti-concorrencial em Julho, quando ele e três outros magnatas de Silicon Valley foram questionados no âmbito de várias investigações.

Ficou a saber-se que emails trocados entre Zuckerberg e o director financeiro do Facebook, David Ebersman, mostravam como o CEO considerava o Instagram uma ameaça. A decisão de comprar a startup adveio desse receio, alegaram os congressistas. "Este é exatamente o tipo de aquisição anti-concorrencial que as leis foram desenhadas para evitar", disse na altura o chairman do comité judiciário da Câmara dos Representantes, Jerrold Nadler.

É com base nestas investigações que a FTC - e um grupo de 46 procuradores-gerais estaduais, em processos separados - vão tentar que o Facebook seja forçado pelos tribunais a desinvestir do Instagram e do WhatsApp. Foram as maiores e mais relevantes aquisições que a rede social fez na última década, primeiro o Instagram em 2012 por mil milhões de dólares e depois o WhatsApp, em 2014, por 22 mil milhões. Ambos são parte fundamental da estrutura de receitas da empresa e da sua estratégia de crescimento no longo prazo, pelo que perder estas fatias do bolo poderá mesmo ser uma ameaça existencial ao Facebook.

É discutível se a FTC e os estados conseguem provar em tribunal que a génese das aquisições foi malévola e feriu os princípios da concorrência que as empresas têm de seguir nos Estados Unidos. Mas é inegável que a conduta de Mark Zuckerberg e o poderio do Facebook têm sido nefastos para o mercado, para a inovação e para a economia - um Adamastor que estraçalha startups ao pequeno-almoço e provoca remoinhos nos mares à sua volta para impedir qualquer outro de navegar.

Muitos especialistas avisam que será uma guerra difícil para os legisladores, dispendiosa e cheia de avanços e recuos. Não apenas devido à relutância dos tribunais de tomarem acções desta monta após a presidência de Ronald Reagan, mas também porque a própria FTC aprovou as aquisições sem grandes problemas.

Olhando para trás, é possível questionar porque não houve maior escrutínio desta e outras compras que o Facebook foi fazendo. Porquê só agora? A acção anti-concorrência não devia ser reaccionária.

A bola está, no entanto, a rolar. É de esperar que surjam mais acções como estas, já que Apple e Amazon são outros alvos de investigação e a Google já está a ser processada pelo Departamento de Justiça. Possivelmente, assistimos ao início do fim dos grandes monopólios em Silicon Valley e inauguramos uma era em que ninguém poderá tornar-se demasiado grande para cair.

O que será do Facebook se for partido aos bocados é incerto, mas não cabe aos governos nem aos tribunais tomarem conta dos accionistas. O garantido é que esta é a maior guerra da vida de Mark Zuckerberg. E, ao contrário do que sucedeu até agora, é possível que venha a perdê-la.

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