Dez anos após a entrada do euro, o escudo ainda é referência nas contas feitas pelos mais velhos, mas para adolescentes e jovens a antiga moeda portuguesa resume-se a termos como "merréis" ou "paus".
"Quando vou comprar alguma coisa ou peço algum orçamento, o valor aparece-me em euros mas eu faço sempre as contas em escudos, para saber se é caro ou barato", disse, à Lusa, o diretor do Lar de Santa Teresa, em Viana do Castelo.
Segundo Armando Soares Pereira, de 79 anos de idade, "o euro veio encarecer muito" a vida das pessoas.
"Pergunta-se quanto custa, respondem-nos que é um euro e isso parece que não é dinheiro nenhum, mas a verdade é que estamos a falar em 200 escudos", acrescentou.
É por isso que, no seu dia a dia, seja nas compras particulares, seja na gestão do lar, Soares Pereira continua a "fazer contas em escudos".
Utente do lar de idosos daquela instituição há seis anos, Marina já conta "80 e muitos" e afirma, sem hesitar, que "o escudo rendia muito mais" do que o euro.
"Lembro-me muito bem do escudo e, olhe, rendia muito mais que o euro, muito mais", refere aquela antiga modista em Lisboa, confessando ter "saudades" do tempo em que se "orientava a vida" com "tostões" e com "merréis".
"Merréis" é uma palavra familiar a Filipa, 16 anos e também utente do Lar de Santa Teresa, que confessa saber muito pouco do escudo.
"Sei que era a moeda que havia em Portugal antes do euro e penso que mil escudos são cinco euros", refere.
Da antiga moeda portuguesa, fixou o termo "merréis", pronunciado pela avó, sem no entanto fazer "a mínima ideia" de que valor se está a falar.
Já Cármen, 14 anos, tem na memória o termo "paus", ainda hoje pronunciado pela mãe, quando se refere a dinheiro.
"É isto vale uns mil paus, um café custa 100 paus...", refere.
Filipa e Cármen confessam que não sabem se seria melhor ou pior para Portugal voltar a usar o escudo, mas a mais velha admite que a crise que o país hoje vive poderá dever-se à moeda única.
"Acho que a culpa é do euro, acho que tudo ficou mais caro", afirma Filipa.
Depois de uma vida inteira a lidar com escudos e com francos, Amândio Pais, um antigo jardineiro emigrado em França e atualmente também a residir no Lar de Santa Teresa, viu o euro -- ou "ouro", como pronuncia - entrar na sua vida quando tinha 78 anos.
"Eu sei lá se é bom ou se é mau. Um euro quantos merréis são, afinal?", questionou este antigo emigrante que um dia as autoridades francesas queriam multar por trabalhar 12 horas diárias, que era "tempo a mais".