Difícil é fazer

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Os territórios de baixa densidade são cada vez mais procurados para residir e trabalhar, sobretudo devido ao facto de o custo de vida ser atrativo e a qualidade de vida claramente superior face aos grandes centros urbanos. Este aumento da procura foi acelerado durante a pandemia covid-19 e está em linha com o facto de cada vez mais empresas adotarem modelos de trabalho híbridos.

Para que estes territórios possam aproveitar esta tendência, é necessário criar as condições que permitam reter as poucas pessoas que ainda aqui permanecem e, em simultâneo, captar empresas e os seus colaboradores para se fixarem nestes territórios. Essas condições passam, entre outras, por transformar pequenas aldeias em comunidades cujo desenvolvimento esteja assente na partilha de espaços e de serviços para viver e trabalhar de forma competitiva, colaborativa, flexível e remota, inaugurando nestes locais novos modos de vida em formato coliving e coworking.

Na última cimeira ibérica, este foi um dos temas centrais da agenda, tendo sido assinado um "Memorando de Entendimento sobre a revitalização e inovação territorial das Aldeias Transfronteiriças". Um dos objetivos deste memorando é criar um programa conjunto para revitalizar e recuperar a vivência nas "aldeias de fronteira", compromisso em linha com outras iniciativas do Governo, como a "Rede Nacional de Espaços de Teletrabalho/Coworking nos Territórios do Interior de Portugal" e o "Programa de Revitalização e Inovação Territorial" (REVITAL). De relevar que estes compromissos do Governo estão em linha com a visão de longo prazo que a Comissão Europeia estabeleceu para as Áreas Rurais da União Europeia, "European Startup Villages".

Contudo, e apesar do alinhamento político e estratégico existente, creio que continuamos a falhar nas competências institucionais que permitam concretizar os compromissos e os objetivos definidos. Mas, mais do que a inércia ou a burocracia, que justificam, em parte, essa ausência de competências, o que me preocupa é o eventual desperdício da energia, da vontade e do compromisso de inúmeras pessoas que, de norte a sul do país e ilhas, tentam dinamizar estes territórios de baixa densidade.

Assim, e se queremos verdadeiramente "fazer acontecer" e criar o impacto necessário, urge sermos muito mais céleres, práticos e seletivos nas opções e, sobretudo, que as parcerias público-privadas, indispensáveis para o sucesso deste desígnio, sejam diferenciadas e assentes de acordo com os constrangimentos, oportunidades e idiossincrasias de cada um dos intervenientes. Mais de que "protocolos redondos" ou "aspiracionais", precisamos que o trabalho conjunto esteja assente na realidade, compromisso e capacidade de execução de cada um dos intervenientes do setor público e do setor privado.

E, já agora, se quiserem fazer opções sobre onde "colocar as fichas", sugiro um olhar atento às Aldeias Transfronteiriças, dada a posição geoestratégica privilegiada e o elevado grau de abertura e intensidade exportadora.

Celso Guedes de Carvalho, empreendedor

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