Já foi considerado um dos setores mais robustos do país, mas a banca caiu em desgraça. Debate-se com problemas que aguardam soluções. Ninguém melhor do que um CEO de um banco para analisar o negócio e apontar caminhos.
O país tem discutido os sms trocados entre um banqueiro e um ministro das Finanças. Como tem acompanhado o processo e que leitura faz da polémica?
Além da componente rocambolesca de todo o processo, acho que é desbaratar um ativo muito importante no sistema financeiro, que é a confiança. No final do dia, os consumidores e os clientes estão a assistir a isto, podia ser evitado. Num setor em que a confiança não está no nível mais alto, vem também beliscar essa componente e acho que de forma desnecessária.
Tem pena que, depois da recapitalização que se conseguiu para a CGD, o processo fique manchado por este episódio?
Gostaria não pensar muito nele, área que não é a minha especialidade. O que interessa é recapitalizar o sistema financeiro e, certamente, analisar as perdas da CGD seria mais interessante para o setor e para as pessoas. Mas a agenda política não compete ao setor bancário.
Falamos do maior banco português, que a maioria achava seguro. De repente a CGD tinha quase todos os problemas que os privados tinham. Houve má gestão?
O sistema financeiro português não é diferente do internacional. Havia uma maneira de fazer banca que era muito assente na alavancagem financeira, ou seja, dar maior quantidade de crédito possível.
E sem critério, em alguns casos?
Com critérios diferentes, pelo menos. Depois da falência do Lehman Brothers, em 2008, mudaram-se os critérios contabilísticos de avaliar o que era um bom ou mau crédito. Ou seja, é muito fácil hoje avaliarmos a realidade de há 20 anos com os critérios de agora e achar que foi má gestão. Nessa altura, as regras para um crédito ser mau ou bom eram muito mais brandas. Isso levava a aprovações, não diria sem critério, mas em critérios que não são os de hoje. Dou um exemplo: o rácio de crédito vencido, o que não é pago pelos clientes, há 10 anos em Portugal andava em 1,5% e hoje esse rácio é muito maior, à volta dos 15%, o que significa que hoje quando se olha para os créditos é de uma forma muito mais rigorosa e também já não é permitido aos bancos fazer financiamento próprio, onde se criavam novos financiamentos que incorporavam os juros. Então, havia um conjunto de entidades não solventes que viviam à custa do crédito. A lição para Portugal é que isso veio gerar um tecido empresarial muito dependente do crédito, o que na minha opinião não é positivo. A taxa de capitalização das empresas acabou por ser muito deficiente porque o sistema permitia que vivessem do crédito.
No Novo Banco, a nacionalização poderá ser uma boa opção?
Uma nacionalização do Novo Banco parece-me um retrocesso, mas também me parece unânime - excetuando componentes mais ideológicas -, que do ponto de vista económico a nacionalização seria um último recurso. Também não sei como é que as entidades europeias acham que poderia ser viável. Se houver uma solução que não envolva a nacionalização, é melhor.
Das propostas conhecidas não há nenhum grupo bancário na corrida. Os que mostraram interesse iriam desmantelar e vender às fatias. Ainda assim, acha que é preferível vender a qualquer custo do que nacionalizar?
Essas vendas têm condicionantes, restrições, compromissos. Não estou envolvido no processo e acho que seria uma especulação estar a assumir…isso.
Mas está no setor, acompanha...
Gosto de pensar que quem está envolvido no processo está a fazê-lo com bom senso. O que eu tiro disto, e da fase a que chegámos, é alguma pena. É mais isso, do que pensar se os bancos são detidos por entidades estrangeiras ou não. É ver que uma percentagem muito significativa da quota de mercado acaba por ser detida por bancos que consolidam noutras jurisdições ou até sucursais, e acho que isso, a prazo, pode vir obviamente a condicionar o financiamento da economia portuguesa.
Considera preocupante o facto de a banca portuguesa estar quase toda, exceto a CGD, na mão de estrangeiros. A discussão dos centros de decisão nacional volta a fazer sentido ou não?
É uma questão de ver que alternativas existem. Não havendo investidores nacionais com capital, mais vale que sejam investidores estrangeiros a vir desenvolver a nossa atividade económica. Separava aquilo que são bancos detidos a 100%, ou quase, por entidades estrangeiras e que consolidam em termos de grupo económico-financeiro noutras jurisdições de outros bancos, que tendo a sede em Portugal têm a consolidação financeira em Portugal e, por sua vez, têm acionistas principais estrangeiros.
Em nove anos, foram à falência quatro bancos em Portugal (BPN, BPP, BES e Banif). A CGD foi o que falámos. Como é que as pessoas podem confiar no sistema financeiro português?
A principal nota que as pessoas devem reter é que não houve um único depositante em Portugal que tenha perdido um único euro neste processo. Depositante, não digo entidades ou que tivessem papel comercial...
Mas se olharmos para o que os contribuintes já pagaram, as contas são outras…
Mas aí temos de ver também outros setores, ver a contabilidade do Estado, ver onde é se têm vindo a alocar todos os biliões de euros que hoje somam a nossa dívida como país e também a dívida privada. A confiança no setor vem de nunca ninguém ter efetivamente perdido um único euro nos seus depósitos. Além disso, as regras mudaram completamente e o escrutínio que os bancos têm hoje nada tem nada a ver com o que era há 10 anos.
Mas percebe a desconfiança das pessoas. Há motivos para isso?
Não há motivos para a desconfiança, há motivos para a desilusão. Eu como bancário sinto-me desiludido. Um setor cuja maior característica é fiduciária, tomar conta do dinheiro dos outros com uma atenção muito maior do que se fosse nosso, que é a primeira lição como bancários, e ver que esse património foi de alguma forma desbaratado nestes últimos anos. Sou um otimista e acredito que os bancos têm um papel fundamental na vida das pessoas, que é uma componente que se esquece. Cerca de 50% do crédito em Portugal é a particulares, desses, 80% são crédito habitação e se pensarmos nas taxas do crédito habitação em Portugal, que em muitos casos são negativas, e na quantidade de sonhos que a banca permitiu que se realizassem... Além disso, têm o homebanking, os multibancos. Pensar em toda a componente positiva que os bancos tiveram e têm, acho que é um setor que neste momento tem um desajuste em relação à sua perceção pelos seus consumidores e a utilidade que o serviço tem. Não se deve misturar as duas coisas. Deve passar-se para o próximo capítulo.
O próximo capítulo será marcado pelas tecnológicas. À época, o lançamento do BIG, que ajudou a fundar, foi uma espécie de fintech. Hoje as fintech são vistas como uma ameaça à banca tradicional, onde agora está. São mesmo uma ameaça?
São, especialmente nos sistemas de pagamento. O grande desafio para a banca é perceber e antecipar as grandes mudanças de consumo. E é aí que as fintech entram. Não têm o passado ou o peso de todo o crédito malparado e a única coisa com que se estão a preocupar é fazer novas formas de satisfazer as necessidades financeiras dos clientes. Aí as fintech estão a dar cartas a nível mundial. O sistema de pagamentos é a parte que está mais à frente e tem a ver com os pagamentos internacionais. Estamos na zona euro e esquecemos um pouco isso, mas em países que não estão em zonas monetárias, o valor que os bancos cobravam e cobram por estas operações é muitíssimo alto. Hoje, esse custo só existe se formos ao Reino Unido, aí vemos os custos que existem e as fintechs estão muito focadas nesse segmento. Acho que vão dar uma lição à banca e quem não se souber adaptar.
E os bancos vão tornar-se fintech ou vão comprá-las?
Nos anos 2000 isso aconteceu bastante. Não era o conceito ainda de fintech, mas era quando a internet se estava a democratizar. Há aqui um problema cultural: na antiga Europa até achamos que há uma oportunidade para nós. No banco Atlântico Europa não temos o peso em termos de crédito nem estrutura de balcões, mas temos muita experiência bancária e a componente a regulatória que tem alguma vantagem, porque é uma barreira à entrada das fintechs. Ao mesmo tempo contratamos muita gente jovem, e até preferimos pessoas que não tenham estado na banca, para abordarem o cliente de uma forma completamente diferente.
Está, portanto, a contratar?
O banco é pequeno, tem só 130 pessoas, mas vamos continuar a recrutar, principalmente em big data, programação informática e matemáticos, para fazer análise.
Qual é o plano para crescer?
Queremos que tudo se faça via smartphone, mas podemos ter um ou outro balcão. Temos a ambição de ir para outros países na Europa, porque no modelo tecnológico não faz sentido se for mono-país. É para internacionalizar.
E está a pensar em que países?
Depois da Namíbia em 2015, já temos o pedido para outro país entregue no Banco de Portugal, mas não vou anunciar.
É um país europeu?
Sim, é europeu.