Diretor de Serralves: corte de 50% nas fundações seria uma ação de extermínio

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Para João Fernandes, cortes de 50 % no financiamento das fundações ligadas à cultura seriam uma "ação de extermínio", que impediriam instituições como Serralves de contribuir para dar aos portugueses "a exigência necessária de cidadania para sair desta crise".

Para o diretor de Serralves, que abandonará o museu no final do mês, a hipótese de maiores cortes no financiamento das fundações, aventada por deputados da maioria governamental, "seria quase uma ação de extermínio em relação a muitas instituições que estruturam o acesso dos portugueses às realidades culturais, à criação artística".

João Fernandes considera que "ameaçar projetos culturais como Serralves com cortes de 50 % seria, de algum modo, amputar a sociedade portuguesa, empobrece-la de uma forma muito significativa, que impediria inclusivamente a exigência necessária de cidadania para sair desta crise".

Para o novo subdiretor do Museu Reina Sofia, em Madrid, "sem um tecido cultural vivo, sem um contexto educativo em que as pessoas consigam cada vez mais exercitar a sua competência crítica em relação ao mundo em que vivem - e a cultura é isso também - a crise não será ultrapassável, as pessoas serão cada vez apenas vítimas dessa mesma crise, não conseguindo encontrar portas de saída".

Questionado sobre o estado da arte em Portugal, João Fernandes lembrou o brasileiro Hélio Oiticica (com exposição no Centro Cultural de Belém) que um dia escreveu "da adversidade vivemos".

Os artistas nacionais, defendeu, têm "vivido da adversidade também", num país em que há "escassez de coleções, escassez de espaços de apresentação, a escassez de uma recensão critica que faz com que o contexto português seja extremamente pobre em muitos aspetos, com a exceção precisamente de algo que não é escasso em Portugal: a quantidade e a qualidade de artistas que teimam em criar novas realidades artísticas e novas formas de fazer arte".

Para alguém que esteve durante 16 anos numa instituição apontada como exemplar, até por reunir o apoio de Estado e privados, existem ainda "assimetrias muito grandes no contexto no panorama cultural português, entre o que acontece em Lisboa e no Porto e o que acontece no resto do país, entre o litoral e o interior, entre o que são projetos independentes de programação artística como acontece no caso de Serralves, da Casa da Música ou da Fundação Calouste Gulbenkian, por exemplo, e o caso das estruturas culturais promovidas pelas autarquias".

Estas "estão muito dependentes de fatores circunstanciais políticos" e muitas vezes "a vida cultural depende dos calendários eleitorais, o que impede as instituições de construir a sua independência".

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