Dividendos altos ameaçam futuro das empresas

Cotadas nacionais vão distribuir mais dividendos neste ano. Mas analistas alertam para os riscos da “generosidade” das empresas
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Maio é sinónimo de dividendos no calendário dos investidores. Em Portugal, com a época ainda a meio, já foram contemplados os acionistas de empresas como Jerónimo Martins, Sonae ou EDP Renováveis. E quase todos têm motivos para celebrar, já que neste ano as cotadas nacionais decidiram abrir os cordões à bolsa.

No total, vão ser distribuídos 2,2 mil milhões de euros, mais 350 milhões em relação ao ano passado. Algumas empresas vão mesmo partilhar com os investidores um valor que ultrapassa os lucros de 2016, como a Sonae Capital e os CTT, que são também os títulos mais rentáveis da praça lisboeta.

A empresa do grupo Sonae gerou um retorno de 11,9%, enquanto a rentabilidade dos CTT ascende a 9,4%. A rentabilidade média do PSI 20 subiu de 3,9% para 4,8% num ano.

Porém, será a política de altos dividendos sustentável para as empresas? David Brett, analista de investimentos da gestora de ativos Schroders, tem dúvidas. Na visão do especialista, os dividendos elevados podem parecer interessantes no curto prazo, mas podem pôr em risco a evolução das empresas a longo prazo e, consequentemente, a distribuição de dividendos no futuro.

“Os investidores caem muitas vezes na tentação de comprar ações que prometem elevados dividendos no imediato, porque precisam de liquidez imediata, possivelmente para complementar reformas antecipadas”, explica David Brett. Mas na opinião do especialista, “aqueles que puderem esperar mais tempo podem tirar vantagens se optarem por investir em empresas que oferecem perspetivas sobre um aumento gradual dos dividendos”.

Para que um investimento em ações seja sustentável, segundo a gestora de ativos, a estratégia a seguir poderá ser a menos óbvia. “Pode ser uma surpresa para alguns, mas a verdade é que algumas das melhores empresas ao nível do crescimento gradual de dividendos são aquelas que, a certa altura, cortam os seus dividendos. O corte de dividendos reflete tanto as dificuldades do passado como o potencial futuro de uma empresa”, destaca Nick Kirrage, gestor de fundos da Schroders.

Mas a lógica não é fácil de acompanhar. “Essas empresas muitas vezes não são bem vistas pelos investidores, e é por isso que quando decidem reduzir os dividendos, o valor das ações tem tendência para recuar”, destaca.

“No entanto, a história prova que, ao longo do tempo, o valor das ações recupera e os dividendos dessas empresas aumentam muito mais do que o esperado pelos mercados”, remata Kirrage. A conclusão? “Não há quaisquer garantias em relação ao pagamento de dividendos nas empresas.”

É por isso que os especialistas aconselham os investidores a diversificar a carteira de ativos, por exemplo com títulos de dívida, de forma a “alcançar o equilíbrio” e a estar menos sujeito à “lotaria” das bolsas...

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