

Ao longo das próximas semanas, o podcast Educar +, um projeto da Iniciativa Educação (IE) em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo, vai trazer ao debate os vários programas educativos criados pela IE. Naquele que foi o primeiro episódio da série, Nuno Crato, presidente da IE, e João Lopes, professor na escola de Psicologia da Universidade do Minho e coordenador nacional do programa “A a Z – Ler Melhor Saber Mais”, puseram a destaque a importância da leitura e as dificuldades com que uma percentagem crescente de jovens tem com a sua aprendizagem.
Os dados do último PIRLS, datados de 2021, revelam que 25% dos alunos portugueses do quarto ano não alcançam níveis razoáveis de leitura e, de acordo com o PISA de 2022, 23% dos jovens de 15 anos têm dificuldades extremas a ler. “Estamos a falar de jovens que têm tantas dificuldades a ler, que começam a ler um jornal e desistem ou, perante as instruções de uma máquina, têm dificuldade em perceber o que lá está escrito”, alerta Nuno Crato. São indivíduos que, ao longo do seu percurso de aprendizagem, não automatizaram a fluência de leitura necessária à vida em sociedade.
“A fluência funciona relativamente à compreensão num princípio de vasos comunicantes: quanto maior for o esforço que tenho de empregar para identificar palavras, menos compreendo. E quanto menos esforço tiver de fazer, quanto mais automaticamente reconhecer as palavras, maior energia fica para a compreensão”, explica, por seu turno, João Lopes, que enfatiza a importância da leitura enquanto instrumento de aprendizagem para as restantes áreas do saber. “Se quiser aprender alguma coisa na área da físico-química tenho de saber ler, se não tiver esse instrumento nunca irei aprender físico-química” exemplifica.
A importância da intervenção precoce
O programa “A a Z – Ler Melhor Saber Mais” foi pensado para apoiar os alunos do primeiro e segundo ano de escolaridade com dificuldades de aprendizagem da leitura. A escolha dos alunos que acabaram de iniciar o seu percurso escolar como alvo do programa baseia-se em estudos que mostram o quão importante é uma intervenção precoce para uma eventual recuperação. “O professor João Lopes alertou-nos [para o facto] de que os jovens que têm dificuldade de leitura logo no primeiro e segundo ano de escolaridade têm possibilidades relativamente rápidas de recuperação e de atingir os níveis médios das turmas. Mas os jovens que arrastam essas dificuldades durante vários anos, têm muito mais dificuldades em alcançar o nível de leitura desejado”, revela Nuno Crato.
Como explica João Lopes, a taxa de recuperação de esquemas de apoio aplicados a alunos de primeiro e segundo ano chega aos 80%. Uma percentagem que cai para metade nos dois anos seguintes e que, chegado ao quinto ano, não ultrapassa os 10%. “Para que a intervenção seja eficaz tem de se começar nos primeiros anos de escolaridade – não se pode ficar à espera ou pensar que com a maturação se chega lá porque para aprender a ler não basta estar exposto à leitura”, diz João Lopes.
Ainda assim, continua o coordenador nacional do “A a Z”, haverá sempre alunos (mais concretamente 20% dos alunos intervencionados) que, mesmo acompanhados, não conseguirão atingir a média da turma. E, num sistema de ensino que visa a escolarização universal até ao 12º ano, serão muitos os alunos com dificuldades. “Diria que a boa parte dos sujeitos não conseguirá cumprir esse caminho ou terá grandes dificuldades, a maior parte irá mais ou menos e uns poucos atingirão o objetivo sem dificuldade e até com vontade. O que acontece é que a leitura e a escrita são instrumentos de aprendizagem. Ou seja, se eu não tiver esse instrumento não vou conseguir progredir razoavelmente”, afirma João Lopes, que combate a ideia de que parte destas dificuldades são devidas à “preguiça” dos alunos.
“Em geral, as crianças quando vão para a escola vão altamente motivadas. E, quando chegam à escola há alguns que começam a falhar, mas não desistem imediatamente. Isto porque as crianças muito pequenas não distinguem esforço de capacidade e, por isso, continuam a esforçar-se e, provavelmente, continuam a falhar”, explica João Lopes. Contudo, a partir de uma certa altura, a dificuldade passa a ser interiorizada como falta de capacidade, o que leva a criança a evitar uma tarefa da qual sabe à partida que irá sair-se mal. “É altamente improvável que um sujeito de seis anos não queira demonstrar competências. O que acontece é que se apercebe que tem dificuldades e interioriza a noção de que não é capaz. E se não é capaz, evita. É também por isso que queremos intervir o mais cedo possível”, diz João Lopes.
Organização e sistematização como pedra de toque
A formação de professores é o passo inicial do programa “A a Z”. “Há programas muito diferentes de formação de professores. E o ensino da leitura – que deve ser explícito, organizado, começando pelas sílabas, pelas letras – nem em todos os locais recebe a mesma atenção na altura da formação inicial de professores”, justifica Nuno Crato, para quem esta formação inicial, dirigida a tutores e professores titulares da turma, “é absolutamente necessária”.
Depois dessa primeira formação e de identificados alunos com dificuldades é feita uma avaliação inicial. “Depois aplicamos o programa e de três em três semanas avaliamos os nossos alunos do A a Z”, explica João Lopes. No total, são feitas nove avaliações aos alunos em dificuldades, a que se juntam três avaliações que incluem também os alunos das turmas em que os primeiros estão inseridos. “Teoricamente o programa chega ao fim quando aluno atinge o nível médio da turma”, diz o coordenador nacional. Ainda assim, seria benéfico que boa parte destes alunos mantivesse o apoio por mais algum tempo, defende João Lopes, para quem a chave do sucesso do programa está na sua organização e sistematização. “Tem de se saber exatamente o que se faz, quando se faz e como se faz. Essa é a diferença. Nós não descobrimos a pólvora mas, em todo o Mundo, os programas mais eficazes, são os programas organizados, estruturados, sequenciados, e que duram o tempo necessário”, defende.
Outro fator importante é a existência de uma equipa central (da IE), disponível para apoiar as escolas e os professores, de modo a que o programa não se desvirtue ao longo do tempo: “Queremos ter 50 professores a aplicar um programa, não queremos ter 50 programas aplicados por 50 professores”.