Cedo começaram no mundo do trabalho. André Ferreira, 29 anos, iniciou carreira como pescador local, sem ordenado fixo, dependente da quantidade de pescado capturado para ganhar o seu ao final do mês. Mário Baltazar, de 27, estreou-se profissionalmente quando abriu um restaurante em Terena, uma pequena terra no Alentejo, ao mesmo tempo que cuidava do gado da família. A ambos, os ofícios rendiam pouco mais do que um salário mínimo. Descontentes com as suas realidades e movidos pelo sonho de progredir na carreira, viram na tecnologia uma oportunidade para mudar de vida - e foi na Ironhack que depositaram a esperança.
Na mala para o campus de Lisboa, onde realizaram um dos bootcamps da escola de programação, levaram pouco dinheiro e apenas o conhecimento básico de um utilizador. Durante nove semanas intensivas, que exigiram um ritmo acelerado e longas horas de trabalho, nunca se questionaram se era algo que conseguiriam fazer: "Foi o percurso que escolhi e senti uma obrigação para comigo mesmo de levá-lo até até ao fim", confessa André Ferreira. Naquela que foi uma longa jornada, os sentimentos de pertença e camaradagem entre alunos e professores ajudaram a cumprir o propósito.
Os frutos não tardaram em aparecer. No espaço de um mês, os então programadores encontraram as primeiras oportunidades na área. Mário Baltazar ingressou na Gamifyou, onde à data é associate software developer - posição que lhe garante um ordenado líquido mensal em torno dos 1500 euros, quase o dobro do que ganhava no restaurante. Já André Ferreira começou a trabalhar como professor assistente na Ironhack, passou depois pela Critical TechWorks, enquanto software developer, e, mais tarde, regressou à escola onde aprendeu a profissão para assumir o cargo de lead teacher do bootcamp de Web Development e duplicar a quantia que recebia nos tempos do mar.
O código mudou as suas vidas. "Neste momento, posso dizer que adoro o meu trabalho. Sinto-me feliz com o que faço e consigo manter uma motivação que nunca tinha conseguido", diz o ex-proprietário do restaurante. Do outro lado, também o antigo pescador deixa o seu testemunho: "Passei de uma profissão em que, por vezes, trabalhava mais de dez horas todos os dias numa embarcação e com apenas uma folga quinzenal, para um trabalho dito normal, das 9h às 18h."
Entre as vantagens que apontam ao seu mundo novo, a carga horária acaba por perder relevância para aspetos como o gosto pelo trabalho e a sensação de progresso. "Esta é uma carreira de constante evolução em que qualquer tarefa que se realize, por muito mundana ou repetitiva que pareça, está constantemente a acrescentar valor ao nosso leque de conhecimento. A procura de soluções para os problemas que nos são apresentados motiva-nos a continuar neste percurso."
Mário e André foram apenas duas das 826 pessoas que a Ironhack já ajudou a converter para a tecnologia em Portugal. Passaram-se exatamente quatro anos desde que a escola de programação espanhola decidiu entrar em terras lusas e a procura tem-se revelado cada vez maior, ora por parte dos portugueses, que representam 56% do bolo, ora por parte de estrangeiros, entre os quais se destacam norte-americanos, espanhóis e brasileiros.
"As pessoas que chegam até nós procuram, acima de tudo, uma mudança rápida de vida. A maioria dos alunos são pessoas que não tinham qualquer experiência na área tecnológica e que sentiam que a sua situação não os estava a permitir alcançar as suas ambições, seja profissionais ou pessoais", conta Catarina Costa, responsável pelo campus de Lisboa, em entrevista ao Dinheiro Vivo.
A história repete-se, com grande parte dos interessados - cujo intervalo de idades de situa, por norma, entre os 27 e os 32 anos - a ambicionarem uma maior estabilidade e progressão de carreira rápida e contínua... E a olharem para o setor tecnológico como uma verdadeira solução. Embora a maior fatia procure requalificar-se no mercado de trabalho, há também quem veja na escola uma oportunidade para o upskilling, isto é, para otimizar as já adquiridas habilidades tecnológicas.
Dos mais de 800 que se aventuraram na Ironhack, 98% conseguiram um emprego, impulsionados, em parte, pelas parcerias firmadas com diversas empresas do setor, que vão diretamente até à escola "à procura de talento para dar resposta às suas vagas na área de tecnologia, múltiplas vezes ao ano". Critical Techworks, Deloitte Digital, Pipedrive e Mercedes-Benz.io estão entre as mais de 150 companhias que já recrutaram "ironhackers" em Portugal, de acordo com a mesma responsável.
Relativamente aos salários alcançados, Catarina Costa atenta que "dependem de uma série da fatores", nomeadamente "a preparação do aluno, o tipo de empresa e o tipo de contrato". Ainda assim, e sublinhe-se, logo após terminarem os bootcamps, os alunos recebem propostas que vão dos 19 mil aos 25 mil euros anuais, sendo que "a evolução nesta área é rápida e, por norma, os ordenados podem ser revistos anualmente, ou mesmo de seis em seis meses".
Web Development, UX/UI Design, Data Analytics e Cibersecurity fazem parte da oferta de cursos intensivos da Ironhack, que podem ser feitos em formato presencial, num dos campus, ou remoto, a partir de qualquer ponto do globo. Para ambas as opções, há a possibilidade de ingressar em regime full-time, que pressupõe uma duração de nove semanas e aulas das 9h às 18h, ou em pós-laboral, durante 24 semanas.
Aos candidatos não é exigido qualquer tipo de experiência na área, somente disponibilidade para emergir num método de ensino "bastante prático". Já no que aos custos diz respeito, estes diferem em função do formato escolhido: presencial 6500 euros e remoto 7500 euros. Para aqueles que não têm capacidade para pagar de uma só vez, a escola de programação tem planos flexíveis, nos quais se incluem o pagamento a prestações e as bolsas reembolsáveis ISA da Fundação José Neves.
Com o intuito de "ajudar a combater a escassez tecnológica e alavancar as carreiras dos alunos", a escola criou ainda um serviço de carreiras, o Careerhack. É nada mais do que um programa de acompanhamento que se estende "durante toda a passagem dos alunos pela Ironhack até arranjarem um emprego que faça match com as suas ambições".
Embora Madrid seja a sua casa-mãe, a Ironhack conta com campus físicos também em Barcelona, Paris, Amesterdão, Berlim, Miami, São Paulo, Cidade do México e Lisboa. E se anteriormente o último da lista tomava forma num espaço de cowork, a partir de hoje passa a ter um espaço só seu, no Terreiro do Paço, no centro da capital, para comportar o crescimento da escola no país e "garantir as melhores condições" a quem a escolhe - sejam alunos, equipa ou parceiros.
"Desde 2019, temos vindo a trabalhar continuamente na nossa expansão e, com o número de alunos a crescer significativamente, foi necessário procurarmos uma nova casa, pronta para receber da melhor forma possível os nossos 'ironhackers'. A nossa equipa também tem crescido, portanto esta decisão também a teve em conta", observa Catarina Costa. Atualmente, a Ironhack tem mais de 200 colaboradores espalhados pelas diferentes regiões onde marca presença, estando mais de dez em Portugal.
Localizado na Rua Instituto Virgílio Machado, o campus é agora mais amplo e está pronto para "receber mais turmas, organizar mais eventos e ajudar mais pessoas a mudar de vida". Ao todo são cinco salas, uma copa, um local de descanso e entretenimento, um espaço para a equipa interna e várias salas de reuniões. A cereja no topo do bolo, aponta a responsável, pertence ao terraço, que conta com vista para o rio Tejo. A partir de agora, a história da escola de programação em Portugal far-se-á noutro lugar.