Do Pixel 8 vê-se o futuro

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A chegada da Google Store a Portugal no mesmo dia em que a empresa lançou os seus novos smartphones, Pixel 8 e Pixel 8 Pro, marcou um avanço significativo para a sua estratégia de hardware. Tem sido um caminho longo e com alguns percalços. Apesar de ser a criadora do sistema operativo móvel mais usado do mundo, Android, a Google nunca conseguiu traduzir esse domínio em vendas do seu próprio hardware. É isso que pode mudar a partir de agora.

O progresso tem sido encorajador, os números absolutos é que não. De acordo com o vice-presidente associado da divisão de dispositivos na IDC EMEA, Francisco Jerónimo, as vendas dos smartphones Pixel têm crescido a dois dígitos nos últimos anos e atingiram 37,9 milhões este ano.

Mas não neste ano: em todo o seu ciclo de vida, desde o lançamento em Outubro de 2016 até Outubro de 2023. A Apple vende mais iPhones que isso num só trimestre.

Há que salientar que vender smartphones não é o núcleo duro do negócio da Google e ninguém esperava que os Pixel disparassem para o topo só por serem da mesma fabricante do Android. Mas eram uma oportunidade de mostrar a simbiose perfeita entre hardware e software, juntamente com os serviços que milhões de pessoas não dispensam e uma experiência de utilização diferenciada.

As funcionalidades exclusivas e as melhorias incrementais a cada iteração dos smartphones foram apreciadas pelos fãs, mas só agora parece haver uma diferenciação realmente importante: a Inteligência Artificial embebida nos dois modelos. É principalmente a integração de IA generativa que faz o Pixel 8 parecer uma experiência distinta, justificando o preço mais elevado (829 euros em Portugal; 1.139 euros na versão Pro).

Quando as fabricantes apresentam os seus novos modelos, passam algum tempo a descrever o que acham ser os feitos incríveis dos seus engenheiros, descrevendo inovações que para muitos soam à professora do Charlie Brown - wah wah wah wah wah wah wah. Sim, o Tensor G3 pode ser uma maravilha da engenharia da computação, mas o que faz mesmo a diferença é pegar num Pixel 8, tirar uma fotografia e depois usar as ferramentas de edição que há uns anos nem um profissional tinha. Apagar coisas em pano de fundo e ver o sistema a reconstruí-lo com um editor verdadeiramente mágico.

Emparelhado com os auscultadores Pixel Buds Pro, que conseguem detectar o início de uma chamada e têm modos super úteis - cancelamento automático de ruído, modo de transparência - as habilidades IA deste alinhamento Pixel são o grande chamariz. Do Pixel 8 vê-se o futuro. A forma como esta nova era da IA será embebida no aparelho mais pessoal e importante que temos, a forma como permite uma personalização extrema, até uma infantilização. Precisamos mesmo de IA generativa para criar uma legenda para fotos nas redes sociais? Toda a gente tem de ter um assistente criativo, até para legendar a foto de um cão? O que andamos aqui a fazer? Menos, muito menos.

O facto é que o Pixel 8 encarna a demonstração de capacidades IA da Google, depois de um ano em que a empresa pareceu comer o pó da OpenAI - e, por extensão, da Microsoft. Ao usar o telefone de forma consistente, é isto que me parece convincente para os consumidores que querem comprar um smartphone novo e não estão necessariamente presos a uma marca. Quem já usa Android vai sentir uma elevação imediata da experiência. Quem é utilizador decenal de iPhones vai sentir mais familiaridade que com telefones Android de outras marcas.

Foi essa, precisamente, a reacção de uma das primeiras pessoas que vi pegar num Pixel 8. "Estão cada vez mais parecidos com os iPhones", apontou. Creio que nem sequer é bem isso, apesar de o iPhone ter sido o modelo que os outros seguiram. Está difícil diferenciar no visual, na aparência do sistema e até nas funcionalidades mais interessantes - quando surgem pela primeira vez não são únicas por muito tempo.

O que este Pixel 8 (e 8 Pro) têm de relevante é mesmo a forma como a IA permeia toda a experiência. Possivelmente de forma exagerada, quase como um exercício de mandar barro à parede e ver de que é que os consumidores gostam mesmo e vão querer continuar a usar. Alguém tinha de o fazer. E quando vierem aí os próximos "feature drops", as funcionalidades que a Google vai adicionando de forma cadenciada, podemos ter a certeza que a IA estará à frente e no centro - e que a Apple, prestes a lançar o seu Vision Pro, vai estar na lateral a tirar notas.

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